Mais do que querer a Beats, a Apple precisa da Beats


Esta semana, a Apple comprou a Beats por 3 mil milhões de dólares. Fica não só com o hardware Beats Audio, como também com o serviço de streaming Beats Music. Na Code Conferece, o executivo de Cupertino Eddy Cue e o co-fundador da Beats Jimmy Iovine responderam a algumas perguntas sobre o casamento das duas empresas.

São os headphones que têm maior peso nas receitas da Beats, mas, segundo Cue, foi o que teve menos peso na decisão da Apple na compra da empresa. O Beats Music – “o primeiro serviço de música por subscrição bem feito”, diz a Apple – foi alegadamente o maior factor da equação.

“O que importa é a música”

A frase – repetida já diversas vezes por Tim Cook – espelha o porquê desta aquisição, a maior de sempre em Cupertino. “Sempre vimos a música como um componente chave da nossa sociedade e cultura. A música esteve sempre no coração da Apple. Está no fundo do nosso ADN”, completou o CEO da Apple ao Recode.

Mas a verdade é que a Apple já esteve melhor posicionada no mercado da música. Hoje a música já não são ficheiros nos nossos leitores; está algures na cloud e chega até nós via streaming. Por isso, mais dia menos dia o modelo do iPod e do iTunes irá desaparecer em favor do modelo do Spotify aka streaming.

O modelo iTunes tem os dias contados

“A taxa estabilizou, é verdade”, confessou Eddy Cue sobre o número de downloads de música. Veja-se este gráfico do tech investor Mary Meeker, que ilustra a grande mudança que está a acontecer (ou já aconteceu) no mercado da música digital: no ano passado, pela primeira vez, os downloads não desaceleraram ; diminuiram mesmo; os serviços de streaming, por seu lado, cresceram imenso.

A Apple tentou antecipar no ano passado o problema, introduzindo o iTunes Radio. Todavia, a coisa parece não ter corrido lá muito bem. Por um lado, o serviço está limitado ao ecossistema Apple e, por outro, nunca saiu dos EUA – dois pontos que tornam o Spotify, o Rdio ou o Deezer, enquanto plataformas abertas e globais, muito mais atractivos.
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O streaming é, sem dúvida, o futuro. Apesar de ainda existirem algumas dúvidas sobre como retirar receitas dele, já está provado o sucesso do modelo. Do lado do consumidor, ter uma enorme colecção de ficheiros MP3 é chato, não só porque sincronizar essa biblioteca entre todos os aparelhos dá trabalho, mas também porque os próprios ficheiros ocupam espaço no disco. Além disso, pagar cerca de 5-10 euros mensais por acesso ilimitado a uma biblioteca quase ilimitada de música é mais vantajoso que comprar álbum a álbum ou música a música.

Por isso, a Apple precisa de entrar no streaming a sério ou perde vantagem para a Google, para a Microsoft ou para o Spotify. O Beats Music pode ser a solução, até porque está presente actualmente em todas as plataformas, do iOS ao Android, sem esquecer o OS X, o Windows ou o Windows Phone.

Beats Music fica no Android e Windows Phone; estará o iTunes a caminho do Android?

A Apple irá manter o Beats Audio nas plataformas Android e Windows Phone, pelo menos para já. Por outro lado, o serviço (que é pago) permanecerá independente do iTunes Radio (que é gratuito). A Apple continuará também a vender o hardware Beats Audio (colunas, heafphones…) nas suas lojas.
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O Beats Music poderá ser o início de uma mudança de estratégia por parte da Apple. A empresa sempre fechou os seus produtos e serviços ao iOS e OS X, com excepção do iTunes e do iPod, que funcionam no Windows também.

Em tempos, Tim Cook mostrou-se aberto a criar uma versão Android do iTunes ou a levar o iCloud para outras plataformas, por exemplo, “se isso fizer sentido”. O Spotify e o Rdio são dois serviços de streaming de música, que, tal como o Beats Music, estão em todas as plataformas. O concorrente iTunes Radio está fechado ao ecossistema Apple.

“O primeiro serviço de música por subscrição bem feito”

Numa entrevista ao Recode, Tim Cook disse que a Beats foi a primeira empresa a ter um serviço de streaming de música por subscrição bem feito, e que esta aquisição ajudará a Apple a expandir as suas equipas editoriais e de curadoria para a música, bem como a empurrar o negócio do iTunes para a frente.

O Jimmy Iovine e o Dr. Dre, da Beats, irão juntar-se à Apple como funcionários, e estarão focados em projectos que elevem a música a um nível ainda mais alto que o actual. “O que a Beats traz à Apple é malta com capacidades muito raras. Pessoas como estas não nascem todos os dias. São raras. Elas percebem mesmo de música. Por isso, nós obtemos com este negócio uma infusão de bom talento na Apple”, confessou Tim Cook à mesma fonte.
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O CEO da Apple mostrou-se igualmente entusiasmado com o hardware, contando expandir o negócio a novos mercados, usando a presença global da Apple.