Um buraco soviético


Slava Stepanov (aka Gelio) é um fotógrafo russo residente em Novosibirsk, uma das cidades mais desenvolvidas do leste russo, no sul da Sibéria. Partindo da sua cidade natal, Slava percorre a Ásia Central, fotografando construções humanas, marcos da civilização que vão modificando a paisagem em redor.

Num dos seus últimos trabalhos, Slava deslocou-se para Norte, embrenhando-se na Sibéria, onde visitou Mirny, uma cidade com 37 000 habitantes, localizada muito propriamente no meio do nada.

À primeira vista pouco de interessante poderia existir numa cidade perdida na rigorosa Sibéria, mas não é precisa muita atenção para reparar que a cidade foi construída à beira de um gigantesco buraco escavado no chão!

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Trata-se da Mina de Mir, uma mina a céu aberto de onde se extraíam diamantes: um dos maiores buracos do mundo, com um diâmetro de 1,2 km e uma profundidade de 525 m. O impressionante cenário não passou despercebido à objectiva de Stepanov.

Como tudo, a Mina de Mir tem uma história e, por sinal, bastante interessante, na medida em que se entrelaça directamente com a história da própria União Soviética.

Um império não se constrói sem dinheiro. E, no pós II Guerra Mundial, a USSR precisava de muito dinheiro. Assim começou a prospecção por minerais preciosos, nomeadamente diamantes. Os diamantes eram procurados não só pelo seu valor monetário, mas também pelo uso importante na indústria, em maquinaria de perfuração, por exemplo.

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Com este intuito, as equipas de prospecção partiram pela vastidão do território soviético, em busca dos preciosos minerais, tendo acabado por encontrar o que almejavam no início dos anos 50. Através de análises geológicas, detectaram a presença de um mineral, a Kimberlite, composto que surge frequentemente associado ao diamante.

Assim, começaram os trabalhos nesta área, abriu-se a mina e uma cidade – Mirny – foi crescendo em redor, movida pela actividade mineira.

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Eventualmente, a Mina de Mir tornou-se um produtor importante de diamantes, conseguindo rivalizar até com as minas sul-africanas da DeBeers, empresa que ainda hoje vai mantendo o monopólio dos diamantes. Só uma mina tão lucrativa como esta poderia justificar todo o trabalho necessário à extracção mineira naquelas condições climatéricas. Com típicas temperaturas siberianas, os mineiros tinham que partir uma camada de gelo permanente, já para não falar do facto de que, àquelas temperaturas, a borracha congela e o aço estilhaça-se.

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Hoje em dia, a mina a céu aberto está desactivada. Foi encerrada no início deste século, apesar de ainda prosseguirem escavações por baixo do buraco, em enormes galerias de onde ainda se retira um pecúlio interessante de diamantes, quase 2 toneladas.

Apesar de já estar desactivada, ficará para sempre gravada na terra a cratera de uma mina que outrora ajudou a alimentar a União Soviética. E, em redor, Mirny, uma cidade que foi crescendo por causa do buraco e que aí continuará em simbiose com o seu ex-libris.