FUSING 2014: dia 2


“Bossa nova num festival?” – uma resposta do palco para o público: no palco, Cícero, o público, o do segundo dia do FUSING. Como se previamente planeado, um conjunto de pessoas dispersas por entre a plateia decidiram que era boa ideia que “Um Ensaio Sobre Ela” fizesse parte da setlist. Contudo, tal não estava nos planos do artista brasileiro. Mas nem por isso deixou de ser um espectáculo com surpresas. Era “Sexta-Feira” e “Isabel”, aconteceu.

Horas antes, os Nice Weather For Ducks, de Leiria, mostraram ao público presente no Palco EXPERIENCE que é possível juntar indie rock festivo e directo com um post-rock capaz de criar paisagens sonoras tão envolventes quanto o recinto do festival. A festa fez-se tanto a saltar, como quieto e de olhos fechados, ouvindo atentamente o jogo melódico psicadélico entre os dois guitarristas e o teclista Bruno Santos. Quase a chegar ao fim, o refrão de “2012” juntou as vozes da plateia às da banda, para o momento mais festivo do concerto.

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Quem é a Isabel? “A Isabel é a menina da música”, afirmou Cícero. Uma música do próximo álbum, que teve a sua estreia em Portugal, apenas porque foi possível – “Achei que dava uma outra cara para a música se a levasse para outro lugar. Existiu essa possibilidade no festival e a gente fez o arranjo.” Um arranjo agitado, uma bossa a pedir o pé fora do chão, mas com uma história de cuidados e atenções para a pobre Isabel.“Tento sempre fazer com que a música atenda à letra e não com que a letra atenda à música.” Um cuidado já conhecido do músico – porque nas músicas de Cícero é a letra que pensa. Contudo, “Isabel” é de um ritmo mais ligeiro – “a primeira informação dela é o facto de ser dançante, então aí, acho que também já não dá para pensar muito.” Além do mais, vai sempre depender da interpretação individual de cada um, uma vez que “as mensagens escondidas estão mais em quem ouve.”

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Entre um duelo de chefs e uma conferência com a Anita dos 7 ofícios, os portuenses Salto abriram o Palco Experience com o seu indie rock electrónico. O público, que ao início era reduzido e tímido, foi ganhando uma certa genica ao longo do concerto com “Deixar Cair” e “O Teu Par”, ouvindo-se algumas vozes ébrias a acompanhar a banda nos refrões. As músicas do novo Beat Oven foram as melhor conseguidas e receberam uma maior aderência por parte da plateia, onde a banda mostrou uma sonoridade ainda mais direccionada para a electrónica. No entanto, apesar da participação de Francisco Ferreira dos Capitão Fausto e da celebração do aniversário de Luís Montenegro com confettis à mistura, o espectáculo soube a pouco, ficando aquém daquilo a que os Salto nos tinham habituado em concertos anteriores, o que foi uma surpresa, visto que a banda passou de um formato de dois músicos para quatro.

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Já para os Capitão Fausto, cabeças de cartaz do dia, foram as jams que introduziram a meio das músicas que serviram de pretexto para a actuação. E num concerto onde se ouviram maioritariamente as músicas de “Pesar O Sol” – por outras palavras, longos testamentos psicadélicos, onde o instrumental assume maior destaque – essas jams podem não ser muito bem recebidas. Os acordes lembram Tame Impala e deixam pouca margem para outras imaginações e as melodias são, na maior parte das vezes, entediantes. Num concerto cheio de truques – Tomás Wallenstein a solar deitado no chão ou o teclista, Francisco, a pisar o teclado – que nunca chegou a aquecer, salvaram-se as músicas do primeiro álbum, “Gazela”, que cada vez mais se mostra claramente superior ao irmão mais novo.

“Eu tenho uma relação mais íntima com letras, acho até mais do que com a composição da melodia. Na letra é que eu consigo tornar música particular.” Algo que já não é novidade para os fãs de Cícero. Para o novo CD, promete a mesma atenção com a lira, e um pouco menos de menos ressaca, menos desilusões.

(Guilherme Correia e José Crespo contribuíram neste artigo)