O chocolate está a acabar? Como e porquê


 
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Parece que é mesmo verdade. Estamos a comer demasiado chocolate. Ou pelo menos, mais do que aquilo que estamos a produzir. Só este ano, estima-se que o mundo consuma cerca de 70 mil toneladas a mais do que aquilo que produz. O excesso de consumo de chocolate tem vindo a crescer substancialmente nos últimos anos, o que já levou os produtores a afirmar que estamos perante os níveis de défice de cacau mais graves dos últimos 50 anos. O défice já agora é preocupante, mas pode chegar a valores ainda mais altos. Os dois maiores produtores de chocolate do mundo, a Mars Inc. e a Barry Callebaut, estimam que em 2020 o défice poderá chegar até um milhão de toneladas, e que este valor irá duplicar até 2030.

Esta crise de chocolate com que agora nos vemos a braços deve-se a um conjunto de fatores observáveis quer do lado da oferta, que enfrenta diversas dificuldades em particular na produção de cacau, quer do lado da procura, onde se realça o aumento considerável de consumo de chocolate na Ásia e em países emergentes. E ainda que o contexto atual não seja propriamente animador para os mais ávidos devoradores de chocolate, a situação não é tão grave como aparenta – há esperança. Por isso, e antes de anunciarmos prematuramente a trágica morte do chocolate como hoje o conhecemos, olhemos à questão em pormenor.

Porquê?

O mercado do cacau, matéria-prima do chocolate, está em desequilíbrio essencialmente devido a um simples problema – os produtores não têm como produzir chocolate suficiente para satisfazer a sua elevadíssima procura. O cultivo de cacau implica tantos obstáculos e adversidades que muitos agricultores simplesmente passam a escolher cultivos mais rentáveis como o milho ou a borracha natural.

O cacau é um fruto de longo cultivo e complexo apuramento. A título de exemplo, enquanto a um agricultor de milho lhe é possível cultivar três gerações de milho num só ano, a planta do cacau, por seu turno, só dá fruto pelo menos dois anos após ter sido plantada e só revela qualidades merecedoras de serem perpetuadas, como a resistência a algumas doenças, após um período de 10 anos.

Doenças, outro pesadelo para os produtores de cacau. Em especial a Frosty Pod e a Whitches’ Broom, dois tipos de doenças geradas por fungos capazes de arruinar colheitas a fio. A Organização Internacional do Cacau estima que estas e outras doenças que afetam o cacaueiro são responsáveis pela destruição de entre 30% a 40% da produção global de cacau. Ainda no departamento das doenças, o grave surto de ébola que assola neste o continente africano também causa, inúmeros obstáculos a toda a produção agrícola das regiões afectadas. Pois bem, o cacau não é excepção. A Costa do Marfim, país responsável por cerca de 53% da produção mundial de cacau em conjunto com o Gana, fechou as fronteiras com a Libéria e a Guiné no seguimento do surto de ébola experienciado por estes países. O fecho das fronteiras e o constante medo de que o vírus se alastre dificultam em muito o trabalho dos produtores de cacau. As condições climatéricas são também um factor de relevo neste imbróglio, uma vez que a África Ocidental enfrenta uma longa e severa seca que, como seria de esperar, terá um impacto directo na produção de cacau.

Por fim, vamos até ao lado da procura, onde o destaque recai invariavelmente sobre a China. O apetite dos chineses por chocolate tem crescido exponencialmente nos últimos anos, sendo uma peça chave numa balança comercial já em desequilíbrio. Segundo a Organização Internacional do Cacau, os chineses quase duplicaram o seu consumo de cacau em apenas 4 anos, de 40 mil toneladas em 2010 para as 70 mil toneladas previstas para este ano. A Hershey Co. vai mais longe ao prever que em 2017 a China será o seu segundo maior mercado, logo a seguir aos Estados Unidos da América.

