(H)ouve músicos na rua


Quem passa na Rua Augusta, no Chiado, tem de olhar para as montras – por essa razão é que elas lá estão, dispostas em fila, a decorar o grande corredor. Trata-se de uma zona de comércio, uma das mais importantes da cidade. Assim, é de esperar que nenhum lojista ache piada ao facto de ter dois músicos a dar espectáculo à porta do seu estabelecimento – mesmo que bem ensaiados (uma melodia de jazz a roçar a perfeição) e já com alguns anos desta vida. Os sapatos e os chapéus ficam a perder para o som proveniente dos instrumentos. Ainda há duas horas atrás apareceu a polícia de segurança pública para averiguar o que estávamos aqui a fazer, afirmou Robert Würz, ainda com o seu saxofone pendurado ao pescoço. Mas eles trataram de tudo por nós. Eles? Os “eles” são a equipa responsável pela presença de Würz em Portugal. É que tanto o Robert como o seu colega (há mais de cinco anos) Jürgen Meyer-Metzenthin são convidados especiais de um projecto – uma parceria entre a rádio TSF e a Câmara Municipal – que pretende fazer de Lisboa a Capital Europeia dos Músicos de Rua.

artistasderualisboa_02

Esta é uma ideia original – e já antiga – do jornalista Fernando Alves, que se concretizou este ano pela possibilidade de aproveitamento do palco que foi montado no Terreiro do Paço para eventos relacionados com o Mundial de Futebol. Contudo, um palco que apenas serviu a tarde da despedida – um pormenor no meio de uma semana onde foi possível assistir a música ao vivo em quase todas as esquinas da Baixa de Lisboa. Ao todo, e sem contar com este último dia, foram sete performances diferentes, de músicos de diferentes nacionalidades e que pouco tinham a ver uns com os outros. Contudo, de acordo com Paulo Baldaia, director da TSF, mais do que animação isto foi “o provocar do debate acerca de como organizar músicos de rua em Lisboa. A Câmara entrou nesta discussão e há coisas que estão a mudar. O valor das taxas é altíssimo, a burocracia é muita e nós acreditamos que as coisas vão mudar e que Lisboa se vai tornar numa referência para músicos de rua.”

artistasderualisboa_03

artistasderualisboa_04

Na Alemanha as coisas são um pouco diferentes. Os artistas de rua têm a vida facilitada uma vez que a fiscalização não é tão rigorosa – “eles até fingem que não nos estão a ver”, afirma Robert. Uma piada que Pablo Javier Subatin, músico argentino a viver em França há um ano, teria alguma dificuldade em concretizar. Acontece que “é completamente proibido actuar nas ruas de Paris!” Sorte da equipa da TSF que o encontrou a meio de uma performance na estação de metro République“O metro é privado e podemos tocar mediante uma autorização”, explica.

artistasderualisboa_05

Parece que o paraíso dos músicos de rua fica mesmo na costa sul de Inglaterra. Quem o diz é João Marques – um dos músicos que toca por cá o ano todo, e que nada tem a ver com o projecto. “Brighton. Essa sim poderia ser considerada a capital da música de rua.” Os Pas de Problème – pessoas, instrumentos de sopro da família dos metais, percussão e festa – abandonaram por uns dias as ruas da Baixa e foram testar o busking em terras de sua majestade. “Um verbo que eles usam quando se referem ao acto de tocar na rua. À partida até parece logo mais digno – têm um verbo específico para a coisa. Para nós [portugueses] é apenas tocar na rua.”

O Pablo esteve no cimo da Rua Garrett, junto ao metro, sob o dedo levantado da estátua do poeta António Ribeiro Chiado e em frente a um placard de demasiadas cores onde se podia ler que Lisboa é a capital europeia de músicos de rua – diga-se, um placard com direito a um pequeno ecrã (onde passavam sucessivamente os vídeos de apresentação dos diferentes músicos envolvidos no projecto) e com uma alusão ao cartaz do Super Bock Super Rock.Pablo, sentado, alheado do que se passava à sua volta – uma guitarra acústica merecedora de todas as atenções –, tocou até que o deixassem tocar. Acontece que o local já estava mais do que requisitado pelo grupo de músicos cabo-verdianos que costuma animar os finais de tarde em frente à Brasileira. A estratégia foi: na pausa de um toca o outro (claro que com mais pausas – e mais prolongadas – para o Pablo). “Este é o local de trabalho deles, eu não o quero invadir.”

