Capitão Fausto – ‘Pesar o Sol’


Pesar o sol é o nome de uma técnica de navegação (baseada em ferramentas como os sextantes) que, nos séculos XV e XVI, os portugueses utilizaram nas enormes e atribuladas viagens por territórios desconhecidos. Pesar o Sol é também o nome do novo longa duração dos Capitão Fausto – um nome que a banda lisboeta não poderia ter escolhido melhor.

Assim que começo a ouvir a primeira música do álbum, “Nunca Faço Nem Metade”, apercebo-me de que estou a entrar numa viagem. Uma viagem que, ao início, me parece levar para territórios totalmente desconhecidos, terras selvagens, onde me vou perder e às quais vou ficar preso para sempre. De facto, este parece ser o típico caso de um álbum que primeiro se estranha e apenas depois se entranha (não é, claramente, um indicador negativo, até porque acontece com practicamente todos os meus álbuns preferidos).

Mas, quando finalmente o começo a entranhar, descubro que os territórios para onde os Capitão me levam não são tão desconhecidos assim. Ouvintes mais assíduos nos concertos da banda (algo que não era tarefa complicada, já que os Capitão Fausto nunca estiveram parados) conseguirão identificar nas jams “entre-músicas” repletas de phasers e delays, os riffs que estão na génese de grande parte das canções de Pesar o Sol. Na realidade, já todos nós andávamos a ouvir trechos deste álbum, concebido no já longínquo ano de 2012, sem o sabermos.

As canções foram concebidas em 2012, mas o disco só foi gravado em 2013. A banda refugiou-se numa adega, acompanhada do produtor e amigo Nuno Roque e de toda a sua panóplia de material musical. O que, na mudança para este contexto longe de um estúdio tradicional, se perdeu em recursos de engenharia musical e perfeccionismo auditivo (têm até surgido alguns comentários negativos relativamente à mistura das música, se bem que na minha opinião tudo o que foi feito neste disco foi feito propositadamente, até porque a banda teve tempo suficiente para o fazer) foi recuperado em maior liberdade criativa, desprendimento a horários asfixiantes e possibilidades para mergulhar de cabeça no experimentalismo psicadélico.

E a aposta compensou. Apesar do núcleo das músicas poder já ter sido escrito anteriormente, nas músicas de “Pesar o Sol” consigo identificar vários apontamentos que só podem ser resultado de muitas horas de experimentação durante as gravações.

Sim, a banda continua a mesma: duas guitarras, um teclado, um baixo e uma bateria. Mas por cima dessa base – sempre coesa e em harmonia – invadem camadas e camadas de sintetizadores, delays tão longos que parecem ter sido tocados a partir do fundo de uma caverna, arpegios espaciais e estrelados.

A voz do Tomás e dos bastante comuns coros, também elas inundadas de reverbs e repetições, fundem-se com a restante mescla de sons; não dando à voz nem mais nem menos protagonismo relativamente aos restantes instrumentos, mas fazendo dela o que ela é: um instrumento (esta circunstância acaba por nem me fazer ligar muito às letras, durante a audição do álbum, mas de resto é um problema do qual sofro há muito – no entanto é só pegar no livrete que, muito psicadelicamente, homenageia as vinhas onde os Capitão gravaram o disco, para conferir que a poesia do Tomás está presente, e sempre a evoluir para um estilo cada vez mais próprio).

Toda esta tapeçaria de sons contribui para a criação de uma verdadeira parede de som, um oceano harmónico e melódico, onde os Capitão Fausto navegam sem medos, numa viagem que só acaba mesmo no fim. Pelo meio, temos direito a momentos mais frenéticos (como é exemplo a “Célebre Batalha de Formariz”); a algumas aparições dos beats em contra-tempo do Salvador (como no segundo single, “Maneiras Más”), que em Gazela tão rapidamente nos faziam bater o pé; e até a descanso numa ilha deserta no meio do oceano, acompanhado pelo fraseado tão característico da guitarra do Manuel.

No entanto, o prato forte, e mais abundante de Pesar o Sol são as paisagens espaciais, pinceladas pelas mil e uma tonalidades sintetizadas do Francisco, enquanto o baixo do Domingos está sempre presente, mas sem nunca se impor (surge aqui uma das poucas críticas ao álbum: gostaria de ter visto um baixo mais “recortado”; as linhas de baixo são deliciosas e mereciam mais definição no conjunto final da mistura), alongando as músicas para além dos limites imagináveis, e hipnotizando o ouvinte ao ponto de não existir nada para além da música.

Este não é um disco que entra somente pelos ouvidos. Pesar o Sol, desde a primeira música até à peça final, “Lameira”, invade a nossa mente e nela flutua, atingindo-nos de todas as direcções e ainda mais algumas, habituando-nos a “acordar” apenas quando o último eco da última nota tocada se desvanece.

Após ouvir este álbum, só consigo pensar numa coisa: o disco já foi gravado em 2013 e, apesar de ainda agora ter saído, já estou curioso, à espera da próxima viagem que os Capitão Fausto irão musicar.