Henrique de Castro, o português que Marissa Mayer meteu fora da Yahoo


Henrique de Castro
 
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Henrique de Castro era até há bem pouco tempo o número dois da Yahoo. O português tinha entrado para a empresa em 2013 a convite da CEO Marissa Mayer. Foi agora despedido por esta. “Aprecio a contribuição do Henrique e desejo-lhe o melhor nas iniciativas futuras”, escreveu num memorando interno.

Da Google para a Yahoo

Com 35 anos, Marissa Mayer foi em 2010 considerada pela Fortune uma das 50 mulheres mais poderosas do mundo. Estava na Google há 13 anos, mas saiu para encabeçar a Yahoo, que atravessava uma grave crise de resultados, de liderança e de visão. Tornou-se CEO em Julho de 2012 e foi buscar à Google, pouco tempo depois (em Fevereiro do ano seguinte), Henrique de Castro (com quem, na verdade, nunca tinha trabalhado na Google).

O português, formado no ISEG, ocupava um cargo de alto estatuto na Google relacionado com o negócio de publicidade desta, tendo sido responsável pelo crescimento da área de anúncios multimédia. Foi presidente disto e vice-presidente daquilo. Trabalhou com o YouTube, o Google Display, o AdMob, o AdExchange e o DoubleClick. O sucesso na Google fez de Henrique de Castro uma máquina de fazer dinheiro com publicidade. Com mais de 20 anos de experiência, Henrique já tinha passado pela Dell, onde geriu as vendas da Europa Ocidental, e antes disso pela McKinsey.

Na Yahoo, Henrique de Castro assumiu o cargo de diretor de operações (Chief Operating Officer, COO), tendo sido encarregue de dirigir e reorganizar o negócio de publicidade da empresa, que estava a ser perdido para a Google e para o Facebook. Marissa Mayer deu-lhe um contrato de 60 milhões de dólares a 4 anos, espantando o mercado pela generosidade dos valores e tornando o executivo no director de operações mais bem pago da América

Na Yahoo, as coisas não correram bem

Henrique foi contratado por 4 anos com um salário mensal de 38 mil euros (463 mil anuais), além de um prémio de retenção avaliado em 14 milhões (na forma de ações unitárias) e de mais 14 milhões (opções de ações) com base no desempenho. Na primeira semana no novo cargo, recebeu 772 mil euros de bónus.

contratação foi, na altura, a maior desde a entrada de Marissa Mayer para a Yahoo, criando expectativas quanto ao futuro da publicidade da empresa, que até ao momento era caracterizado pela sua dependência de banners e sem as capacidades de segmentação da concorrência.

Mas o trabalho de Henrique como número dois da Yahoo não correu bem. O primeiro sinal de alarme apareceu quando o executivo falou no evento anual da Interactive Advertising Bureau (IAB), em Fevereiro de 2013. Henrique de Castro estava em funções há pouco tempo e deu aquela que foi considerada uma das piores apresentações executivas de sempre. Atrapalhado pelo terrível e inperceptível inglês, Henrique relevou incoerências no discurso e dificuldade em expor ideias.

Henrique fez inimigos de peso na Google e repetiu a receita na Yahoo. Incompatibilizou-se com o chefe de vendas Ned Brody, a diretora de aquisições Jackie Reses e a diretora de marketing Kahy Savitt. Alterou completamente a estrutura da organização de venda de publicidade, gerando receios e situações complexas para os executivos da área.

No terceiro trimestre de 2013, as receitas de publicidade da Yahoo recuaram 5%, apesar dos esforços da equipa de Henrique, que melhorou a percepção da empresa em Wall Street e Silicon Valley. Os maus resultados colocaram Henrique de Castro sob enorme pressão. Todavia, Mayer levou a Yahoo a ser lucrativa outra vez e fez triplicar o valor das ações da empresa desde que entrou, apaziguando os investidores (valiam 15,9 dólares quando entrou e valem hoje 40,06).

Mas as áreas chave como a publicidade não subiram. E toda a reorganização que Henrique de Castro levou a cabo só pareceu piorar as coisas.

Despedido no dia

“Durante a minha própria reflexão, tomei a difícil decisão de que o nosso COO (Chief Operations Officer), Henrique de Castro, deve deixar a empresa. Aprecio a contribuição do Henrique e desejo-lhe o melhor nas iniciativas futuras”, explicou Mayer num memorando interno, que foi entretanto tornado público. Não tendo cumprido sequer um ano do contrato, Castro sai com boa parte da compensação prometida até 2016.

Ultimamente, nos corredores da Yahoo, o executivo português era apelidado de ‘Dead Man Walking’. Não apareceu nos eventos em que a Yahoo esteve envolvida ultimamente, incluindo o CES. Nas reuniões, diz-se era transparente o mal estar entre Castro e Mayer. Há meses que a empresa tentava contratar alguém para substituir o diretor de meios Mickie Rosen – ao que parece, a dificuldade advinha de os candidatos não quererem reportar a Henrique de Castro: um homem inteligente, charmoso, mas incrivelmente polarizador.

Henrique sai com compensação chocante: 29 milhões de dólares (21,3 milhões de euros), cerca de metade do que estava inscrito no contrato até 2016. “É um dos pacotes de compensação mais caros de sempre, em especial por menos de dois anos de serviço”, sublinha o especialista na área, Bruce R. Ellig. Há quem estime que Henrique de Castro tenha encaixado 109 milhões de dólares (82 milhões de euros) com a sua passagem pela Yahoo.

Por outras palavras: o erro de Mayer tornou o português milionário.

A Yahoo sem Henrique de Castro

Ainda assim, a Yahoo está no caminho certo. A empresa, nas mãos de Mayer, tem feito aquisições de peso, como o Aviate, e lançado apps excelentes para iOS e Android, como o News Digest. Há, contudo, ainda muitas peças que precisam de ser encaixadas para recuperar a Yahoo, não é algo que se consiga em 18 meses.

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