James Marcus Haney entrou em 50 festivais sem pagar e fez um documentário


 
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O fotógrafo “predilecto” dos Mumford & Sons ou simplesmente o “penetra”, são alguns dos nomes já atribuídos a James Marcus Haney.

Aos 26 anos, James nunca pagou para entrar num festival – apesar de já ter estado em 50 –, e provavelmente nunca precisará de o fazer. O jovem norte-americano orgulha-se de poder contar a sua história, composta por falsificações de credenciais e bilhetes, invasão de espaços privados, entre outros delitos, em forma de um documentário.

Em No Cameras Allowed a missão de Marcus Haney é feita com um objectivo implícito: fotografar e filmar os seus ídolos enquanto se diverte “ilegalmente”.

“Fui tentando a minha sorte… Os backstages são sempre escuros. Há imensas maneiras de subir ao palco. E uma vez lá.. Já ninguém te pára.”

Assim começou a nossa conversa com James, no auditório do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), numa sessão TalkFest.

O filme retrata quatro anos da sua vida. Quatro anos em que desafiou todas as barreiras de segurança de mais de 50 festivais de música, entre eles os míticos Glastonbury em Inglaterra e Coachella nos EUA. Marcus garante que o filme é real, que a história não omite qualquer pormenor. “E que quem duvide.. Que veja o filme.”

No passes. No permission. No problem.

Se tiveres oportunidade de ver o documentário No Cameras Allowed, vais perceber como é que este nómada e praticante de couchsurfing entrou à socapa em festivais como o Coachella, o Bonaroo, o Glastonbury ou o Ultra.

Tudo começou em 2010 quando ainda estudava Produção Cinematográfica na Universidade do Sul da Califórnia (USC). O festival Coachella ia acontecer ali perto, em Indio, e a rapariga de quem gostava ia lá estar. Como qualquer estudante universitário, Haney estava falido, mas como qualquer estudante universitário, a sua cabecinha começou logo a pensar em soluções ou, pelo menos, em formas de contornar o problema.

Ele e um amigo conheceram um rapaz através do Craigslist chamado Acid Chris (Chris Ácido), que os ajudou a encher o depósito do carro, e partiram para o Coachella de madrugada. Ao chegar, treparam uma vedação e, como o festival só abria portas ao meio dia, dormiram debaixo de roulottes e casas de banho portáteis.

A experiência de dormir debaixo de um sítio inóspito não o desencorajou. Aliás, foi nessa altura que se convenceu que teria de o fazer mais vezes.

Depois do Coachella publicou as fotografias no Facebook e um amigo que estava a estagiar no festival Bonnaroo, em Manchester, viu-as e acabou por lhe pedir autorização para utilizar a imagem do cantor Jay-Z na promoção do festival.

Um documentário para os amantes de música

“4 câmaras ao peito: uma analógica só para fotografias. Outras 2 digitais para filmar e fotografar. Uma super 8, muito antiga do meu avô. Cheguei mesmo a mudar rolos atrás do palco completamente apressado”. Assim se entra na press de alguns dos festivais mais desejados do planeta.

Marcus usava ainda pulseiras falsas, e um tom descontraído que nunca levantou suspeitas. Ou pelo menos quase nunca. Foi apanhado e expulso de alguns festivais mas até isso acontecer já podia contar aos amigos as inúmeras presenças em palco. “Arcade Fire em 3 países diferentes. Chegaram a olhar para mim no palco e a dizerem: ‘Hey! Tu não és aquele miúdo do outro festival?’”

Mais que “alcançáveis”, estes festivais passaram a ser seus clientes.

Do ilegal ao sonho concretizado

Com o excelente feedback que as suas fotografias tinham online e nos amigos, James Marcus Haney decidiu montar uma pequena curta-metragem sobre como conseguiu entrar sem pagar no Coachella e no Bonnaroo. Imagens bonitas e marcantes que chegaram às mãos dos ingleses Mumford & Sons, que passaram para as do manager, que por sua vez mostrou o documentário à banda de indie folk americana Edward Sharpe and the Magnetic Zeros e, numa reviravolta que faz lembrar o filme Almost Famous, convidaram-no para os acompanhar na tour. Hoje em dia é o fotógrafo oficial da banda inglesa de folk rock. Como recompensa, recebeu um convite da banda para os acompanhar até Glastonbury e em digressões posteriores.

No entanto, o dilema pessoal e escolar de Marcus cruzou-se no caminho. Acabar a licenciatura ou aproveitar uma experiência única e remunerada num mundo que também era o seu?

A resposta foi fácil.

Com estas últimas filmagens, No Cameras Allowed começa a tomar um rumo certo. O rumo de que tem de ser exibido. É filmado maioritariamente por Marcus e editado posteriormente com a ajuda da escola. Conseguiu editor, produtor e contratou uma empresa para o som: mistura, sincronismo e masterização tinham de ser feitas com qualidade. Obteve ajuda no que diz respeito aos copyrights e licenças das músicas e mais tarde, à procura de distribuidor, surgiu a MTV.

“A MTV não teve nada a ver com a produção e edição do filme”, realça o realizador.

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O AFTER: “Ok, não o faças outra vez… Se queres entrar, não entres ilegalmente. Nós damos-te os bilhetes!”

A parte mais curiosa desta “história” é que James Marcus afirma que não teve qualquer problema jurídico ou policial em revelar todas as suas experiências.

“A maioria dos festivais foram muitos simpáticos porque o filme mostra a parte em que eu entro sem qualquer segurança mas também mostra várias imagens em que sou apanhado e expulso do festival. O facto do documentário mostrar ambos os lados foi visto como um ponto benéfico. As próprias bandas apoiaram-me! Houve apenas um festival que me pediu para retirar as imagens. Mas eu mantive-as.

A entrevista terminou com uma conversa sobre o que fazer em Lisboa à noite depois da sessão do Talkfest.

“Já estive no Bairro Alto com os Mumford&Sons há cerca de dois anos atrás. Adorei. Adoro Lisboa! Hoje quero um ‘shitty bar com música divertida.

Aconselhámos alguns lugares e bares conhecidos.

(Daqueles que não se pagam à entrada).

Maria Carlota Cabral contribuiu neste artigo

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