Que lições podem os funcionários da Apple retirar de Picasso?


Numa rara oportunidade, os media tiveram acesso a alguma informação sobre o conteúdo programático e o funcionamento das aulas leccionadas na muito discreta Universidade da Apple, graças a uma entrevista conseguida pelo New York Times a três funcionários da multinacional norte-americana, que pediram para permanecer anónimos.

Este programa multidisciplinar da Apple foi fundado por Steve Jobs em 2008 com a ajuda do na altura reitor da Faculdade de Gestão da Universidade de Yale, Joel Podolny. Desde então, a marca tem apostado muito nos cursos disponibilizados aos seus funcionários, recrutando docentes das melhores universidades norte-americanas e peritos de outras companhias para criar e ensinar as disciplinas, dando uma grande atenção aos espaços onde as aulas decorrem de forma a proporcionar o melhor ambiente aos inscritos.

“Até o papel higiénico nas casas de banho é muito bom”, contou um dos funcionários que aceitou falar com o New York Times.

Os cursos têm como objectivos melhor explicar o funcionamento da multinacional e transmitir os valores defendidos pela Apple e pelo próprio fundador Steve Jobs, mas a inscrição nestes não é obrigatória. Mesmo assim, a taxa de adesão é muito alta e, tal como acontece com todos os outros assuntos que dizem respeito à marca, os funcionários e os docentes são desencorajados a partilhar quaisquer informações sobre o que se passa dentro das salas de aula.

Os professores, vindos das mais conceituadas universidades como Yale, Harvard, Berkeley ou o M.I.T., ensinam desde estratégias de integração dos recursos humanos das empresas recentemente adquiridas na Apple (aulas essas a que deverão ter tido acesso os funcionários da Beats) até às melhores formas de comunicar com os colegas de maneira a que os produtos, fruto da colaboração entre funcionários, sejam simples e intuitivos.

Steve Jobs era um aficcionado da arte do século XX. O próprio logo do Mac original, de 1984, foi fortemente inspirado pelos trabalhos do artista francês Henri Matisse, contemporâneo de Picasso. Não é de espantar que uma das disciplinas do programa de instrução interno leccionadas em 2013 se tenha centrado na obra O Touro de Pablo Picasso, um conjunto de 11 litografias em que o pintor espanhol parte de um touro com um aspecto realista e completo retirando-lhe detalhes ao longo das restantes litografias até o animal surgir composto por uma só linha, não deixando de tratar-se claramente de um touro.

Essas aulas foram organizadas pelo instrutor Randy Nelson, que a Apple recrutou dos estúdios de animação da Pixar, com o objectivo de perpetuar um dos valores máximos da multinacional, que pretende actualizar e simplificar cada vez mais os seus produtos sem que estes percam a sua funcionalidade: “Passas por uma série de iterações até conseguires simplesmente entregar a mensagem de forma concisa, e isso está em concordância com a marca da Apple e com tudo o que fazemos”, explicou um funcionário que se inscreveu na disciplina.

Segundo as fontes do jornal norte-americano, Randy Nelson mostra nas suas aulas a evolução de alguns produtos da companhia ao longo do tempo e faz comparações entre estes e os seus equivalentes de outras marcas, pegando, por exemplo, no comando da Google TV com 78 botões e comparando-o com o da Apple TV com apenas 3 botões mas com a mesma funcionalidade.

As aulas decorrem no interior do campus da Apple na Califórnia, nos Estados Unidos, excepto em situações ocasionais em que os instrutores se deslocam além-fronteiras para ensinar as suas disciplinas noutras sedes da corporação como, por exemplo, na China. Desta forma deverá ser mais fácil não deixar escapar informações sobre o sistema de in-doutrinação da companhia que continua a ser uma fonte de especulação, tendo sido mencionado muito brevemente na biografia de Steven P. Jobs da autoria de Walter Isaacson e sendo poucas as vezes em que é tratado pelos media.

Quando até os ex-funcionários se recusam tantas vezes a falar sobre a empresa e nas raras ocasiões em que aceitam fazer comentários o fazem desta forma, é porque algo está a correr muito bem no seio da Apple: “Steve estava a olhar para o seu legado. A ideia foi retirar o que é único na marca e com isso criar um fórum que consegue transmitir esse ADN a gerações futuras de empregados da Apple”, contou um ex-executivo da marca da maçã em 2011 ao jornal LA Times, pedindo também anonimato na altura.

Todos os que prestaram declações sobre o sistema de ensino interno da empresa garantem que este reflecte a forma de pensar do falecido Steve Jobs.