A história por trás da primeira cena de House of Cards


Ainda te lembras da primeira cena do primeiro episódio da primeira temporada de House of Cards? É normal que não e não és menos fã da série por isso. Mas se por acaso te recordas – sim, essa mesmo em que Frank Underwood mata um cão já ferido com as próprias mãos – vais gostar de saber o que se passou antes desta ser produzida e filmada.

A história foi revelada por Beau Willimon, o argumentista principal de House of Cards, durante uma troca de opiniões no Aspen Ideas Festival. Em conversa com Michael Eisner, antigo CEO da Disney, Willimon disse que mesmo dentro da equipa criativa havia quem se insurgisse contra essa primeira cena. “Tu não podes matar um cão. Vais perder metade da tua audiência nos primeiros 30 segundos”, diziam-lhe.

Consciente do que poderia ter que enfrentar, Willimon decidiu falar com David Fincher, realizador dos primeiros episódios da série, e deixar a decisão final nas mãos dele. “Fui falar com Fincher e disse-lhe que gostava mesmo deste início e que achava que uma cena destas a abrir a série podia resultar muito bem. Mesmo tendo pessoas que me dizem que posso perder metade da audiência nos primeiros 30 segundos.” A resposta de Fincher foi elucidativa: “I don’t give a fuck.”

Era tudo o que Willimont precisava de ouvir. O que disse a Fincher depois dessa resposta, é exemplo disso mesmo: “I don’t either. Fuck it, let’s do it.”

A verdade é que esta cena foi um excelente ponto de partida para uma série construída e dirigida num tom provocador, típico de uma série baseada num anti-herói, como o foram Breaking Bad ou The Sopranos. É por isso que Willimon defende ainda que “se não és capaz de aguentar o que representa o estrangulamento daquele cão, então provavelmente esta série não é para ti”.

Mas o que parte da equipa criativa defendia, acabou mesmo por se verificar. Segundo o CEO da Netflix, Reed Hastings, depois daquela cena “muitas pessoas simplesmente clicaram no botão, pararam o episódio e desligaram . Quando olhamos para as estatísticas, é isso que nos dizem.” Como sabemos, não foi isso que impediu a série de ter um sucesso enorme, por isso quando Hastings resolveu falar disto a Fincher, teve uma resposta clara: “Não te atrevas a dizer-me isso outra vez.” O estatuto fez o resto.

Durante a conversa, Michael Eisner, que também está envolvido na criação de uma série animada para adultos, diz que esta é uma estratégia de alto risco mas também altamente recompensadora. Ainda que se falarmos de filmes isto não seja algo propriamente novo, a situação muda de figura quando falamos de séries televisivas. No entanto, este tipo de estratégia normalmente só é aceite se for proposto por autores como Fincher e Willimon, que têm uma rédea criativa mais ou menos solta. E ele próprio exemplifica os cortes que a criatividade sofre nesta indústria.

Segundo ele, na série BoJack Horseman existia uma fala que dizia “isso é pior do que dez ’11’s de Setembro’ seguidos”. E foi ele quem quis que essa fala fosse alterada. Eisner diz que cresceu na era da pesquisa interminável e que isso leva a que só se pense numa palavra – “likability”. Os criadores ainda insistiram para que se mantivesse, mas a Netflix acabou por ceder e a fala é agora “isso é pior que 10 circuncisões seguidas.” 

Para Willimon, as coisas não funcionam dessa forma. Tentando esclarecer a sua posição sobre o assunto, um dia disse aos responsáveis da Netflix: “Fuck likability.” Para ele é tudo muito claro: “Estou-me a cagar para quem gosta ou não das minhas personagens. O que realmente me preocupa é que as pessoas se sintam atraídas por elas.”

Para que uma série tenha sucesso, o caminho a seguir nem sempre é o mais aceitável. Porque talvez isso não nos leve a nenhum lugar novo. Para criar uma ligação é preciso criar impacto. E como diria Frank Underwood, enquanto pousa delicadamente o cão já morto, “momentos destes exigem pessoas que ajam, que façam o que é desagradável, mas necessário.”

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