artistasderualisboa_06

Jonathan Flandinet também não ficou indiferente ao grupo oriundo de Cabo Verde – os únicos artistas de rua em Lisboa com quem havia tido contacto até então. Ele próprio veio até cá (de Bruxelas) para mostrar as suas habilidades na arte de human beat box. Boné preto, com pala em camuflado voltada para trás, calções a condizer, uma t-shirt castanha estampada na zona do peito com a cara do Jones (Black Belt) e umas botas pretas reebok – uma figura em permanente movimento (estilo hiperactividade) em aliança com os (muitos) sons que reproduzia. No fim da Rua do Carmo, a chegar ao Rossio, Jonathan (ou seria melhor trata-lo como Jungle Baboo?) foi aos poucos rodeado pelas pessoas que passavam sem lhe conseguirem ficar indiferentes. “Ladies and gentlemens, representing the Lisbon Portugal Street Artists, a different style combination… here we go” e depois podia acontecer blues, jazz, hip hop, reggae ou algo mais a fugir para o electrónico.

artistasderualisboa_07

Uma actuação que envolveu um processador loop station (aparelho que permite gravar sons individualmente e depois reproduzi-los conjuntamente em loop), pandeiretas com cordas de guitarra, minie pratos, um tubo de metal comprido (como o de um chapéu de praia) e uma criança, provavelmente com menos de três anos, que lhe roubou o protagonismo. “Às vezes as pessoas costumam dançar durante a minha actuação. Talvez seja sinal de uma boa interacção com o público. Além disso, na rua é importante chegar a todas as pessoas (novos e velhos) – uma cena multigeracional. Não nos podemos focar em apenas uma vertente.”

Jürgen já havia visitado Portugal numa outra altura. O guitarrista passou por cá no ano anterior ao da revolução – umas férias animadas em Torres Vedras. “Lembro-me de tocar guitarra na praia – música, bebida, cigarros… Agora isto está completamente diferente. Eu era muito novo. É um país desconhecido para mim.” Um país desconhecido para Jürgen e um país onde se leva muito a sério a licença de funcionamento de recinto – com polícias que aparecem pela tarde na esquina formada pela intersecção da Rua Augusta com a Rua da Assunção para investigar a actividade ruidosa ilícita.

artistasderualisboa_08

Até o Pablo já sabe que os músicos de cá não acham muita piada à política de ter de pagar para utilizar o espaço – o espaço que é a rua. O João também o sabe. Mas ele trabalha cá. “Pah, eu acho que Lisboa não é uma cidade que esteja a receber muito bem a música de rua: precisas de uma licença e há uma data de casos em que o pessoal é multado. Não é assim um trabalho muito digno. E agora parece-me um bocado fachada estar-se a organizar este evento que conta com o apoio da Câmara.”

Qualquer pessoa que interrompa o seu percurso para prestar atenção ao trabalho do artista sente-se sempre no poder de expressar a sua opinião. Pode dizer que gostou, que não gostou, pode (bem à maneira portuguesa) tentar arrancar um fadito em troca de uma nota de 10 euros ou então falar das suas dores de alma. No último dia do evento, no recinto montado no Terreiro do Paço, uma mulher perguntava a que horas começava a tocar o Vitorino. “É que eu não moro aqui. Vim cá de propósito e tenho pena de não ter assistido ao que se passou durante a semana. Lisboa é tão grande, não percebo porque é que concentraram tudo aqui na Baixa.” A outra, que a acompanhava, acenava com a cabeça. “Além disso, podíamos ter mais artistas portugueses!” – uma crítica que se ouviu para além desta conversa.

artistasderualisboa_09

Mas, como explicou Paulo Baldaia, “O objectivo era trazer aquilo que se passa na Europa, trazer para cá discussão. Por isso tivemos um representante de cada cidade, portanto, também houve um representante português [Rini Luyks – o senhor responsável pela melodia em acordeão que automaticamente atribuímos à Rua do Carmo]. Além disso, neste concerto final conseguimos ter, não só os músicos de rua que tiveram a actuar durante toda a semana, bem como dois grandes nomes no panorama de músicos de rua portugueses: o Vitorino, acompanhado pela sua banda, e os Kumpania Algazarra, que têm história na música de rua.” Mas, o debate não é sobre a nacionalidade dos artistas – aqui fala-se das suas condições de trabalho. Lisboa ainda “não é capital nenhuma de música de rua.” Quem o diz é o saxofonista dos Pas de Problème.

(click here for the English version)