‘Boyhood’


Dos 5 aos 18 a meio gás

Boyhood marca indiscutivelmente a história do cinema ao inovar na forma- a sua rodagem demorou 12 anos, aproveitando-se das mudanças físicas do elenco ao longo do tempo para retratar o crescimento de um jovem americano- perdendo-se, no entanto, pelo conteúdo. “Momentos de Uma Vida” não é um flop, mas anda lá perto.

Richard Linklater tinha quase todos os ingredientes para tornar Boyhood num dos filmes de 2014, mas ficou pela boa intenção, abrindo assim portas à consagração de Fincher e Nolan, com os sucessos de Gone Girl e Interstellar, respetivamente.

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Quando uma obra demora mais de uma década a chegar ao seu público, é bom que surpreenda, justificando o pedestal em que é colocada de antemão. Aqui, o filme passa do pedestal ao chão em 3 horas de clichés (desde a filha de pais ultracatólicos e conservadores que se casa com o apoiante de Obama até à ex-mulher que não consegue assentar e acaba sozinha, sem companheiro ou filhos) que esgotam a paciência e boa vontade de qualquer um. Não são precisos 12 anos para se fazer uma pasmaceira amorosa de domingo à tarde; está cientificamente provado, embora alguém ainda se tenha lembrado de o fazer.

Mas o que mais preocupa são as pontas soltas. Numa sociedade que tanto- e ao mesmo tempo tão pouco- evoluiu nos últimos 18 anos, parece incompreensível que apenas os iDevices lançados nesse período de tempo simbolizem a mudança de mentalidade e padrões culturais dos americanos. É claro que há breves referências aos ataques de 11 de Setembro e até ao escândalo da NSA, mas não passam de breves apontamentos que podiam ter sido melhor enquadrados em função da narrativa. Também a banda sonora, que vai de “Yellow” dos Coldplay a “Deep Blue” dos Arcade Fire, podia deixar alguma marca que fosse, mas surge tão morna quanto o próprio enredo.

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Há, no entanto, rasgos de lucidez em Linklater que não deixam Boyhood cair em piores trabalhos. Valeu sobretudo ao realizador a intenção de enfatizar os anos de adolescência, enevoando algum do passado distante. Geralmente, onde as memórias de criança parecem apagadas pela inocência, as de jovem adulto marcam sem precedentes, graças à anarquia e disrupção que pairam nas mentes pueris e livres. E isso aqui é claro como a água.

Uma última nota positiva fica ainda para Ellar Coltrane. Um ator que consegue alimentar uma personagem principal, mantendo um nível sólido de representação desde os 5 até aos 18 anos, merece o devido crédito, mesmo que o resultado final da obra em que participa não seja tão positivo quanto o previsto. O próprio Ethan Hawke, que é aqui relegado para segundo plano, fica alguns furos abaixo não só do que se esperava, mas do que sabemos que consegue fazer. Certo é que não conseguimos desligar nem Hawke nem o realizador da sua trilogia anterior (Before Sunrise, Before Sunset e Before Midnight), em que ambos desempenham as suas funções de forma magistral, mas questionamo-nos se seria assim tão difícil repetir o feito, já que no passado o conteúdo e forma pareciam andar de mãos dadas, sem vontade de se separarem.

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