O vídeo dos beijos da Wren e as nossas fantasias românticas


Na última semana, um vídeo intitulado “First Kiss” andou a circular nas redes sociais. Nada se sabia acerca do pequeno filme, apenas que a realizadora do mesmo, Tatia Pilieva, tinha pedido a 20 estranhos para se beijarem pela primeira vez e serem filmados a fazê-lo.

Para muita gente, talvez, tenha sido a primeira vez que estiveram 3 minutos e meio a ver pessoas a beijarem-se. Mesmo quando vemos um casal a beijar- se na rua, no cinema ou na televisão, parece que o nosso lado mais pudico se apodera de nós e temos tendência a desviar o olhar ou a sentirmos-nos desconfortáveis, principalmente se estivermos com alguém ao lado. No entanto, este vídeo conseguiu que 60 milhões pessoas não só contrariassem essa natureza, mas também que partilhassem o primeiro beijo de 20 estranhos com os seus amigos, familiares e colegas.

Agora já toda a gente sabe que, afinal, o vídeo amoroso dos 20 estranhos a beijarem-se era uma campanha da marca de roupa Wren, e que grande parte dos intervenientes eram actores, segundo a revista Slate, com experiência em cenas íntimas. Ora, isto gerou ainda mais buzz que o próprio vídeo pois, como já bem sabemos, temos tendência a sentirmo-nos atraiçoados pelas marcas que utilizam histórias falsas com uma grande carga emocional para seu proveito. Basta, para isso, lembrarmo-nos da acção de marketing da Cacharel, “À Procura de Diana”, que decorreu em Lisboa. Ainda que os dois casos sejam muito diferentes – a acção da Cacharel foi mal realizada e um erro enquanto que o vídeo da Wren foi incrivelmente bem realizado e uma jogada de génio – ambas as marcas se apropriaram de uma fantasia romântica que todos temos para se ligarem a nós e, no final, revelaram-nos que a fantasia não era real, mas sim uma acção de marketing.

Pondo agora de parte a questão moral e ética da publicidade feita pela Wren, três coisas são certas:

1 – A Wren, seguramente, foi uma das marcas dos últimos tempos que mais buzz gerou nas redes sociais e conseguiu uma exposição mediática brutal, bastante superior à que alguma vez conseguiria em qualquer Fashion Week;

2 – A realizadora utilizou a fantasia romântica que todos nós temos – a de que o amor ou uma forte ligação pode surgir entre dois completos estranhos na situação mais improvável – e foi isso que gerou a enorme identificação entre o público e o vídeo, ou seja, foi o factor-chave para a viralidade deste;

3 – Apesar de alguns se terem sentido um pouco atraiçoados pela marca, o vídeo não deixa de ser bonito e a fantasia romântica por detrás dele também não. No fundo, só confirmou que o ser humano vive pelas e nas fantasias.