Mas a China não está sozinha no rol de países que têm vindo a aumentar o seu consumo de chocolate. A India, por exemplo, consumia em 2010 algo como 25 mil toneladas de cacau, número que este ano se situará mais perto das 40 mil toneladas. Este aumento do consumo generalizado do cacau deve-se em grande parte ao alargamento da classe média de países com economias emergentes, como é exemplo o Brasil. O chocolate parece ser um afrodisíaco para os novos consumidores que, com maior poder de compra, fazem crescer cada vez mais o défice de cacau ao consumirem mais do que aquilo que o mundo está preparado para produzir.

E agora?

Quer tudo isto então dizer que o chocolate está mesmo em vias de extinção? Não, nada disso. O chocolate não vai acabar de um dia para o outro. Existem reservas de colheitas de cacau anteriores que podem colmatar o défice por alguns anos. No entanto, é mais do que provável que a conjuntura do chocolate sofra inúmeras alterações – consequência lógica de um mercado que procura reaver o seu equilíbrio.

Logo a abrir, o preço do cacau, e consequentemente do chocolate, de certeza que vai subir. De 1993 a 2007, o preço do cacau por tonelada rondava os 1170 euros mas nos seis anos que se seguiram a média de preço por tonelada foi de 2185 euros, quase o dobro. Diz a Bloomberg que os preços do cacau podem aumentar até 14% só no próximo ano. Nos primeiros tempos a diferença provavelmente passará despercebida, mas tudo aponta no mesmo sentido – o preço do chocolate tem vindo a aumentar vigorosamente, e vai continuar a fazê-lo.

Outra mais que provável consequência desta crise de défice de chocolate é um melhor aproveitamento/racionalização da matéria-prima disponível por parte das grandes companhias de chocolate. A ideia passa por reduzir as quantidades de cacau utilizadas na produção do chocolate ao adicionar outros ingredientes, como baunilha, gordura vegetal ou nozes.

Finalmente, chegamos à última fronteira – a do desenvolvimento tecnológico. Aumentar os preços e racionalizar a obra-prima são consequências de reacção à crise de défice. Para realmente enfrentar o problema a médio/longo prazo é necessário um salto nas técnicas agrícolas que criem condições para uma produção de cacau que consiga acompanhar minimamente o seu nível de consumo global. A resposta passa, assim, por desenvolver novas espécies de cacaueiro, altamente férteis e com forte resistência a fungos e doenças.

A CCN51 espécie criada no Equador, parecia promissora – resistente à doença whitches’ broom e capaz de produzir 7 vezes mais do que um cacaueiro normal. Qual o senão? O sabor, que é descrito por especialistas como amargo, de fraquíssima qualidade e até mesmo que relembra “lixo ácido”. O mesmo problema acontece com a espécie Mercedes, criada na Costa do Marfim – há potencial para quantidade, mas a qualidade, em particular o gosto, fica muito aquém daquilo a que a nossa aldeia global já se habituou.

Mas nem tudo está perdido. Criado no CATIE, um centro de investigação de agricultura tropical na Costa Rica, um novo conjunto de espécies mostrou excelentes indicadores ao nível da resistência, fertilidade e, surpresa, sabor. Chamam-se R-1, R-4 e R-6, e podem muito bem ser a grande esperança para dar a volta à espiral de défice em que o mercado do cacau está envolvido. Duas das novas espécies, a R-4 e a R-6 chegaram mesmo a vencer prémios internacionais numa competição da Organização Internacional do Cacau em 2009, tendo sido premiadas exactamente pelo seu sabor. Resta saber até que ponto é que a indústria do cacau pode apostar nestas espécies, e até que ponto a Costa do Marfim, maior produtor individual, está disposta a renovar tecnologicamente e aprender a dar devida importância ao sabor ao invés apenas da quantidade

Ainda que as notícias da morte do chocolate tenham sido manifestamente exageradas, o futuro do chocolate como o conhecemos pode estar dependente disto.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!