Ello: o cantinho trendy da Internet


O Ello parece mais uma plataforma comunitária. Não é, nem parece querer ser, uma rede social. Nunca terá a dimensão do Facebook pelo tipo de interação que pressupõe. O Ello abandona o Like positivista mas permite aos utilizadores ter uma ideia da sua “visibilidade”. Não tem pesquisa de perfis, nem mensagens privadas; sabe a pouco, tendo em conta a forma como nos habituámos a interagir online.

Há quem rotule o Ello de “a rede social anti-Facebook”. Mas o Ello tem outras ambições. “Não queremos ser os maiores”, referiu o fundador, Paul Budnitz, ao Business Insider. Actualmente acessível apenas por convite, esta “rede social” está a receber 40 mil novos utilizadores por hora. Na quarta-feira da semana passada, esta taxa era muito menor: apenas 4 mil por hora.

ello_logo

O Ello diz-se independente e livre de anúncios, agora e para sempre. Foi criada por uma equipa de sete pessoas, liderada por Paul Budnitz; e chegou na semana passada em versão beta. Apresenta-se com um simples smile a preto e branco, uma interface limpa e uma tipografia que faz lembrar a de uma máquina de escrever.

Esta rede comunitária – como preferimos chamar-lhe – não é nova. Já existe desde Abril deste ano, usado por um grupo de 100 pessoas (maioritariamente artistas e designers), todas amigas de Paul Budnitz. A plataforma começou a abrir-se ao público em Maio, à base de convites, mas só agora se tornou viral, na sequência de um artigo do jornal Daily Dot.

Uma promessa: zero anúncios

“A tua rede social pertence aos anunciantes”, grita a equipa do Ello num manifesto que escreveu e publicou no site, em jeito de carta de apresentação. Referindo-se claramente ao Facebook, o Ello não vende anúncios, nem dados dos utilizadores a terceiros, por considerar que fazê-lo não só é assustador, como demonstra falta de ética. Os criadores do Ello acreditam que existe uma melhor solução que a de tratar o utilizador como um “produto que é comprado e vendido”. “Acreditamos que uma rede social pode ser uma ferramenta para dar poder. Não uma ferramenta para enganar, coagir e manipular — mas um lugar para nos ligarmos, criarmos e celebrar a vida. Tu não és um produto”, conclui o manifesto.

ello_manifesto

Mas em torno deste manifesto vive uma polémica. Tudo porque o Ello beneficiou de um investimento da empresa de venture capital FreshTracks de cerca de 435 mil dólares. Aconselhamos a leitura deste artigo: http://aralbalkan.com/notes/ello-goodbye/.

Sentimos-nos sentados na mesa do canto de um café trendy

O Ello confunde-se facilmente com uma rede social, em parte, inspirada no Twitter ou, quiçá, no Tumblr. Os perfis são simples: uma descrição pequena, um espaço para deixar um ou dois links, uma foto de perfil e uma foto de capa. Esta descomplexificação dos perfis pessoais faz com que as nossas impressões sobre outros utilizadores sejam dadas pelas suas partilha. Não havendo a hipótese de pesquisa de utilizadores, as interações exigem até uma maior “coincidência temporal” no Ello.

ello_screenprofile

Há uma espécie de News Feed, onde estão cronologicamente todos os posts (textos, imagens, GIFs, links…) dos utilizadores que seguimos, organizados em dois filtros – Friends e Noise – que reflectem a forma como socialmente organizamos quem conhecemos. De facto, é uma necessidade intrínseca nossa, enquanto seres humano classificar coisas e pessoas; e não gostamos de criar muitas categorias. Nesse sentido, agrupamos as pessoas com as quais nos relacionamos em dois grandes grupos: aquelas de que gostamos (amigos próximos, familiares e figuras que admiramos) e as outras (os Friends e o Noise).

ello_screenfeed

O Ello abandona as interações positivas (likes, loves, +1) e quase que desafia os utilizadores a um nível de relação superior através dos comentários. Outra diferença é que no Ello o utilizador tem noção da sua audiência, uma métrica simples mas que permite à interação-Ello ser mais próxima das do mundo físico. Se não vejamos: quando falamos temos noção de quem nos está a ouvir: vemos a reação dessas pessoas, elas podem ou não responder-nos. Continua a faltar uma dimensão: a meta-comunicação mas é muito difícil de representar no online (ou, talvez, seja fácil, mas ainda ninguém descobriu o caminho).

ello_screenpost

Tudo sumado, o Ello é uma rede comunitária destinada a um único tipo de acção, para diálogos públicos e complexos (comentário em vez de like). Este tipo de modelo pode ser útil no controlo das partilhas irrelevantes, dado que a eliminação do facilitismo do like leva os utilizadores a partilhar apenas conteúdo diferenciado.

O Ello é um café trendy onde só entras por convite e de vez em quando mandas uns bitaites a ver se alguém te responde. Em traços largos, é isto que sentimos.

Ello, o anti-Facebook?

O Facebook é um “tubarão” que continuará a existir enquanto existirem utilizadores e anunciantes para o alimentarem. É uma plataforma extremamente comercial, que não explora a ideia de comunidade como o Ello ou outras “novas” abordagens (Mubi, Goodreads, Pinterest…) procuram explorar.

É cedo para traçar o destino do Ello. Tanto pode ser algo de que não ouviremos falar daqui a 3 meses, como se pode transformar na “próxima grande cena”.

O Ello tenderá a ser sempre uma plataforma de relação complementar a um Facebook. E ainda bem. Não tem chat, nem tão pouco mensagens privadas. Pelo menos, para já. Os criadores querem implementar um sistema de mensagens privadas, bem como um hub para notificações, integração com Soundcloud, YouTube e Vimeo para partilha de audio e vídeo em posts, uma espécie de botão retweet e ainda apps iOS e Android.

A lógica é termos uma rede social (sociedade online) e várias comunidades divididas por interesses (redes comunitárias temáticas). A parte engraçada do Ello é que não é temática, na prática é só um espaço na internet de conversa.

(João Ribeiro contribuiu neste artigo.)