The Black Keys – ‘Turn Blue’


Afinal o quadro não é tão negro como muitos (eu incluído) o pintavam. Se o primeiro single do novo longa duração do duo de Akron, intitulado “Turn Blue”, parecia profetizar uns Black Keys engolidos pelo pop insípido, basta ouvir a primeira música, “Weight of Love” – a melhor música do álbum, uma balada psicadélica repleta de ecos, condizente com o remoinho rosa e azul que ilustra o álbum – para perceber que nunca devíamos ter duvidado de uma banda que, até à data, nunca desiludiu.

Não, não é o blues-rock imediato e lo-fi de álbuns como Rubber Factory ou Attack and Release. É o rock mais maduro e complexo que o duo já vinha fazendo desde Brothers (o melhor álbum da banda, na minha humilde opinião) juntando-lhe umas colheradas de batidas e teclados pop.

Patrick Carney é provavelmente o melhor pior baterista da história. Aquilo que lhe falta em técnica, sobra-lhe no talento para inventar batidas que têm tanto de viciante quanto de simples. Por cima da bateria, Auerbach derrama a vasta panóplia de texturas, quer de guitarra, quer de teclados ou até de cordas (os violinos ornamentam várias músicas do álbum, sem receios ou preconceitos) a que só ele tem acesso, fruto dos largos anos a experimentar, comprar, vender e recomprar guitarras vintage e pianos descobertos em lojas de penhores.

Para garantir a identidade do produto final, apenas falta adicionar a voz única de Auerbach, uma voz de blues e rock como deve ser, carregada de emoções, dor, atitude, uivos, rouquidão e até falsettos imaculados (ouvir a malha “Waiting on Words”). A aconselhar sabiamente a dupla, está o velho amigo de armas Danger Mouse, importante para ajudar a decidir entre o Hammond B3 de 1959 ou o A-100 de 1961. E ele toma sempre a decisão certa.

Se El Camino foi um álbum de rock abrangente e imediato, repleto de singles, um sucesso comercial que confirmou definitivamente o estatuto dos Black Keys como estrelas de rock mundiais, este Turn Blue parece ter crescido e maturado sob muito menos pressão, num contexto novamente experimental, como já o tinha sido Brothers. O duo percebe que a receita de baterias rápidas e guitarras barulhentas resulta, mas não eternamente. Pat e Dan compreendem a importância de desacelerar, respirar fundo e voltar-se para as subtilezas, para a atenção ao detalhe, que é, muitas vezes, mais importante que a rapidez e ímpeto de uma explosão.

Turn Blue é mais um daqueles álbuns que não pode ser ouvido apenas uma vez, pois isso não é suficiente sequer para formar uma opinião sobre o mesmo. Deve ser ouvido várias vezes, mas sem pressas. Não é um álbum que deva ser forçado a ninguém. Contudo, se for ouvido nas alturas certas, nos estados de espírito adequados, tem tendência para melhorar a cada audição. E potencial para ser reconhecido como um óptimo álbum, preparado para afastar a nuvem cinzenta de dúvida que pairava sobre a direcção que os Black Keys seguiriam.

E, neste momento, acabo de ouvir a última faixa de Turn Blue, “Gotta Get Away”, olho para a janela e o Sol brilha.

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