Cirque de Soleil: Dralion


O pé esquerdo trepa umas costas. A perna direita trepa outras costas. Os braços estendidos puxam das costas o primeiro acrobata para as costas do acrobata em cima deste. Uma fracção de segundo para encontrar o equilíbrio, outra para verificar se os outros também estão na formação e é aí que começa a girar uma corda e uma construção piramidal de homens salta, espera, volta a saltar e recebe uma ovação de um público fascinado, antes de terminar com um salto mortal.

O espetáculo Dralion do Cirque de Soleil, em exibição no MEO Arena, é tudo o que circo auspicia ser: divertido, impressionante e entretenimento pop. A julgar pelas famílias felizes presentes no antigo Pavilhão Atlântico, o show é family friendly e não desaponta o espectador casual que está interessado no melhor que o circo tem para dar.

A narrativa não é de todo protagonista. Um personagem vestido de azul interpreta o elemento do ar e as suas acrobacias são principalmente aéreas, um personagem vestido de ocre interpreta a terra e faz acrobacias no chão, por aí em diante até completar a harmonia entre elementos que justifica as piruetas, essas sim, as protagonistas do Cirque de Soleil.

Com um leque diversificado de atletas e com malabarismos, argolas, trampolins e toda a miscelânea acrobática que o público espera, o espectáculo acontece a um ritmo saudável. Os breaks humorísticos são da responsabilidade dos palhaços, outro _must do género e protagonizaram o único momento na minha vida em que vi dragões chineses serem derrotados por um par de ténis Air Max.

O acompanhamento musical é tocado ao vivo e apesar de se balouçar entre o world music e o atmosférico ou ambiental, tem momentos de grande destaque; o início do espetáculo, o fim e quando alguém tropeça ou se atrasa e é preciso um pouco de improvisação. É uma pena que a música durante o espetáculo se torne algo cansativa ou repetitiva, mas as vibes sinfónicas interpretadas são tão cliché de Cirque de Soleil que se tornaram mesmo isso, cliché.

Há, obviamente, momentos fascinantes. Afinal, é uma encenação que assenta em performances individuais e colectivas de atletas preparadíssimos, atravessando coreografias quase kuduro, tradições orientais e momentos de elegância onde a gravidade é tão espectadora como qualquer um de nós. Com uma produção que contribui – e muito – para a grandiosidade deste Dralion, o figurino, as luzes e o ritmo constante a que o espetáculo se desenrola, garantem ao Cirque de Soleil o seu lugar de destaque no universo circense.

Resta apenas saber se o preço proibitivo dos bilhetes não vai afastar o público português. Vai depender do quanto gostam de bom circo.

Fotos: © 2013 Cirque du Soleil