Uma hipótese de festival


A Liliana não gosta de festivais, mas está aqui. Não tem a toalha amarela aos quadrados – uma igual a tantas outras espalhadas pela relva do recinto – e por isso senta-se directamente no chão. A sua amiga anda para cá e para lá. Para cá para se juntar a ela – com quem vai conversando – e para lá cada vez que os Neutral Milk Hotel tocam uma das muitas músicas de que gosta. “O meu irmão pergunta-me porque é que eu oiço música de merda. E a verdade é que Neutral Milk Hotel é música de merda, mas vem do coração!”, afirma.

Pessoas diferentes, escolhas diferentes e quase um festival para cada um. Esta poderia ser uma definição daquilo que foi o NOS Primavera Sound 2014 – um festival que no limite nos obriga a por em causa aquele que julgávamos ser o nosso registo musical. O primeiro dia decorreu como prova disso mesmo. Pessoas com formas diferentes de se apresentar, com opções musicais que não se tocam e, no extremo, com filosofias de vida opostas foram encaixadas num mesmo espaço durante uma noite. Isto porque aconteceu Caetano Veloso, Kendrick Lamar e Jagwar Ma – tudo de seguida.

Se para Caetano houve um público pacífico e expectante em relação ao sénior dos ritmos brasileiros, Kendrick Lamar foi recebido em euforia – e aqui há que ter em conta a contribuição especial da nevoa que envolveu grande parte do recinto, por esta altura. Num espaço de minutos, trocaram-se as vestimentas largas, floridas e alegres, pelos bonés, ténis largos, correntes e brincos com brilhos. Por entre a multidão, antes da entrada de Kendrick, um grupo de pelo menos 10 pessoas executava toda uma performance em torno de “Swimming Pools” para um iphone que era apontado ao grupo por um dos elementos em estilo de selfie. Uma interpretação espontânea que poderia ser comparada com o coro que entoou “Baby”, de Caetano – música na ponta da língua, apesar dos anos caídos sobre Tropicália. Uma coisa ficou clara – estas pessoas não se conheciam – e não no sentido de conviver umas com as outras. Não existia uma noção de existência do outro. Contudo, verificou-se o potencial deste tipo de alinhamento: Kendrick não se perdeu no meio do cartaz e Caetano – tendo em conta que uma pequena alteração na setlist e no som fariam milagres – mostrou que “alguém cantando é bom de se ouvir”.

A dislexia não se ficou pelo primeiro dia. O palco ATP de dia 6 recebeu consecutivamente Fӧllakzoid e Television. A começar pela idade – se os quatro chilenos aparentavam ainda necessitar de autorização dos pais para se apresentarem em palco, os Television há muito (muito) que andam por estas vidas – e a terminar no próprio estilo de música – os primeiros a envolver-nos num ambiente psicadélico (o mais possível, uma vez que a coisa se torna complicada com a luz das sete da tarde) e os segundos (mesmo sem Richard Lloyd) a tocar a sonoridade rock de Marquee Moon, com as guitarras de “Friction” a merecer um aplauso final mais prolongado – diferenças não faltaram.

No palco Super Bock – entre o ATP e o NOS – os Slowdive causavam espanto na plateia pela harmonia em palco que ninguém pensava ser possível manter após quase duas décadas de pausa (de Slowdive – não esquecer Mojave3). Uma ponte entre o presente e o passado que serviu também como mensagem de boas vindas aos novos fãs e como um reavivar de memória para os antigos – salientando um grupo de seis homens, na casa dos 30 anos, vestidos de igual (uma t-shirt preta com o nome da banda destacado), que não se cansavam de gritar “Rachel” no fim de cada música. Contudo, foi impossível acompanhar o concerto até ao fim – pelo menos, nesta hipótese de festival. Acontece que Godspeed You! Black Emperor começavam às 22.25h.

