Quando a literatura e a Amazon não se entendem


São dois titãs do mercado editorial e estão em confronto: de um lado encontramos a Hachette, a quarta maior editora nos Estados Unidos; do outro, a gigante das vendas online Amazon, que sozinha controla 50% das vendas de livros naquele país.

Durante negociações entre a Amazon e a Hachette sobre a distribuição e fixação de preços dos livros da editora francesa, as duas partes ter-se-ão desentendido relativamente às margens de lucro de ebooks. A Amazon quer uma fatia maior das vendas para, em princípio, poder manter os preços baixos; a Hachette, numa altura em que as editoras estão a tentar adaptar-se às transformações do mercado, quer receber margens maiores com a venda de ebooks.

A uma luta que já dura há três meses juntaram-se agora cerca de 900 escritores. A figuras como Stephen Colbert, Paul Auster, Stephen King, John Grisham, Joshua Ferris e Siri Hustvedt acrescentam-se em campo de batalha os escritores Karen Joy Fowler, Philip Pullman, Donna Tartt e centenas de outros nomes menos sonantes da literatura.

Isto tudo devido às acções que a Amazon tem tomado nos últimos meses.

A Amazon é conhecida por vender livros a preços muito baixos, oferecendo aos consumidores descontos dificilmente igualáveis por outras empresas de distribuição de produtos online. Mas desde a falha das negociações com a Hachette, que deixou de oferecer descontos sobre os livros da editora francesa. Terá ainda feito alterações ao sistema de encomendas dos livros da Hachette de modo a que estes demorem entre duas a três semanas a chegar ao consumidor. Muitos dos livros nem aparecem disponíveis para encomenda, sendo que o site os apresenta como esgotados.

Graças às medidas impostas pela Amazon que visam a aceitação dos termos contratuais por parte da Hachette, muitos acusam a empresa americana de estar a fazer bullying. E a sua indignação face aos acontecimentos não tem passado despercebida: entre as acções dos autores da Hachette destacam-se as de Stephen Colbert, que aconselhou os seguidores do programa satírico Colbert Report a fazer as suas compras através de outras plataformas.

O porquê dos ebooks

Em 2013, três em cada 10 adultos americanos leram um ebook; metade tem um tablet ou um e-reader, de acordo com um relatório independente elaborado pelo Projecto Internet & American Life do Centro de Pesquisa Pew. Estas estimativas revelam não só um mercado em crescimento como mostram o potencial da venda de ebooks – existem cada vez mais potenciais consumidores.
A percentagem de adultos que leram um ebook subiu assim de 23%, registados no ano anterior, para 28% em 2013.

É então compreensível o porquê de a Hachette não querer que a Amazon decida os preços livremente. Os livros em suporte de papel continuam a ser os predilectos dos consumidores mas os ebooks, que implicam menores custos de produção, estão a ganhar popularidade e podem gerar uma maior taxa de lucro.

Quem deve ceder

Por um lado, se as editoras retiverem uma percentagem na ordem dos 75% dos lucros das vendas de ebooks o mercado ficará desequilibrado, uma vez que obtêm margens maiores comportando menos riscos do que com os livros em suporte de papel, segundo Jeffrey Dorfman, colaborador da revista Forbes.

Ao mesmo tempo, a Amazon poderá deixar de estar disposta a comportar os descontos sobre os produtos literários o que levará a um aumento generalizado nos preços, tornando-os menos apetecíveis para os consumidores. É vantajoso para as editoras que os seus livros continuem em circulação através da Amazon pela enorme fatia do mercado editorial que controla.

Por outro lado, não há razão para que a Amazon tenha mais lucro com a venda de ebooks do que as editoras dos mesmos. Os autores continuam a merecer receber pelas suas obras e a produção continua a precisar de financiamento e tudo isto é da responsabilidade das editoras.

Assim sendo, não é fácil encontrar um culpado nesta situação, muito menos quando a Hachestter, juntamente com quatro outras empresas, foi acusada de conspirar com a Apple sobre um ajuste dos preços dos ebooks.

Neste ponto, as empresas estão a lutar também para limpar o seu nome. Aconteça o que acontecer, esperamos que os lesados não sejam os autores e os consumidores.