As manifestações de Hong Kong pelos olhos de um português


Depois de uma semana mais calma, os protestos em Hong Kong voltaram a intensificar-se durante este fim-de-semana, depois de novas tentativas de diálogo com o governo chinês terem falhado.

Milhares de estudantes voltaram a sair às ruas, munidos de mochilas cheias de provisões, tendas e sacos-cama. Alex Chow, um dos líderes dos movimentos pró-democráticos que têm estado por trás das manifestações, avisou de que, se os representantes do governo local continuarem a recusar reunir-se com membros dos movimentos, o próximo passo poderá ser bloquear novamente os edifícios estatais. Este domingo, o chefe do Executivo, Leung Chun-ying, disse que os protestos estão “fora do controlo e que o fim dos mesmos deverá estar para breve, mas garantiu que as forças policiais irão continuar “a gerir a situação com tolerância máxima”.

hongkongserrano_11

Entre os dias 1 e 4 de Outubro, Tiago Serrano, um estudante de 21 anos, esteve em Hong Kong e disponibilizou ao Shifter imagens exclusivas dos protestos. Tiago esteve em contacto com alguns dos manifestantes e falou-nos sobre o ambiente que se vive nas ruas da cidade bem como sobre alguns cenários violentos com que se deparou.

Estando à parte dos acontecimentos, Tiago conseguiu ter uma melhor noção das reacções de alguns turistas, vindos maioritariamente da Austrália, Nova Zelândia, Índia e China Continental, face aos protestos: “não foram as melhores pois reagiram de forma ‘turística’ e inapropriada, tirando fotos a simularem a sua ajuda aos manifestantes e tirando ‘selfies’ revelando ignorância e desrespeito para com a tensa situação política e social que o povo de Hong Kong está a viver”.

Durante a sua permanência naquela região administrativa especial da China, o estudante português ficou hospedado num hostel em Causeway Bay, uma das áreas em que as manifestações têm decorrido com mais intensidade. Enquanto esteve de visita a uma das cidades mais comercialmente activas da Ásia, Tiago passou pelas zonas “onde se tem sentido mais tensão e revolta”: Central, Wan Chai, Admiralty e Mong Kok. Recorde-se que foi em Mong Kok que, na semana passada, manifestantes foram atacados por cerca de mil pessoas mascaradas, pondo fim à primeira tentativa de diálogo entre representantes do Executivo local e membros dos movimentos pró-democráticos Occupy e Scholarism, co-fundado por Joshua Wong, com apenas 17 anos.

hongkongserrano_19

Relativamente à actividade comercial e financeira, a Associação Comercial de Hong Kong revelou ter registado quedas na ordem dos 40% em superfícies comerciais localizadas em áreas onde os protestos têm decorrido. Vários agentes dos media ocidentais falaram ainda da paralisação de várias zonas da cidade durante a primeira semana de Outubro. Mas, pelo que conseguiu observar, o jovem português contou nunca ter visto “tanta gente às compras como em Hong Kong”, apesar dos “muitos habitantes a acampar nas ruas principais” e de alguns bloqueios: “onde existem barricadas de gradeamentos é impossível a passagem de veículos, mas devido à existência de metro, a circulação [de], pelo menos, a maioria da população é assegurada”.

Hong Kong é uma das cidades mais densamente povoadas do mundo e entre os cidadãos exteriores às manifestações, há quem queira simplesmente continuar com a sua vida quotidiana mas há também quem se oponha aos movimentos pró-democráticos:
A vida em Hong Kong tem continuado, havendo quem proteste contra a ocupação das ruas pelos manifestantes (…). [As] pessoas que não tem participado nos protestos têm tendências mistas na forma de actuar: [umas] tiram fotos para espalhar a mensagem, enquanto outras continuam a sua vida normal como se nada fosse e de vez em quando ouvem-se discussões entre a oposição e os apoiantes, sempre civilizadas e nunca interpelando os outros.

hongkongserrano_25

As autoridades têm acompanhado a situação de perto e, tal como Leung Chun-ying prometeu, não se têm verificado confrontos directos com os manifestantes à excepção de alguns atritos em Mong Kok. Mas alguns membros dos movimentos em protesto, como Alex Chow, têm acusado as forças policiais de nada fazerem para garantir a sua segurança.

Desde o incidente com os gases lacrimogéneos usados sobre manifestantes, os agentes de segurança pública têm recorrido à violência apenas em último recurso para por fim a cenários mais atribulados. “No dia 3, perto do hostel onde me encontrava, [os serviços públicos de recolha de lixo] estavam a tentar retirar os gradeamentos que bloqueavam uma das ruas. Os manifestantes opuseram-se e a polícia foi obrigada a usar a força e a empurrar quem pretendia bloquear a circulação do camião de recolha, derrubando algumas pessoas violentamente”, contou Tiago Serrano, garantindo que, fora estas situações pontuais, não viu membros das autoridades activamente envolvidos nos protestos.

Sobre aquilo que retirou da sua experiência em Hong Kong e do seu contacto com os manifestantes, Tiago deixa um comentário e um apelo:
Mais de metade do que se está a passar e a viver em Hong Kong não é retratado nos media. Parece que não é dado o devido valor aos manifestantes que, na maioria, são estudantes a lutar pelos seus direitos. Pintam o cenário como se fosse ou muito violento ou como se de um ambiente festivo se tratasse. No final não é disto que se trata, mas sim de uma nova forma de protesto como nunca se viu antes: demonstrações de humanidade e compaixão numa envolvente harmoniosa, cívica e altruísta: um por todos, todos por um! É um momento histórico, visto que é um povo que luta pela sua total democracia, vivendo numa ditadura liberalizada traçada por um contrato de capitalismo elaborado pela República Popular da China.

hongkongserrano_29

O estudante diz que por lá se vive “essencialmente, um clima de paz e união, demonstrando [os manifestantes] sempre o amor à sua pátria, activismo social e político fazendo sempre apelo aos turistas para que espalhem a mensagem pelo mundo”.

Na China continental existe uma das máquinas de censura mais eficazes, empregando milhares de funcionários cuja única função é ler e assinalar centenas de jornais e blogs por dia. Apesar da posição privilegiada de Hong Kong face a outras regiões do país, graças ao bloqueio de milhares de sites na Internet, como o Facebook, o Twitter ou o Instagram, e à pressão que o Partido Comunista Chinês exerce sobre os agentes noticiosos locais, muita informação sobre os protestos não chega à China continental, deixando milhões de habitantes na ignorância sobre o assunto.

Mesmo não se verificando este nível de censura na ex-colónia britânica, há quem tema que a sua participação nas manifestações venha a afectar negativamente a sua vida profissional. “No momento em que estava a dialogar com ele [um dos manifestantes] sobre os objectivos pró-democráticos [este] viu que tinha aparecido na página do facebook da BBC News numa foto na frente de protesto em Mong Kok e mostrou preocupação pela possibilidade de o patrão ter visto a notícia”, contou o jovem português em intercâmbio em Macau ao Shifter.

Apesar deste receio Tiago Serrano diz que as pessoas que abordou mostraram sempre vontade em falar e partilhar as suas experiências sobre a luta pró-democrática que visa contrariar a decisão de Pequim, que planeia escolher os candidatos a chefe do Executivo local para as eleições de 2017: “Fui recebido da melhor forma possível, nem eu estava à espera de tanta simpatia e à vontade por parte dos Hong Kongers, tanto os que me atendiam como os que se encontravam em protesto”.