Uma revista com sabor


“Isto não é uma loja” – palavras de João Cepeda. E realmente não é uma loja. Às 12.45 – possivelmente marcadas pelo relógio do Mercado da Ribeira, que veríamos caso estivéssemos no exterior do edifício – apertavam os estômagos com ânsias de almoço. A hora perfeita para a estreia do renovado espaço do mercado – metade do piso térreo – inteiramente dedicado à gastronomia, com a assinatura da revista TIME OUT. “Aqui, vamos tentar dar vida a todos os nossos conteúdos. O que é diferente de vender produtos”, afirmou o director da revista.

O mercado não perdeu as suas feições de mercado – até porque lá continuam os seus antigos vendedores –, mas aprimorou-se. Ao seu redor, em contraste com as paredes brancas, uma faixa negra é cortada em secções. A cada secção corresponde um letreiro – com letras também elas brancas – onde estão inscritos os nomes de algumas das melhores marcas nacionais: do ponto de quem entra, exactamente ao fundo, o nome de chefes conceituados como Alexandre Silva, Miguel Castro e Silva, Henrique Sá Pessoa, Marlene Vieira e Vítor Claro; do lado esquerdo, os clássicos Café de São Bento e Arcádia e do lado direito o experimental Asian Lab. Um mercado, portanto, cada qual com a sua banca. Ao longo de todo o vazio central andam pessoas, que se sentam em bancos e cadeiras de madeira, se apoiam em mesas decoradas com floreiras, que comem, que conversam e que bebem – muitas pessoas.

timeoutmercadoribeira_02

Joana Pardal, de 31 anos, está sentada. Não come, nem bebe, mas lê um jornal. Ao seu lado, outra mulher lê um jornal igual. No recinto, várias pessoas lêem este mesmo jornal. Um homem pergunta: “Desculpe, onde é que arranjou isso?”; uma mulher responde: “Andam por aí”. “TIME OUT chega ao Mercado da Ribeira” é a manchete do jornal elaborado exclusivamente para este dia de inauguração. “Trata-se de um complemento importante para integrar as pessoas no espaço”, afirma Joana. Um verdadeiro guia – ao bom estilo da revista – que, para além de nos obrigar a fazer uma viagem no tempo, até aos primórdios daquilo que foi outrora o Mercado da Ribeira, nos fornece informações sobre os elementos definidores do conceito – desde o logótipo aos guardanapos – bem como de todas as marcas intervenientes no espaço.

Umas bancadas de menores dimensões, situadas também no centro, dedicam-se àquilo que é de beber. Ora saem os copos com vinho, ora os cocktails de várias cores – estes do quiosque da Compal, cujos trabalhadores sentem dificuldade em dar vasão a tanta espremedura de fruta. Já quem desesperasse por uma imperial teria de se submeter à parte didáctica da coisa. O nome do quiosque é Beer Experience – pertencente à Unicer – e o objectivo é ensinar os clientes a tirar a sua própria imperial – nestes primeiros dias, com a ajuda de verdadeiros profissionais. Uma actividade que engloba diferentes tipos de cerveja e um cartão recarregável.

timeoutmercadoribeira_03

“Existem várias publicações, como a Monocle ou a National Geographic, que já tinham criado lojas. Nós fazemos muito mais do que isso. Sim, também vendemos produtos associados à marca, mas temos secções de revista inteiramente representadas. Nós queremos é que este espaço funcione como uma plataforma que ofereça o melhor que a cidade tem”, afirmou João Cepeda justificando a ideia de projecto editorial único no Mundo. Numa actualidade económico-financeira instável e com a contínua exploração de novos métodos de consumo de informação torna-se legitima a expansão de algumas publicações para outras áreas – por princípio, que tragam um maior equilíbrio entre os conteúdos fornecidos, os ganhos e os gastos. Trata-se de uma metamorfose do título para aquilo a que chamam de “conceito”. O leitor não é apenas o leitor, mas também a pessoa que frequenta determinados locais e consome determinado tipo de produtos. “Nós dependemos da cultura e a vida não nos corre mal. Tem muito a ver com a forma como as coisas se posicionam e de como as coisas se fazem. Eu acho que estamos a fazer algo com o grau de sofisticação adequado à vontade das pessoas”, afirma.

Por volta das 14.00 as mesas estão todas ocupadas – e subentenda-se as cadeiras. Muitos dos visitantes sentam-se nas margens de uma pequena elevação preta situada do lado oposto ao dos quiosques dos chefes – o palco. Sobre este, um pequeno/grande ecrã. Um homem dirige-se ao espaço Santini e pergunta: “Vão passar o jogo?” Filipe Silvestre, 22 anos, responsável pelo quiosque, responde que não. Contudo, mesmo não passando “o jogo” Filipe prevê uma grande adesão por parte das pessoas a este projecto. Ali vendem-se gelados. A fila é grande.

timeoutmercadoribeira_04

timeoutmercadoribeira_05

timeoutmercadoribeira_06

timeoutmercadoribeira_07

timeoutmercadoribeira_08

timeoutmercadoribeira_09

timeoutmercadoribeira_10

timeoutmercadoribeira_11

timeoutmercadoribeira_12