Interpol – ‘El Pintor’


 
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El Pintor não é para ser ouvido entre o café da manhã e o autocarro para o emprego; aliás, quem se debruçar sobre este oceano de reverb nessas alturas corre o perigo de adormecer. Os 40 minutos que compõem o 5º disco dos nova-iorquinos têm de ser escutados conscientemente e com atenção a tudo o que é apresentado durante as 10 faixas, ou passarão facilmente despercebidos a um ouvinte desatento.

Com isto não quero dizer que é aborrecido ou monótono. Pelo contrário, desde Antics que a banda não lançava um álbum tão interessante: o esforço empregue aqui no que toca a estrutura, exploração sónica e textura é notório. O facto de Paul Banks ter assumido o papel de baixista no processo de construção de El Pintor depois da saída de Carlos Dengler torna ainda mais curioso o sucesso deste disco, uma vez que as linhas de baixo de Dengler são uma das componentes mais importantes na sonoridade Interpoliana. Mas Banks teve isso em consideração, e os arranjos de baixo que aqui ouvimos encaixam na perfeição com as guitarras regadas de delays e reverb de Daniel Kessler e com as batidas pesadas de Sam Fogarino.

O álbum abre com “All The Rage Back Home”, a escolha óbvia (mas certa) para lead single, a música mais rápida e imediata do disco em que a banda mostra que ainda consegue fazer temas com a mesma força que “Slow Hands” ou “Roland”. Os momentos de nostalgia fazem-se sentir ao longo do LP, como por exemplo no riff de “Tidal Wave” ou em músicas como “My Blue Supreme”, que evocam a sonoridade de Turn On The Bright Lights, com o ocasional strumming da guitarra de Banks (que além do baixo gravou também guitarras) acompanhado pelo riff de Kessler, com um sintetizador sem grande protagonismo ao fundo a contribuir para a ambiência post-punk característica da banda.

“My Desire”, uma das melhores composições neste disco, é um daqueles estranhos momentos em que a sonoridade que Kessler e Banks nos apresentam é pesada e densa (duas palavras que usualmente aparecem juntas sempre que se fala nesta banda) mas a batida consistente e encorpada de Fogarino põem-nos a mexer o corpo, seja o pézinho ou um abanar de cabeça involuntário. Esta mistura sonora agridoce manifesta-se noutros temas: seria fácil perdermo-nos no meio das guitarras ziguezagueantes de “Ancient Ways” se não fosse pela percussão impetuosa que as acompanha, impedindo-nos de nos dispersarmos demasiado.

As letras de Paul Banks continuam tão crípticas e sofridas como sempre. A narrativa em “Same Town, New Story” sobre uma mulher que tem de aguentar os alicerces de uma relação problemática ou a confessional “Breaker 1”, em que Banks recita “My acheness all of days, surrenders of a wild side/ I’m inclined because I’ve seen my dreams deep fried/ And I take my turns in stride to speed my feet away” ao som de um órgão que não estaria deslocado num filme de terror B, continuam na esteira literária a que Banks nos habituou a esperar dele, tanto com os Interpol como nos seus projectos a solo. A música “The Depths”, disponível apenas na compra do álbum via Itunes, tem aquilo a que têm chamado a letra mais Interpol de sempre: “If I met a waitress could she turn me on/ I got the time to let her know me / I keep my focus but my dreams keep me strong/ I come abreast of it slowly”.

El Pintor, cujo título é um anagrama de “Interpol”, foi produzido pela banda e é o resultado de uma viagem ao passado, mais especificamente a Turn On The Bright Lights e Antics, mas é também a continuação da expansão sónica da banda começada em Our Love To Admire. Está longe de ser uma obra-prima e não está ao mesmo nível do que o álbum de estreia, mas é uma abordagem refrescante à sonoridade clássica que foram desenvolvendo ao longo dos 12 de carreira, e marca um excelente regresso para um grupo que parecia ter esquecido a sua raison d’être desde o lançamento do epónimo Interpol.

Nota: B-

Se quiseres saber mais sobre este álbum e como a banda o desenvolveu, podes assistir em baixo a um documentário feito pela banda sobre o processo criativo, o trabalho em estúdio e a opinião que têm sobre El Pintor.

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