Mais Lá Tinha(s), mais fotografias


A imagem é muito bonita, mesmo que com esse granulado.” Palavras do mentor – neste caso, um dos mentores da foto em lata, Diego Cunha – ao observar a fotografia de Edmilson Fonseca, um dos seus pequenos parceiros no projecto Lá Tinha. Uma fotografia exposta em plena rua Cor-de-Rosa, no Cais do Sodré, num suporte em formato espanta espíritos – chegava mesmo a mover-se pela acção do vento – que sustentava um conjunto de molduras dependuradas: placas que protegiam as várias imagens que haviam sido capturadas pelos jovens fotógrafos durante o decorrer de um processo que envolveu latas de sardinha, câmaras artesanais e a magia da fotografia.

Nós costumávamos fazer as máquinas com caixas de fósforos. No entanto, quando falei com o Bob [o outro autor do projecto], para que me ajudasse, ele achou melhor usarmos as latas de sardinha.” Depois de desenvolvida a ideia, foram uns tempos a comer enlatados – o que acabou por resultar numa parceria com o estabelecimento Sol e Pesca, que acolheu esta exposição –, uma conversa com a assistente social Ana Monteiro, o reunir de um grupo de 12 crianças entre os 8 e os 14 anos – “foram eles que escolheram participar por eles mesmos” -, diversão, trabalho e agora exposições. O objectivo aqui, para além dos benefícios das actividades lúdicas em crianças pertencentes a esta faixa etária, é “desmistificar um pouco a ideia que as pessoas têm de bairro social.” A Cova da Moura foi a casa que os acolheu, mas “a gente também quer levar o projecto para bairros com recursos.

Até porque Lá Tinha não fica por aqui. “Agora estamos nesse papel de aprimorar”, afirma Diego. Isto porque, no que respeita a esta primeira vaga, o grupo não teve oportunidade de revelar as fotografias com as crianças. Elas apenas capturavam as imagens – através de um modelo de câmara pinhole aplicado a latas de sardinha – e viam o resultado mais tarde. Assim, neste segundo ateliê “a gente pensa em conseguir levá-los para estúdio para que eles possam ver a imagem surgindo – o que, na minha opinião, é o maior encanto da fotografia!” Além do mais, querem também fazer uma versão ampliada do modelo latinha criando “uma câmara escura – como uma latona – onde eles possam entrar.” Isto corresponderia, mais ou menos, a um grande compartimento fechado (uma sala escura), onde, em uma das paredes, um pequeno furo fosse o único responsável pela entrada de luz forte, criando um efeito de projecção – tal como no cinema – de uma imagem, mas de pernas para o ar (a imagem do exterior do compartimento). “Uma câmara em tempo real para que eles entendam o que é fotografar.” O aprofundar da teoria, portanto.

A fotografia de Edmilson não oferece muita informação acerca do local onde foi captada – mas sabemos que se trata do bairro da Cova da Moura. Uma linha de horizonte mal delineada formada por um céu muito azul em contacto com o verde de uns montes distantes que perdem protagonismo no avanço crescente dos planos: o topo de uns prédios, árvores, terra e uma sombra – muita sombra escura a emoldurar a imagem. Um dos vários resultados que surpreendeu as crianças, uma vez que, de acordo com Diego, não admitiam que fosse possível. “Eles não acreditavam. Diziam: «Achas que sou parvo, pah? Isso vai tirar foto?» E eu respondia: «Você acha que eu sou parvo também em vir aqui fazer você gastar o seu tempo, se realmente isso não funcionasse? Claro que funciona!» Mas, mesmo assim, só acreditaram quando viram as fotos.” Agora, com esta segunda versão do projecto, a começar já no dia 20 de Agosto, as crianças vão poder acompanhar todo o processo. “Vamos poder mostrar que se trata de uma imagem real e não de uma imagem virtual.

Lá Tinha continua na Cova da Moura, mas vai também fazer uma visita à Costa do Castelo. “Disseminar a ideia – é o que a gente mais quer.” Até porque este é um projecto suportado economicamente pela equipa. De uma forma clara: quanto mais apoios conseguirem, mais possibilidades têm de expandir as Lá Tinha(s) por Portugal.

(fotos: Gonçalo Regalado e Marina Athayde / Lá Tinha)