Em Paredes não se dorme


 
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O que é que estão aqui a fazer sem comida, a tomar banho de água fria e a aturar um gajo de megafone que não vos deixa dormir? Só pode ser coisa de Satã!” Ainda não tinham chegado as 10 horas da manhã, mas, na zona Este do campismo do Vodafone Paredes de Coura, já ninguém dormia – essa coisa de descansar é para meninos.

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A manhã era a do segundo dia do festival, mas grande parte das pessoas já lá estava desde o início da semana – um tempo para habituar o corpo e a mente ao descanso na relva e aos banhos de rio (o que é isso de salmonelas?). A noite de recepção tinha terminado com os Cut Copy a estrear o palco Vodafone FM em versão DJ Set – Dan Whitford em dose dupla, a marcar presença nos dias pares –, mas se os corpos precisavam de descanso os responsáveis foram, horas antes, os Cage the Elephant. “This is the best crowd of our european tour!”, palavras de Matt Shultz já depois de se ter despedido da sua camisa de seda às riscas verticais pretas – quem visse o menino aprumado no início do concerto não o acreditaria capaz de tanto salto (no ar, de pernas afastadas – talvez uma versão especial para Take it or Leave it). Um quase desconhecido a dar um concerto que ninguém esperava (nota mais do que positiva) que não se aguentou sem o contacto directo com o seu público dedicado – uma imagem bonita, o flutuar na tona da multidão.

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Cage The Elephant

Satã está no meio de nós! Aposto que num raio de 50 metros já aconteceu promiscuidade!”, insistia a voz incógnita do altifalante – mesmo sob as constantes ameaças provenientes de tendas, também, incógnitas. Todavia, ameaças sem grande fundamento. O sol já tinha chegado e a verdade é que ficar deitado numa tenda com efeito sauna era o mais parecido com inferno que ali existia. “Estão a dormir com a consciência pesada, pessoas com tendas à sombra?” Os que chegaram primeiro precaveram-se com lonas penduradas nos troncos ou tendas montadas debaixo da folhagem das árvores. Para os que ficaram ao sol, a solução passava por desistir do sono no acampamento e tirar partido dos recursos naturais. “This is the most beautiful festival! I swear to God! You have this river out there…. And I’ve never seen so much beautiful girls in one place” – foi Steven quem o disse.

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Seasick Steve

Seasick Steve, o homem com a colecção de guitarras mais peculiar que por ali passou (a maioria feitas por ele e as que não o eram estavam tão artilhadas de acrescentos de metal, tinta e autocolantes, que pareciam) apresentou-se no seu auge de lenhador – a camisa de flanela aos quadrados, o boné de pala verde e a barba farfalhuda a querer tocar na barriga. O anfiteatro natural – a já conhecida clareira com o palco principal no fundo – a fazer um convite aos fãs dos ritmos compassados do blues. Todos aceitaram. Steve foi provavelmente o primeiro artista a completar – a sério – o recinto. Mas há que ter em conta que, para além de tocar e beber – fiel companheira garrafa de vinho -, o senhor, já na casa dos setenta, ainda mostrou que era capaz de tirar partido do seu charme no meio das meninas. “I got wine, but I need a girl!”, disse, provocando no público uma avalanche de braços femininos no ar, a descair na direcção do palco.“I wanna pick a lot of you!” E então, uma Ana de cabelos compridos, chapéu branco estilo vaqueiro, e óculos de sol que cobriam a cara, muito para além da zona dos olhos, subiu. “Ana, just me and you, summer time, I’m pretending I’m fifteen years younger, and I’m trying to court you. Do you know what that mean?” Neste caso, significou Steven a encarnar a personagem de Walkin Man – uma coisa de contacto visual profundo – num momento que nem os aplausos puderam interromper – “Don’t clap! Grab a girl!” Mais perto do fim, ainda teve tempo de contar de como a partir de uma jante oferecida por Jack White (primeiro os Cage the Elephant com um excerto de Seven Nation Army, depois Steve – afinal os White Stripes também faziam parte do cartaz) e de “uma daquelas coisas para virar hambúrgueres” construiu (mais uma) a guitarra que tinha ao colo. “Ah… And I forgot… I used my Christmas decoration too!

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Marc De Marco

Steven abandonou o palco Vodafone já com Mac DeMarco a ajudar no transporte do material – chegou, levantou o braço em jeito de cumprimento e depois concentrou-se no soundcheck (desmontar umas coisas, montar outras, testar tudo e brincar com a pequena cadela mecânica, cor de rosa e de olhos vermelhos diabólicos, que se movimentava em cima da mesa de mistura). Afinal, ia dar um concerto dentro de 20 minutos e as folhas de alface já se faziam notar por entre a plateia. Quando começou – desta vez a sério – a voz de DeMarco desvanecia-se no meio do som dos instrumentos e dos gritos do público. A solução foi apresentar o novo guitarrista – o Andy – e tratar do assunto enquanto este falava dos tipos de carros que já tinha conduzido e de como foi crescer na California. Um problema menor, tendo em vista o desenvolvimento do concerto. DeMarco lembrou-se de chamar ao palco um fã de Bob Marley – ou, pelo menos, era essa a ideia. A rapariga que subiu, ou pelas poucas referências musicais que tinha ou pelo estado de nervosismo extremo em que se encontrava, não conseguiu dar continuação ao “We’re Jaming” de DeMarco, apostando antes em desempenhar o papel de eco – DeMarco cantava e ela repetia. Quem assistiu ficou meio perdido, mas foi na onda. Até porque esta não seria a única situação estranha de interacção com o público. No último dia do festival, James Blake quis gravar os sons produzidos pelas pessoas que estavam a assistir ao concerto – e que, tendo em conta a inexistência de espaço entre cabeças, deveriam ser muitos e diversificados. A ideia era gravar a sua voz em loop station, seguida dos gritos e assobios do público – fortes o suficiente para terem capacidade de ser gravados do palco. A coisa não correu como previsto, ficou tudo tímido e Blake (desculpando-se por não conseguir explicar a coisa em português) desistiu à terceira – o resultado foi um bonito refrão com ruído de fundo.

