‘The Hobbit: The Desolation Of Smaug’


Quando em 1937 Sir John Ronald Reuel Tolkien publicava The Hobbit, trazia de volta ao Mundo a narrativa épica que Beowulf inaugurara na literatura medieval. E quando em 2011 se anuncia o filme d’ The Hobbit, rejubila-se com a sensação de um regresso d’ The Lord of the Rings. De facto, aquando da estreia de An Unexpected Journey, era inevitável a comparação com a derradeira obra de Jackson. E para aqueles que o fizeram, aguardava-se o desapontamento.

Bom, a verdade é que se já é errado comparar as duas obras originais de Tolkien, fazê-lo com os filmes torna-se ainda mais drástico. O Hobbit ganha um estatuto muito diferente do Senhor dos Anéis, e este segundo capítulo só o vem consolidar.

Esta segunda parte, Desolation of Smaug, é uma aventura incrível do início ao fim, dentro e fora das paredes do ecrã. Bilbo aceitou o desafio de viajar até à Montanha Solitária na companhia de orgulhosos anões, para tentar recuperar um tesouro escondido e derrotar um dragão; e Jackson aceitou um desafio de igual monumento. Com uma estética brilhante, o filme é enorme – especialmente em tempo relativo – e cansa-nos de uma maneira que o seu introdutor, Unexpected Journey, não conseguiu.

É, de facto, uma segunda parte muito mais completa e recheada, muito mais vibrante, e acima de tudo, mais negra, definitivamente, que consegue salvaguardar um projecto que podia não parecer convincente no primeiro filme. O grupo de Thorin, dos anões, Gandalf e Bilbo continua onde ficou, a meio caminho do seu destino, Erebor, ainda perseguidos por um bando de orcs da velha guarda. Através da floresta de Mirkwood e dos seus altivos elfos, de Dol Goldur e da sombra que a habita, da Cidade do Lago até Erebor, são quase 3 horas de sequências delirantes e momentos espantosos. Para aqueles com maior dedicação ao mundo de Tolkien, guardam-se algumas surpresas (boas ou más, depende do tipo de dedicação) que o grupo de argumentistas tratou de preparar.

Para além de pequenas alterações à história, normais numa adaptação do género, Peter Jackson e seus companheiros de escrita acabam por apoderar-se (bastante bem, diga-se) do plano de Tolkien. O papel de Legolas e de Tauriel, ele invocado para a história, e ela criada de raiz para o filme, mostram bem a ligação e o carinho que Jackson tem com o tolkienismo – não fosse ele o seu fã número um. Legolas e Tauriel roubam o espectáculo, e entre eles criam um triângulo amoroso (com outro elemento surpresa), capaz de cenas românticas bastante interessantes, com as suas pitadas de cliché saudável (um pouco ao nível de Aragorn e Arwen).

Para além disso, Jackson quer mesmo permitir que as suas duas obras possam andar de mãos dadas, e constantemente relembra-nos -através de pequenos detalhes e referências – da ligação histórica que existe com os acontecimentos d’O Senhor dos Anéis, que têm lugar 60 anos depois do Hobbit, pelo que Legolas acaba por se tornar um elo especial entre elas.

O elenco do filme é excelente e completo, com especial fulgor para Benedict Cumberbatch, no papel de Smaug. Smaug é um inimigo e vilão absolutamente fabuloso. Egomaníaco, perigoso, sedutor, com especial apetite para jogos e uma fixação com ouro, Smaug é uma criação overwhelming, e define absolutamente a conclusão do filme. O último acto do filme é imersivo, e partida para o terceiro capítulo é, de tão bem colocada, quase revoltante. No geral, a uma história de aventuras juvenil anexou-se uma aventura tecnológica mais que adulta. A realização é inabalável, e Peter Jackson um artista completo (palmas até para os dois ou três segundos de cenas de GoPro!).

Nunca se viram efeitos especiais assim, nem tão competentes como estes; existe mesmo alguma dificuldade por vezes em perceber se determinado actor ou duplo terá mesmo feito aquilo, ou se sim, são efeitos especiais. A banda sonora, a cargo de Howard Shore (como não?) é matemática, fundamental e discreta. A história, essa tão complexa batalha, é excelente. Faltam algumas linhas do livro, claro, mas o que se ganhou é infinitamente maior.

Texto de Rafael Traquino