A realidade do fenómeno de Yamal


A Internet foi inundada com teorias da conspiração quando foi descoberta uma cratera de origem desconhecida em Yamal, na Sibéria.

O jornal Siberian Times publicou imagens das investigações de uma equipa de cientistas que se deslocou ao terreno e inspecionou o interior do enorme buraco.

Para os aficionados de ficção científica, parece que as noticias não são muito boas: as causas que levaram à formação da cratera, que aparenta não ter mais de dois anos, não serão extraterrestres. O misterioso buraco no fim do mundo (tradução de Yamal) dever-se-á às altas temperaturas que se têm registado na região nos últimos anos.

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Os especialistas estão a aguardar as imagens do satélite russo que permitirão desvendar o momento exacto em que se deu o fenómeno geológico. O mistério está então explicado, mas a forma de exacta como terá ocorrido ainda está por apurar.

“Para já podemos dizer com toda a certeza que, sob a influência de processos internos, houve uma ejecção no pergilossolo (tipo de solo gelado que encontramos no Ártico), explicou Andrey Plekhanov, cientista do Centro Científico Estatal de Pesquisa no Ártico, ao Siberian Times.

Em termos simples, terá ocorrido um aumento de pressão devido às altas temperaturas numa câmara gelada logo abaixo da superfície, forçando a camada de solo superior a quebrar e a ser projectada para fora. Anna Kurchatova do Centro Científico de Pesquisa do Sub-Ártico descreveu o processo como “uma rolha de uma garrafa champagne a saltar”.

O que se passa na região do Ártico

Nos últimos anos temos vindo a assistir à formação de vários novos lagos na zona mais a norte da Sibéria. O degelo da zona aparenta ser fruto do aquecimento global.

Só em Julho do ano passado, foram registadas temperaturas superiores a 28ºC durante oito dias consecutivos em Norislk, a cidade mais a norte do mundo, onde as temperaturas não costumam ultrapassar os 16ºC. Estas anomalias têm vindo a verificar-se em toda a Sibéria.

Apesar das consequências do aquecimento global terem vindo a ser sentidas por todo o mundo, nesta região, as temperaturas têm aumentado em média 0,34ºC por década desde os anos 70, valor esse muito superior à média de 0,17ºC verificada no resto do globo.

A paisagem na Sibéria tem vindo a mudar: onde antes se viam mantos brancos, hoje vêem-se campos verdejantes, onde se viam rios gelados, hoje existem cursos de água activos.

Além da formação do estranho buraco em Yamal, as consequências das altas temperaturas na região norte da Rússia podem vir a ser muito mais graves: nos últimos anos houve um aumento no número de incêndios florestais e cientistas da NASA já alertaram para o facto de a tendência ser para que esse número duplique até ao final do século.

Afinal, as causas do misterioso buraco no fim do mundo estão a revelar-se mais assustadoras do que uma queda de um meteorito ou uma possível invasão extraterrestre.

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Níveis de poluição na Rússia

Os níveis de poluição na Rússia têm vindo a atingir valores alarmantes. Apesar dos vários desastres ecológicos registados nas últimas décadas, poucos são aqueles que chamam a atenção do público: a explosão na central nuclear de Chernobyl em 1986 na Ucrânia e os testes nucleares na região norte do Cazaquistão, todos anteriores à dissolução da União Soviética, estão entre os desastres mais conhecidos.

Mas a exploração mineira de níquel no norte da Rússia e a actividade humana nas grandes cidades como Moscovo e São Petersburgo são dos maiores responsáveis pelos níveis de poluição aérea que se têm vindo a registar:

  • A cidade responsável pela maior emissão de gases poluentes para atmosfera em toda a Rússia é Norislk, onde se encontram as minas de níquel. Em 2012, terá ocorrido a emissão de dois milhões de toneladas de poluentes, todos provenientes desta cidade, de acordo com uma avaliação baseada nas informações do Serviço de Estatísticas Estatal publicadas pela agência RIA Rating.
  • Em 2013, Norislk e Dzerzhinsk estavam entre os 10 sítios mais poluídos do mundo de acordo com um relatório conjunto publicado pela organização Green Cross Suiça e pelo instituto americano Blacksmith.
  • Esta quarta-feira, dia 23 de Julho, a área de Kosino, em Moscovo, apresentou um indíce de qualidade do ar acima dos 160, o que significa que, enquanto esse valor não baixar, a saúde pública encontra-se em risco: os grupos mais sensíveis como os idosos, as crianças e as pessoas com problemas respiratórios crónicos poderão começar a apresentar complicações graves.

Para saberes mais sobre o índice da qualidade do ar e sobre de que forma é medido podes consultar o site da AirNow.

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Batalhas contra a poluição nas grandes cidades

Quando no dia 17 de Março, Paris se viu sob uma camada espessa de smog, medidas radicais foram postas imediatamente em prática para diminuir os níveis de poluição: durante um dia inteiro, todos os carros com licenças de número par foram proibidos de circular nos subúrbios da Cidade da Luz, que estava a ser assolada pelo nevoeiro tóxico há cerca de uma semana. Os táxis e os carros de serviço não foram abrangidos pela proibição.

Em Atenas, na Grécia, e em São Paulo, no Brasil, medidas semelhantes que limitam o tráfego de veículos têm sido postas em prática há vários anos.

Berlim impõe regras sobre o tipo de carros que pode entrar na cidade e em Londres os condutores pagam uma taxa para guiarem no centro da cidade.

O que podemos fazer

Estamos a sentir na pele as mudanças do mundo graças ao descuido humano ou à actividade industrial não regulamentada. Hoje, assistimos a fenómenos que nunca antes tínhamos visto, como é o caso da cratera em Yamal.

Cenários naturais inteiros estão a mudar: a flora e a fauna estão a desaparecer e o número de doenças respiratórias crónicas está a aumentar exponencialmente. Em Portugal, no ano 2012, o número de mortes associadas a doenças respiratórias subiu 17% face ao ano anterior, segundo o Instituto Nacional de Estatística e a Direcção Regional de Saúde.

Além das medidas que estão lentamente a ser tomadas e exportadas para o resto do mundo pela agência de protecção ambiental americana EPA, contidas no documento Clean Air Act, existem medidas que nós, cidadãos comuns, podemos implementar para tentar atrasar o aquecimento global e evitar a destruição de ecossistemas e da saúde pública.

São muitos os sítios onde podemos encontrar dicas para levar uma vida mais ecológicamente regrada. O site Conserve Energy Future oferece alguns passos simples. Deixemo-nos de conspirações e vejamos a realidade da situação.