“No one does Lou Reed better than Lou Reed”


Faz hoje um ano que Lewis Allan Reed morreu.

Dito desta forma, não me referindo ao músico pelo seu nome de artista, talvez seja mais fácil de dizer que Lou Reed já não está entre nós. A verdade é que o tempo passou rápido desde que Lou morreu, mas deu para reflectir sobre quem era e sobre o que deixou para trás.

Sempre achei um pouco exagerada a reacção que algumas pessoas têm perante a morte de uma celebridade, seja um actor, um pintor ou um músico. São pessoas tão distantes de mim, tanto geograficamente como temporalmente, que quase nem as consigo conceber como iguais, penso nelas quase como um mito. No entanto, quando li a notícia de que Lou Reed tinha morrido, não consegui deixar de sentir uma certa tristeza. Passei o resto do dia a vasculhar pelo catálogo dos Velvet e pelos álbuns a solo de Lou, e a observar a reacção das pessoas à notícia pelo mundo fora.

Este primeiro aniversário da morte de Lou Reed é uma boa oportunidade para considerar a importância deste ícone na música e na cultura. Lou Reed uma vez disse, em resposta ao seu agente que o avisou de que uma nova geração de rockers estava a apoderar-se do seu estilo, “no one does Lou Reed better than Lou Reed”, e talvez essa seja a maneira mais fácil de descrevê-lo: Lou Reed era Lou Reed.

Para aqueles que (vergonhosamente) não sabem, Lou Reed foi um dos membros fundadores dos The Velvet Underground, um grupo de rock alternativo dos anos 60 e início dos 70 que moldou por completo o tipo de música que viria a ser feito daí por diante. Os Velvet apareceram em Nova Iorque com um tipo de rock visceral, pesado e determinado que retratava drogas, sexo, miséria, fetiches, doenças, a vida nas ruas e o dia-a-dia dos pobres e dos ricos. Eram capazes de ser obscenos e maciços (qualquer pessoa que já tenha ouvido “Sister Ray” ou “Heroin” sabe do que estou a falar), mas também eram capazes de ser incrivelmente doces e recatados como em “Sunday Morning” e “Pale Blue Eyes”. A maneira como Lou Reed era capaz de observar o que se passava à sua volta na altura e transpor isso para a sua música é uma das razões pela qual o álbum de estreia The Velvet Underground & Nico é considerado um dos melhores álbums de sempre, e Lou conservou essa capacidade de observação quase jornalística durante o resto da sua vida. Citando Brian Eno, “O primeiro álbum deles teve uma tiragem muito fraca de apenas 30.000 cópias; no entanto, todas as pessoas que o compraram começaram uma banda”. Porém, a maior prova da influência deste álbum, dos Velvet e de Lou Reed é o facto de Václav Havel ter afirmado que este álbum inspirou-o a tornar-se Presidente da antiga Checoslováquia.

E porque é que eu uso a palavra “vergonhosamente”? Porque não saber quem Lewis Allan Reed era e o legado musical que deixou é uma lacuna colossal, não apenas para os melómanos, mas para qualquer pessoa que se considere informada.

Se não tivéssemos o Lou, não teríamos os Velvet; se não tivéssemos os Velvet, não teríamos o proto-punk; Se não tivéssemos o proto-punk, não teríamos nem o punk nem o post-punk; se não tivéssemos estes dois estilos musicais, não teríamos o rock alternativo como hoje o conhecemos e, sem este, não teríamos o rock indie. Esta é a pegada que Lou Reed deixou na história da música.

E é fácil observar a influência dele: bandas como os The Strokes ou Pavement foram claramente buscar inspiração à sua música e às suas letras, e estas duas bandas foram elas próprias extremamente influentes e inspiraram outras bandas, embora talvez estas não saibam hoje quem foi a musa original.

Gostava de terminar com algumas recomendações da obra de Lou, mas relativamente à discografia dos Velvet não consigo escolher só um álbum, todo o catálogo deles é essencial, cada álbum tem a sua sonoridade própria e cada álbum esteve na génese de um estilo musical diferente. Quanto à obra a solo de Lou Reed, eis as minhas menções de honra: Transformer, Berlin, Coney Island Baby, The Blue Mask, New York.

E deixo aqui também o instrumental “Ride Into The Sun”, a minha música favorita do Lou, gravada em Setembro de 1969 com os Velvet.