Um desafio solidário com Gaza, numa altura em que palestinianos celebram o recente cessar-fogo


No sábado passado foi lançada uma das iniciativas com mais carga simbólica dos últimos tempos: o Rubble Bucket Challenge (desafio do balde de entulho).

A campanha terá sido lançada pela estudante universitária e habitante na Faixa de Gaza Maysam Yusef com a ajuda do comediante da Jordânia Mohammed Darwaza, apesar de muitos meios de comunicação também atribuirem o mérito deste desafio ao jornalista Aymad al Aloul (no video abaixo).

Maysam Yusef publicou a campanha no Facebook para chamar a atenção do mundo para a crise que se vive em Gaza: “As pessoas enlouqueceram com os ataques de 11/9 e várias guerras eclodiram contra quem se afirmou como orquestrador do ataque, mas ninguém quer saber de Gaza, e Israel não quer saber do que o mundo possa pensar. É absolutamente ultrajante e os ataques a Gaza estão a tomar proporções muito perigosas porque não foram realmente feitos esforços para parar Israel.

GAZA ESTÁ A SER DIZIMADA E VOCÊS NÃO FAZEM NADA QUANTO A ISSO! POR FAVOR, NÃO ME PEÇAM PARA SER PACIENTE E NÃO ME DIGAM QUE VOU SER RECOMPENSADA NO CÉU. ISSO SÃO TRETAS [tradução adaptada por conter termos obscenos]”, escreveu em tom desesperado e irado a jovem na sua página de Facebook.

Porquê baldes de entulho? Porque durante os ataques de Israel na Palestina, durante o massacre, o povo palestiniano ficou com acesso limitado a bens essenciais como a água. As infra-estruturas foram quase totalmente destruídas e por isso muitos não podem usar electricidade para fazer gelo, mesmo que quisessem. E porque depois da destruição de edifícios, onde se incluem escolas e escritórios, existem escombros e entulho suficientes para serem despejados e atirados com baldes e caixotes.

No Twitter, a campanha tem ganhado força através de mensagens de apoio e vídeos identificados com #RubbleBucketChallenge e, no Facebook, a página do desafio conta agora com mais de 7 mil seguidores de várias partes do mundo:

Ontem, a campanha ganhou um boost extra com o vídeo do cantor palestiniano Mohammed Assaf:

Mas a grande vitória para Maysam Yusef e para todos os palestinianos não será o sucesso que esta iniciativa está a ter ou que poderá ainda alcançar.

Depois de mais de sete semanas de bombardeamentos, destruição, da morte de mais de 2 mil pessoas, na maioria civis, e do fracasso do acordo feito no dia 19 de Agosto, Hamas e Israel anunciaram um cessar-fogo a longo prazo. O anúncio foi feito na tarde de terça-feira pelo presidente palestiniano, Mahmoud Abbas, na cidade de Ramalá, a 15 quilómetros de Jerusalém.

Segundo a Al Jazeera, Mahmoud Abbas disse que quer aproveitar esta oportunidade, durante a qual todas as partes envolvidas irão novamente juntar-se para negociar, para “construir uma nova nação e acabar com a ocupação”, agradecendo em seguida ao Egipto, ao Qatar e aos Estados Unidos pela influência que exerceram durante os diálogos indirectos no Cairo. Para já, ainda não se conhecem os termos do acordo que terão levado ao cessar-fogo.

Várias estações de televisão palestinianas têm passado imagens das celebrações em Gaza, enquanto milhares de pessoas saem para as ruas para festejar o facto de ainda estarem vivas, esperançosas de que o martírio tenha finalmente acabado.

Maysam Yusef publicou um vídeo onde agradece o apoio de todos nas redes sociais e se mostra emocionada pelas notícias do cessar-fogo. Mas diz ainda na sua página de Facebook, enquanto cidadã palestiniana que assistiu de perto a uma das maiores atrocidades das sociedades modernas, que, mesmo que seja declarada paz, os crimes de guerra não poderão ser esquecidos e os responsáveis não poderão sair impunes.

Se o cessar-fogo se mantiver, talvez seja bom continuar com a campanha do Rubble Bucket Challenge, pois certamente será necessário um esforço conjunto a nível global para limpar o rasto de destruição deixado pelos confrontos. Até agora, a iniciativa não promoveu a recolha de donativos, mas, se a Palestina conseguir finalmente entrar num periodo de reconstrução, talvez seja preciso começar a fazê-lo. Resta saber se o mundo irá mover-se tanto pelos destroços desta guerra quanto se tem movido para derramar água por outra causa.