55 492 dólares é quanto vale a salada de batata mais famosa da Internet


Salada de batata, Kickstarter, Zack Brown e milhares de dólares. A combinação destas palavras levar-vos-á imediatamente a um dos projectos de crowdfunding mais engraçados e mais eficazes (ao ponto de superar as espectativas na ordem dos 550 000%) a circular na Internet.

Chegou ao fim a campanha de Zack “Danger” Brown que no dia 3 de Julho pediu 10 dólares no Kickstarter para fazer uma salada de batata. Sem um plano bem definido, sem sequer saber que receita usar, o jovem de Ohio, nos Estados Unidos, chegou, viu, e conquistou os espaços virtuais, desde redes sociais aos media, arrecadando agora 55 492 dólares (aproximadamente 41 000 euros). O que começou como uma brincadeira acabou por gerar uma quantia de dinheiro que impõe respeito.

O tom adoptado foi sempre jocoso, as promessas provavelmente não vão ser todas cumpridas (levar um pedaço da salada de batata a casa dos doadores não deve ser uma tarefa viável), mas, mesmo assim, muitos foram os que abriram as carteiras.

Às vezes, é apenas necessário uma meia dúzia de pessoas que pensam como nós e exposição no sítio certo à hora certa para atingir um sucesso inimaginável. E terá sido isso mesmo que terá levado à quantia exorbitante angariada para a confecção da satírica salada: bastaram 18 apoiantes iniciais e uma publicação sobre a campanha no site Reddit no dia 7 de Julho, para que o fenómeno chegasse aos quatro cantos do mundo e o número de doações aumentasse exponencialmente. O dinheiro chegou de 54 países e cerca de um terço do total doado veio de fora dos Estados Unidos, de acordo com os dados recolhidos pelo jornal The Atlantic.

Uma série de questões foram levantadas sobre a legitimidade do projecto e da nova política do Kickstarter por autorizar que tais campanhas vão avante. Mas quanto mais objecções eram feitas, mais dinheiro era “atirado” à taça da salada: “Vou dar um dólar simplesmente por diversão e pelo factor surrealista. E para mandar dar uma volta [tradução adaptada por conter termos obscenos] a todos os hipócritas insignificantes que andam por aí”, escreveu um dos doadores.

Os maiores problemas de Zack não foram então as críticas que lhe foram dirigidas. A campanha gerou uma grande quantia de dinheiro num curto espaço de tempo. Isso não chamou só a atenção dos habitantes comuns da Internet de 20 e poucos anos. Também a Fundação de Impostos americana tomou conhecimento do caso o que originou um novo debate: a quantia angariada pode ser considerada como rendimentos? Se sim, então Zack terá de pagar milhares dólares em impostos.

Num artigo da revista Forbes, a analista Kelly Phillips Erb explica como Zack pode simplesmente alegar que o dinheiro foi um presente, uma doação, e não uma troca por um serviço ou por um bem de valor igual ou superior: “[…] diria que muitas das pessoas que estão a fazer doações não estão a fazê-lo por um frasco de maionese autografada [uma das promessas feitas por Zack aos doadores]. Estão a fazê-lo por Brown. […] Suspeito de que algum do dinheiro possa ser considerado como rendimento mas penso que existe um bom argumento para que nem todo o valor o seja”, escreveu a analista no artigo.

Como tal, Zack não deverá pagar ao governo americano a enorme porção do capital gerado inicialmente sugerida. E não parece ter sequer intenções de o fazer.

Numa entrevista ao programa Good Morning America, a desaprovação pelo elevado valor alcançado pela campanha de Brown esteve estampada na cara de alguns dos qualificados e experientes apresentadores, não tendo sido disfarçada pelos risos constantes. Mas o jovem brincalhão tomou uma postura humilde e explicou que queria “fazer o melhor que conseguir com isto”.

O destino do capital está traçado: aproximadamente 25 000 dólares vão servir para cumprir alguns objectivos que foram sendo acrescentados ao projecto e a restante quantia vai reverter para a criação de um festival de música que se chamará PotatoStack 2014, com data de início prevista para finais de Setembro. As receitas do concessionamento de espaço do festival a cadeias comerciais irão para associações de solidariedade.

É um gesto louvável de Zack “Danger” Brown, mas mesmo que este quisesse ficar com todo o dinheiro para si, não lhe deveria ser apontado o dedo nem o poderiam acusar de nada, visto este não ter roubado ninguém, nem ter começado um esquema em pirâmide. Este jovem sempre teve uma atitude cândida e honesta, mesmo tendo um projecto alimentado por ironia, desde o início.“É estranho pensarem que consegui este dinheiro de forma fraudulenta. […] Contei uma piada e as pessoas acharam graça”, explicou Zack ao site 614Columbus.

As opiniões vão certamente continuar divididas até aparecer um novo caso peculiar para ser o alvo das atenções. Até lá, fica a sátira sobre saladas de batata feita por Zack no decorrer da campanha no Kickstarter e que certamente lhe valeu algumas doações.