Facebook e Apple cobrem custos de criopreservação de ovócitos dos seus funcionários


Para muitas mulheres, investir numa carreira em que se sintam realizadas e ter filhos saudáveis e educados são dois cenários totalmente incompatíveis. Seja pelos seus horários de trabalho inflexíveis, seja pelo stress associado às suas profissões, há quem se veja na posição complicada de ter de sacrificar o desejo pelo sucesso profissional pelo desejo de ter filhos. Ou vice-versa.

Em Silicon Valley, as gigantes de tecnologia Apple e Facebook estão a oferecer às suas empregadas a possibilidade de congelar os seus óvulos de forma a, se quiserem, puderem dedicar-se ao trabalho durante o seu período mais fértil – entre os 20 e os 35 anos – sem ter de sentir o relógio biológico a pesar como uma bomba relógio.

O Facebook e a Apple vão cobrir os custos do processo de preservação de ovócitos até 20 mil dólares (perto de 15,7 mil euros) por funcionário – as esposas estão também abrangidas –, juntando-se esta medida a uma extensa lista de benefícios que as empresas já oferecem nas áreas de saúde e assistência às famílias. Por exemplo, além de generosos seguros de saúde e de vida que cobrem os conjugues e os filhos dos empregados, o Facebook dá 4 mil dólares – que podem ser gastos livremente – quando alguns funcionários têm um bebé e a Apple disponibiliza serviços de limpeza para aliviar a carga doméstica das famílias. As duas multinacionais prestam ainda assistência com os custos dos serviços de barrigas de aluguer e de adopção.

Esta nova política já está em vigor no Facebook e estará disponível na Apple a partir de 2015, segundo um artigo da NBC, e visa diversificar a força de trabalho de ambas as marcas, atraindo e mantendo mais mulheres: em Silicon Valley mais de 70% dos funcionários são homens caucasianos.

Este será um passo vantajoso para muitas mulheres com ambições profissionais e que desejam alargar o período em que podem ser mães sem ter de passar por grandes encargos financeiros. Nos Estados Unidos, os custos de criopreservação de ovócitos chegam a ultrapassar os 10 mil dólares (mais de 7 mil euros) por ciclo, além dos 500 dólares (quase 400 euros) anuais que devem ser pagos para a manutenção das células congeladas.

Mas com esta nova regalia levantam-se também novas preocupações. Todos os benefícios, desde os apoios para recorrer a serviços de barrigas de aluguer ou de adopção até ao congelamento de gâmetas femininos para que as mulheres possam adiar uma gravidez, parecem conduzir as funcionárias destas empresas a recorrer a alternativas a engravidar. Claro que nenhuma mulher é obrigada a usufruir dessas regalias, que serão certamente muito apreciadas por funcionários inférteis ou por mulheres que ainda não se sentem prontas para ter filhos. Mas associando isto a todos os outros benefícios que muitas multinacionais de Silicon Valley oferecem como os centros de fitness e de lazer no emprego, e o acesso a refeições gratuitas e serviços de lavandaria 24 horas por dia, parece que estas grandes empresas estão cada vez mais a encorajar os seus funcionários a centralizar todos os aspectos das suas vidas no trabalho.

Existe também o problema de o processo de criopreservação não ter sido ainda suficientemente desenvolvido para garantir ovócitos viáveis após o descongelamento. Segundo a Associação Portuguesa de Fertilidade entre 50% a 70% das células congeladas sobrevivem – a taxa de sucesso aumenta consideravelmente em células fecundadas – e de acordo com o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida a técnica de criopreservação é ainda considerada “extremamente experimental” e “não garante a obtenção de uma gravidez; apenas garante uma reserva de células reprodutoras femininas que poderão vir a ser utilizadas no futuro […]. Actualmente, a taxa de gravidez resultante da Fertilização In Vitro (FIV) ou da Microinjecção Intracitoplasmática de com ovócitos criopreservados é significativamente baixa”.

Mesmo assim, para muitas mulheres a possibilidade de vir a ter filhos mais tarde já é suficientemente reconfortante. Segundo um estudo conduzido nos Estados Unidos entre 2005 e 2011, e publicado no ano passado pelo Fertility Sterility, a maioria das pacientes que se submete ao processo de criopreservação de ovócitos diz sentir-se “com mais poder”, Das mulheres que respoderam ao questionário, 93% não voltou às clinicas para ir buscar os seus óvulos, até à data da publicação. Vários especialistas em fertilidade dizem que um número elevado de pacientes acaba por engravidar naturalmente ou decide seguir por um outro caminho, não regressando às clinicas. A Dra. Lynn Westphal, do Centro Médico da Universidade de Stanford, compara este tipo de criopreservação com um seguro automóvel, de acordo com a NBC: “Esperamos não ter de accioná-lo, mas se nos encontrarmos numa situação em que precisemos dele, ficaremos contentes por ter essa protecção”. A médica de Ginecologia e Obstetrícia diz que os benefícios culturais e emocionais do desenvolvimento destas técnicas poderão “ajudar as mulheres a tornar-se seres humanos mais produtivos”.

Em Portugal, medidas semelhantes não seriam viáveis em grandes empresas, pelo menos não enquanto a lei n.º 32/2006, sobre a procriação medicamente assistida (PMA), se mantiver inalterada. De acordo com o Artigo 6.º “Só as pessoas casadas que não se encontrem separadas judicialmente de pessoas e bens ou as separadas de facto ou as que, sendo de sexos diferentes, vivam em situações análogas às dos cônjugues há pelo menos dois anos podem recorrer às técnicas de PMA”. Seria muito complicado para uma empresa a operar em Portugal arranjar uma forma de oferecer o mesmo tipo de regalias que as gigantes norte-americana sem ir contra a lei portuguesa ou sem, por exemplo, discriminar funcionárias sem parceiro.

Felizmente, no nosso país os custos associados a estas técnicas são muito menos elevados, embora o acesso a estas seja menos liberalizado, do que nos Estados Unidos: de acordo com a Associação Portuguesa de Fertilidade os custos de criopreservação de células sexuais poderá ir dos 250 aos 600 euros, dependendo de o processo realizar-se numa clínica pública ou privada, e ao valor acresce um custo de manutenção de 600 euros, pagos a cada três anos. No site da associação poderá encontrar uma lista com todas as clínicas públicas e privadas que disponibilizam serviços de procriação medicamente assistida no nosso país.