Modern Baseball – ‘You’re Gonna Miss It All’


 
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Entremos todos aqui no meu círculo de confiança, pode ser? É que estamos prestes a molhar o pé num dos maiores tabus da década passada. Pois bem, vamos falar de Emo… Calma, calma, calma! Guardem as vossas cruzes que “este Emo” de que vos quero falar pouco tem a ver com o demónio que surgiu no virar do milénio. É que este estilo musical já existia muito antes de ser completamente distorcido pelas bandas de pop punk medíocres do fim dos anos 90. E digo-vos mais. Antes dessa altura, o Emo era respeitado e acarinhado pelos amantes da música underground (graças a bandas como Rites of Spring, Cap n’ Jazz e Sunny Day Real Estate). E porquê esta lição de história? Bem, porque acontece que nos últimos 3 anos esse tipo de Emo tem vindo a ressurgir em grande, um pouco por todo o mundo, mas especialmente por terras norte americanas.

E é para lá que vamos, em específico para a cidade de Filadélfia, situada no estado de Pensilvania. Lá encontramos uma jovem banda formada por quatro rapazes com o aspecto menos rockstar possível. Apesar disso estes rapazes já lançaram 2 álbuns, sendo o último de Outubro do ano passado.

Chamam-se Modern Baseball e o nome do álbum é You’re Gonna Miss It All, um nome que nos consegue, desde logo, dar a conhecer toda a grande temática encapsulada nas músicas deste grupo: a nostalgia da adolescência.

Em termos sonoros, podemos perceber um aumento significativo na qualidade de produção, quando comparado com o som lo-fi do primeiro trabalho. No entanto, apesar do aumento de qualidade, a assinatura sónica da banda continua bem presente, com as guitarras distintamente pouco distorcidas, a bateria corpulenta e energética e o baixo pulsante. De notar também que, embora pertençam a esta nova onda Emo, existe uma grande influência de música folk/folk punk nos principais compositores do grupo, Brendan Lukens e Jake Wall. É difícil não imaginar que o berço da maioria destas canções partiu de uma letra e uma guitarra acústica.

O álbum abre com “Fine, Great” uma música pop-punk sobre a falta de vontade de Lukens em lidar com os seus problemas, através da atenção e entusiasmo que gosta de dar aos problemas dos outros. A música arranca uma melodia extremamente catchy, mas a sua duração é curta e o final um pouco repentino. A boa notícia é que “Fine, Great” flui bastante bem para “Broken Cash Machine”, que é provavelmente uma das melhores músicas do álbum e certamente a que terá o refrão mais rapidamente colado à cabeça dos ouvintes. O seu instrumental é simples, deixando espaço para o carácter directo mas extremamente detalhado da letra brilhar.

As músicas que se seguem – “Rock Bottom”, “Apartment” e “The Old Gospel Choir” – mantêm a energia das anteriores, mas apostam em estruturas menos óbvias, através de introduções calmas sucedidas de mudanças mais ou menos repentinas para tempos mais rápidos. A letra continua a ser o elemento com mais relevo, contudo as variações de estrutura revelam uma capacidade de composição mais complexa do que se adivinhava à primeira vista. Chegando a meio do álbum, chegamos também à música mais calma e, infelizmente, menos memorável do mesmo. Chama-se “Notes” e não passa de uma balada introspectiva que ambiciona um nível de emoção que a interpretação demasiado grave e monocórdica de Wall não permite atingir. Não é uma música má, mas descarta a apreciação festiva e imediata das anteriores por uma tentativa de complexidade poética pouco concretizada.

“Charlie Black” e “Timmy Bowers”, as músicas que se seguem, servem como duas faces da mesma moeda, contrastando as emoções mostradas com as emoções escondidas aquando do fim de uma relação amorosa. A primeira apresenta uma sonoridade pop-punk alegre, pontuada pelo verso “wait a minute, cause I’ve been living more like a fucking king without you” enquanto a segunda é uma balada com várias layers de instrumentos e coros em falsete a surgir enquanto o verso “wait a minute cause I’ve been living more like a piece of shit without you” revela os verdadeiros sentimentos de Brendan Lukens.

A música seguinte é “Going to Be Now”, uma canção quase country sobre o bicho papão que são os “haters” e soa tão divertida e hilariante quanto podem imaginar. Depois desta, temos a música mais simples e directa do álbum, “Your Graduation”, que embora não seja má, é, infelizmente, a mais despida de toda a originalidade que os Modern Baseball nos têm apresentado até aqui. A banda ainda tenta variar a fórmula, metendo o baterista Sean Huber encarregue de metade dos versos, mas em vez de surpreender pela tentativa de acrescentar diversidade, surpreende pelo facto de, por momentos, esta música quase envocar A Day To Remember – e isso é mau. Felizmente, para contrabalançar, temos “Two Good Things”, que é o mais próximo que a banda esteve de soar a clássicos Emo como American Football ou The Promise Ring – o que é bom – ainda que mantendo a sua identidade.

E por fim temos, agora sim, uma balada excelente com o nome de “Pothole”, onde apenas Wall e a sua guitarra revelam a necessidade de viajar a tocar música, por mais dura que essa vida seja para uma banda com o tamanho dos Modern Baseball.

No geral, You’re Gonna Miss It All balança muito bem o carácter divertido e festivo das bandas pop punk do início dos anos 90, com a introspecção e emoção das bandas indie/emo do final dessa década. No seu pior é audível, no seu melhor é memorável e viciante.

Quanto à banda em si, a sua principal vantagem é ser tão fácil de digerir que se torna acessível a fans tanto de pop-punk, como de emo, indie rock ou até mesmo do folk punk nova-iorquino que tem vindo a crescer desde meados da década passada (falo de Taxpayers, Andrew Jackson Jihad, etc.). Contudo, é especialmente aconselhável a quem estiver interessado em desafiar eventuais estereótipos que tenha em relação ao Emo. Pode ser que fiquem surpreendidos.

Texto de André Isidro

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