Um palco baptizado com o nome de All Tomorrow Parties (ATP) deixa implícita uma promessa a quem a ele se dirige. Ainda para mais tendo em conta a caminhada necessária para lá chegar – quase como atravessar um bosque no escuro onde a orientação é oferecida através do grande número de pessoas que se desloca no mesmo sentido. Trata-se de uma espécie de palco natural – uma área que contrasta por ser limpa de vegetação, mas rodeada por árvores. Uma espécie de clareira, com um ambiente meio místico (um segredo no meio do festival) que tornou o concerto de Godspeed you! Black Emperor difícil de esquecer.

Entraram seis homens. Uns sentados no chão, outros de pé e o senhor da percussão no seu devido lugar. Nada de novo – até porque nada foi uma surpresa. A desconhecida Hope Drone abriu as hostes com um ecrã gigante como plano de fundo onde se podia ler a palavra Hope, que surgia de uma forma intermitente e alternava com o ruído visual (e audível, também) de uma televisão estragada. Um início de divagações, sons sobrepostos, antíteses de quase silêncios e pasmos estrondosos, repetições exaustivas – o preparar de um clima desconcertante que já se adivinhava. Não há pausa entre músicas e entra Mladic. Também não há pausa entre vídeos e, de uma forma subtil, dá-se a transição do ruído visual para uma série de imagens (fotografias de documentos de identificação, texto, plantas, manuscritos, janelas) que vão alternando de segundo em segundo – acompanhando a música. As pessoas que vieram até ao ATP já lá não estão – pelo menos num sentido figurado. Trata-se de um ambiente com demasiados estímulos, que obriga a uma interpretação constante de algo que não é, de todo, facilmente perceptível. Um espectáculo com efeito hipnótico – que permanece mesmo depois do concerto.

No último dia os contrastes de cartaz deram-se ao nível das velocidades. Quem chegou ao recinto às 18.00h foi mais do que a tempo de se abastecer na zona das comidas – provavelmente mais concorrida do que os próprios palcos – e descontrair na relva ao som dos You Can’t Win Charlie Brown. O tempo ajudou – ao contrário do previsto, não choveu. Só a partir das 21.00h se começou a notar um ligeiro aceleramento de ritmo com John Grant no Palco Super Bock e com os National prestes a entrar no palco NOS. Nunca Matt Berninger havia sido tão acarinhado – um público que se ajoelha (alguns quase que obrigados por outros) para cantar Vanderlyle Crybaby Geeks, sem acompanhamento, não é de se descurar – ainda lhe escapou um “Are you guys ok down there?”

Quando os Slint (ATP), contrariando todas as espectativas, adoptaram também uma velocidade moderada, houve a sensação de fim de festival. O ressentir dos músculos sobre pressão começava a fazer-se notar – muitas pessoas a procurar um espaço na relva para aliviar as dores e controlar o cansaço. Perto das 02.00 um último esforço para Ty Seggal e o cenário muda. O menino californiano do punk, mesmo com a atrapalhação inicial com a guitarra (que meteu uns acordes de “Stairway to Heaven” à mistura) agitou as águas – e de que maneira. No meio da multidão, formou-se o típico espaço vazio central, imprescindível em concertos que incitam ao “tudo ao molho”. Toda as pessoas aos encontrões, todas as pessoas na loucura – mais de uma hora sem parar. Quando acabou foi correr o mais depressa possível para o palco Pitchfork – o único dos quatro que era fechado e que tinha recebido na noite anterior Darkside – onde já haviam começado a tocar os Cloud Nothings. O ritmo acelerado continuou, bem como a loucura.

Depois das 04.00h era difícil encontrar um espaço livre para repousar. O madrileno Pional reduziu a alta velocidade que se viveu a velocidade nenhuma – o festival a adoptar a táctica dos bares do Bairro Alto no fechar de portas. A caminho da saída muitas pessoas aproveitavam para tirar a última selfie. Na rotunda da Estrada da Circunvalação já se acumulavam os autocarros NOS. E o festival foi assim? Nem por isso. O cartaz apresentava uma grande variedade de opções (géneros musicais, ambientes, actividades – até mesmo um espaço dedicado aos mais novos) e os roteiros eram traçados tendo em conta as preferências de cada um. Mesmo aqueles que foram em grupo acabaram, numa altura ou noutra, por seguir caminhos diferentes. Esta é apenas uma hipótese – e mesmo assim, incompleta.