Famous Humour Fest: frágil, contém comédia


“Rir, ao contrário de todas as coisas que existem no nosso país, desde as bilhas de gás ao feltro do bilhar grande, não é cultura. Quando ri um português, coram logo dois ou três”, notava, já nos anos oitenta, Miguel Esteves Cardoso (MEC), na crónica “Graça”, que integra a colectânea de artigos A Causa das Coisas. Pelo quarto ano, a produtora H2N e a Famous Grouse ousaram contrariar essa doutrina. No LX Factory, de quinta a sábado, o Famous Humour Fest acolheu espectáculos ao vivo, mostras de cinema, exposições, masterclasses e até uma actuação de rua.

O main event do primeiro dia do festival foi uma conversa informal entre o próprio MEC, como que batalhando para alterar o paradigma que antes assinalara, e Bruno Nogueira. Dois ídolos humorísticos de gerações diferentes. Bruno, o mais bem-sucedido bobo da piada natural. Miguel, o trovador incontornável da assertividade no escárnio.

Uma Conversa Previsível passou por temas como a desvalorização dos palavrões (“meu filha da puta” é hoje algo normal cumprimentando um querido amigo de longa data) e também a análise a um livro sobre jurisprudência de divórcios, ou como um homem pode pedir a separação se a mulher o adjectivar de “corno manso”, bem como a mulher pode fazer o mesmo se for apelidada de “puta batida”. O momento mais fracturante do espectáculo iniciou-se com a interpelação de Bruno a MEC sobre opções de vida: “Preferes ter, diariamente, a Simone de Oliveira a cantar-te ao ouvido ou ter uma pila permanentemente colada à cara?”, “Segunda opção”, responde MEC confiantemente, “e se fosse o Paulo Gonzo? Duas pilas”.

Os dois sublinham o carácter penoso da profissão de humorista. Se já na crónica supracitada MEC escrevera que “um engraçadinho, em Portugal, está condenado a uma existência semanticamente abaixo de desgraçada”, menciona agora que “por cá, quando apareces és um génio, passas rapidamente para a fase ‘já tiveste mais graça’ e pouco tempo depois as pessoas acham que mereces morrer”.

A geração que não era nascida quando MEC fixou, na modalidade de crónica de humor, uma bitola impossível de atingir e que tinha aulas nos dias a seguir ao Bruno Nogueira partir tudo no Levanta-te e Ri, delirou, na sexta-feira, com a apresentação de diapositivos Toda a Verdade Sobre o Instagram, de Salvador Martinha.

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Para mim, o ponto alto do festival. Familiarizado com as rotinas do seu público, Salvador expôs uma das zonas críticas da epidemia de vergonha alheia que são as redes sociais. Uma apresentação PowerPoint estruturada que se juntou a uma exposição destruturada, amiúde improvisada e interactiva, reveladora de muitas horas de palco. Se Salvador sofre da condição de “tudo o que diz tem piada” (como referiu o colega Luís Franco-Bastos, no espectáculo que encerrou o festival), o Instagram providencia, sem dúvida, humor de graça: a apresentação fecha com a análise à conta do ex-futebolista Costinha (@ministrocostinha), detentor da pasta da auto-devassa, que não se demite de assolar as nossas vidas com as suas inacreditáveis fotografias.

Para além da presença de humoristas consagrados, o Famous Humour Fest ofereceu ao seu público a oportunidade de conhecer as novas caras da comédia. A Maratona de Graça, organizada por Fernando Alvim, funcionou como um concurso de apresentações humorísticas e o Cocktail de Comédia, apresentado por Guilherme Fonseca, trouxe à LX Factory alguns dos talentos que têm vingado no circuito de stand-up comedy lisboeta. Diogo Faro, autor do fenómeno Sensivelmente Idiota, apresentou, para uma sala esgotada, o seu inovador talk show ao vivo, contando com convidados como João Manzarra e Inês Aires Pereira.

Entre as paredes industriais da LX Factory, que nos transportam para um bairro londrino repleto de comedy clubs, sentiu-se no Famous Humour Fest o calor e o descomprometimento ideal, ao invés do formalismo e elitismo dos festivais e mostras de nicho. O acontecimento fechou com o pot-pourri de artistas Best of The Fest, que teve o seu momento alto na actuação de Luís Franco-Bastos, que já há muito tem vindo a provar a sua vertiginosa evolução de promissor imitador de vozes para humorista feito.

Escreveu MEC, “(…) o modo humorístico preferido dos portugueses é a ironia profunda – geralmente, tão funda, tão funda, que só a esposa, em desabafo de travesseiro, sabe que ela foi, efectivamente, praticada. (…) A ironia em Portugal é tão pesada que precisa de um autocolante preventivo do Ministério da Qualidade de Vida: «Frágil, contém ironias.»”

O Famous foi um passo para a morte desse complexo português pela gargalhada, para o desmantelamento da sorumbática polícia de ofendidos, para o fim das silenciosas manifestações anti-risada. Contudo, vivemos ainda no tempo da máxima “há coisas com que não se brinca”. Há ainda muita terapia de grupo a fazer. Pensa-se nisso depois.

Agora o Festival acabou e vai tudo para o Lux. Frágil, claro.