Stanley Kubrick esteve a um passo de realizar um filme sobre Portugal


Sim, é verdade. Stanley Kubrick esteve a um passo de realizar um filme sobre Portugal e as aventuras marítimas dos portugueses no Oriente. Conseguem imaginar um filme sobre uma Odisseia marítima? É um exercício complicado para um português, mas esta foi uma hipótese em cima da mesa.

Segundo nos conta Manoel de Oliveira numa das suas entrevistas no livro Conversas com Manoel de Oliveira de Antoine de Baecque e Jacques Parsi, a história apaixonante e polémica de Fernão Mendes Pinto intitulada Peregrinação daria um filme interminável com imensas batalhas e aventuras, e Kubrick esteve interessado nisso mesmo.

A obra de Fernão Mendes Pinto é como que o “lado B” dos descobrimentos marítimos, que retrata um sentimento oposto à obra de Luís de Camões, Os Lusíadas.

As duas obras foram escritas pela mesma altura: Os Lusíadas por volta de 1556 e Peregrinação entre 1570 e 1578. Esta última foi no entanto publicada apenas em 1614.

A obra poética de Camões é considerada a epopeia portuguesa por excelência, onde se enaltece o herói colectivo – o povo português. A obra de Fernão Mendes Pinto vive desde sempre em polémica, talvez porque o autor crítica as atitudes menos dignificantes dos portugueses pelo Oriente. Ao longo de 21 anos o escritor descreve as aventuras e desventuras, pormenorizadas, mostra o revés da expansão marítima portuguesa – tudo na primeira pessoa, assumindo-se assim como um anti-herói.

Peregrinação tornou-se o mais traduzido e famoso livro de viagens da literatura portuguesa, teve dezanove edições, em seis línguas. Talvez por este facto tenha chegado às mãos de Kubrick.

Segundo Manoel de Oliveira, na sua entrevista a Baecque e Jacques Parsi, surgiu mesmo o interesse do cineasta Frederico Fellini para fazer um filme inspirado na Obra de Fernão Mendes Pinto, abordando a chegada dos portugueses ao Japão, na descoberta de um mundo completamente desconhecido, com costumes e cultura bem diferentes.

Na opinião do realizador português, apesar da ausência feminina e desta ser uma característica tão presente na sua obra, em detrimento de Kubrick, Fellini seria o mais indicado para abordar o tema no sentido espectacular das aventuras marítimas.

Em Portugal Paulo Rocha também esteve na calha para realizar o filme. Se assim fosse, nunca teria sido um filme à imagem de Kubrick ou Fellini. Seria algo muito mais sóbrio, autêntico, sensível e sincero – referiu Manoel de Oliveira.

Por fim, e esta é a parte que todos nós sabemos sem o saber, o assunto acabou por cair no esquecimento, Kubrick informou-se sobre Fernão Mendes Pinto e a sua epopeia, junto de algumas pessoas em Portugal e abandonou o projecto. Paulo Rocha e Fellini nunca mais falaram do tema.

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