DeMarco pediu, de lábios vermelhos, “Let My Baby Stay” e Paredes de Coura concedeu-lhe o desejo. No palco, a suposta fã de Bob Marley já se fazia acompanhar de uma amiga (duas, três?), um dos rapazes crocodilo também já lá estava – seres que encantaram o alterado Brooks Nielsen no último dia do festival – e não paravam de chegar mais e mais pessoas. Quando os seguranças tentaram interromper o cenário de típico programa de televisão infantil dos anos noventa (a banda rodeada de mil cabeças saltitantes), DeMarco gritou furioso “Hey, you! Yes, I’m talking to you! Leave them alone!” Mas a verdade é que a seguir mergulhou na plateia – a juntar-se a mais uns quantos que faziam do crowd surfing uma espécie de carrossel: lançavam-se, iam suportados por braços até ao fosso dos fotógrafos, os seguranças ajudavam na saída, davam a volta e tudo novamente (festa em loop). Algo muito diferente daquilo que, minutos depois, no palco Vodafone FM, seria Thee oh Sees. Mais agressivo e menos descontrolado: o primeiro (e único) que teve a infeliz ideia de invadir o palco não se safou muito bem e no fim do concerto, quando já era possível dar mais de dois passos dentro da tenda preta gigante, existiam vestígios no chão daquilo que outrora teriam sido uns óculos – muito mais nódoas negras do que em Perfect Pussy no terceiro dia do festival.

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No campismo a alvorada marca a hora da oração. Pelo menos é o que grita o megafone – há que nos livrar do mal. A purificação começa com um pouco de música sacra – uma versão de Ave Maria interpretada por uma tal de “mulher com uma voz que dói”, que afinal é Alessandro Moreschi (o último castrati) – seguida de palavras de sabedoria profunda: “Para um grande poder vem uma grande responsabilidade, já nos dizia o homem aranha.” Toda a gente abandona cedo as tendas metamorfoseadas em fornos. Uns vão para os banhos conjuntos de água fria, outros para as casas de banho – o medo do último dia de festival – e outros vão directamente para a vila, em busca do pequeno almoço consistente, da privacidade e da água quente. Da parte da tarde, encontrar um lugar desocupado à beira-rio pode ser uma espécie de quebra cabeças – se, na zona de campismo, o espaço entre tendas é inexistente (um verdadeiro desafio à destreza de cada um, principalmente se envolver álcool e pouca luz) o espaço entre toalhas, esteiras, geleiras, e outros apetrechos será, igualmente, pouco. Mas, na reta final, há também que aproveitar o recinto. Os Sensible Soccers começavam às 18.30.

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Sensible Soccers

O cachecol do Rio Ave foi a Paredes – ao que parece tem uma relação com uns sintetizadores que se fazem acompanhar de guitarras. A coisa começou calma e também acabou calma, mas com muito mais gente – a zona mais próxima do palco não permitia lugares de rabo no chão. O difícil mesmo era permanecer sentado – é um álbum, chama-se 8, pertence aos Sensible Soccers e, apesar da vertente minimalista, repele a inactividade. Mas o concerto misturou também coisas mais antigas. Dos quarenta minutos de viagens a algum lugar, o final pertenceu ao single Sofrendo por Você” – o bailarino sensual (desta vez com uns boxers justos, com um padrão de bolas de várias cores) a aparecer do vazio – “Mas de onde é que este veio?”, ouviu-se – com os seus moves a monopolizar as atenções – mas ainda estão ali pessoas a fazer música? Não estava escuro, mas também não foi preciso.

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James Blake

Precisas de ajuda para desmontar a tenda?” É que isto do campismo em Paredes de Coura não é só ausência de sono (mesmo que provocada). Nas últimas horas, muito do pessoal que acabava de regressar do DJ Set com o James Blake (1-800 Dinosaur) estava já pronto para arrumar a trouxa e ir dormir para a camioneta – várias, estacionadas na pequena rotunda de entrada na vila, à espera para ocupar todos os lugares e partir. Partilhava-se o resto dos mantimentos em espécies de pequeno-almoço, como dias antes se partilharam as garrafas de cerveja que conservavam a frescura no interior dos riachos que circulavam por entre o acampamento – ao ponto de merecerem fotografias por já nem ser ver o fundo de terra, tal era a quantidade e variedade de vidro submerso. O megafone continuou. “No princípio era o verbo, a palavra veio depois”. Palavras que hão-de ser recordadas no próximo ano.

Fotos: Hugo Lima

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!