A estrutura escondida das conferências Apple


“Um dos produtos mais bem sucedidos da Apple – mas que raramente é reconhecido como tal – não é feito de alumínio, nem de vidro, mas de palavras e de imagens. A Apple Keynote é a ferramenta que a empresa usa algumas vezes por ano para anunciar os seus outros produtos a milhões de pessoas”, escreve o Quartz. O site analisou dezenas de conferências Apple para perceber a sua estrutura, a sua chave.

As conferências Apple (ao todo, desde o anúncio do primeiro iPhone em 2007, foram mais de 30) duram, segundo cálculos do Quartz, 88 minutos em média e têm todas o mesmo aspecto: uns slides escuros, a presença dos executivos da empresa, demonstrações em palco, alguns vídeos a explicar o design ou o desenvolvimento dos produtos, momentos de humor variados… Tudo muito linear, tudo muito idêntico, tudo dentro de um modelo definido há uns anos e replicado todos os anos.

Os protagonistas

Steve Jobs gostava do palco e, antes de ficar doente, fazia questão de dominar a apresentação. Por exemplo, durante a apresentação do primeiro iPhone, em 2007, Jobs esteve 90 minutos em palco; só saiu para deixar entrar os parceiros, como o então CEO da Google (e amigo da Apple) Eric Schmidt. No lançamento do primeiro iPad, em 2010, Jobs também quis ser a presença dominante.

Mas à medida que foi ficando doente, o então-CEO foi emprestando o lugar a outros executivos, como Phil Schiller e Scott Forstall (“um protégé de longa data de Jobs que Tim Cook despediu em 2012”, escreve o Quartz).

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Depois chegou Tim Cook, e com ele uma abordagem diferente da de Jobs. Tal como nota o Quartz, Cook é uma espécie de MC das conferências Apple. É ele que introduz e conclui os eventos, que faz a transição entre os diversos assuntos e que actualiza a audiência com os números da empresa e as novidades institucionais. De resto, passa a bola para Phil Schiller (assuntos de hardware) ou para Craig Federighi (tudo o que é software).

Segundo contas do Quartz, Cook passa menos de 20 minutos no palco, um número muito inferior aos 90 minutos de Jobs em 2007. “Ele está constantemente a recordar a comunidade Apple – os seus fãs e consumidores, mas também os seus funcionários – do quanto ele entende e se preocupa com a empresa que herdou. Uma das suas expressões mais frequentes é ‘só a Apple…’ – quando muito brevemente diz que nenhuma outra empresa conseguiria criar os produtos que a Apple acabou de mostra”, escreve o site.

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Os humoristas

“Estes eventos estão pensados para informar, mas também para entreter”, nota o Quartz. A audiência (composta por centenas ou milhares de pessoas) é uma parte crítica das conferências e a Apple sabe disso, por isso está sempre a interagir com ela, com momentos de humor protagonizados pelos seus executivos.

Quem não se lembra do último WWDC? Um espectáculo humoristicamente consistente, como há muito a Apple não oferecia. Durante os 117 minutos do mesmo, a audiência de mais de 5 mil pessoas deu mais de 50 gargalhadas e aplaudiu mais de 100 vezes – o que praticamente dá 1 gargalhada por cada 2 minutos e 1 aplauso por minuto. Em casa, o efeito riso e aplauso deve ter-se propagado, como que se de um vírus se tratasse, pelas mais de 20 milhões de pessoas que assistiram ao streaming da conferência.

O Quartz analisou os seis eventos mais recentes da Apple e verificou que também Tim Cook consegue ter piada, mas que Federighi é o mais engraçado (é também o que passou mais tempo em palco). Muitas das piadas passam por picar a Microsoft, a Google ou a Samsung, ou outros executivos da empresa.

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No último WWDC, Craig Federighi foi quem esteve mais tempo em palco: um total de 75 minutos, para falar do iOS 8 e do OS X Yosemite, e ainda demonstrar algumas funcionalidades dos dois novos sistemas operativos.

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As revelações

Jobs fazia uso do suspense, deixando o melhor para o fim (“one more thing”). O iPhone 3G e o iPhone 3GS só foram introduzidos depois de 85 e 102 minutos, respectivamente, do início das conferências. Em 2007, demorou 29 minutos até apresentar o primeiro iPhone, os modelos 4 e 4S também não foram anunciados logo no início.

Tim Cook mudou ligeiramente o esquema. Em média, temos de esperar 45 minutos para saber como é o novo iPhone, mas recentemente a espera tem sido mais curta, segundo nota o Quartz. Ainda nem 15 minutos tinham passado do início da conferência, e já o iPhone 5 tinha sido apresentado. Também o iPhone 5C e o iPhone 5S foram revelados na primeira parte do evento, não fazendo a audiência esperar muito.

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Fonte: Quartz