VP da Uber deu a entender que alguns jornalistas deveriam “provar do próprio veneno”


É costume dizer-se que “pela boca morre o peixe”, mas aparentemente essa não será uma expressão familiar para Emil Michael, um dos vice-presidentes da Uber, que viu alguns comentários muito infelizes, proferidos por si num jantar privado, tornarem-se públicos esta semana.

O jantar juntou várias figuras conhecidas e representantes da comunicação social – como o actor Ed Norton, Arianna Huffington, do Huffington Post, e pelo menos um dos editores do BuzzFeed – num restaurante em Nova Iorque na passada sexta-feira. Segundo o BuzzFeed, o executivo da Uber terá dado a entender que deveria ser feita uma aposta em investigadores para trazer a público informações pessoais sobre jornalistas que escrevessem peças “sensacionalistas” sobre a empresa: “Durante o jantar, [Michael] apresentou a noção de que gastaria ‘um milhão de dólares’ para contratar quatro investigadores de topo e quatro jornalistas. A equipa iria, segundo o próprio, ajudar a Uber a defender-se da imprensa – iriam vasculhar informações sobre ‘as vidas privadas, as famílias’ e dar aos media um gostinho do próprio veneno”, explica o jornalista do site.

Entretanto, um porta-voz da Uber já veio pedir desculpas pelo sucedido em nome de Emil Michael, que até ao ano passado trabalhava para a empresa Klout: “Os comentários a mim atribuídos num jantar privado – gerados devido a frustração durante um debate informal sobre aquilo que eu penso tratar-se de cobertura sensacionalista pela parte dos media da companhia para a qual tenho orgulho em trabalhar – não reflectem as minhas opiniões reais e não estão relacionados com os pontos de vista ou modos de actuar da empresa. Foi errado, independentemente das circunstâncias, e arrependo-me do que disse”.

Gerou-se uma onda de críticas negativas à empresa norte-americana no Twitter, chegando mesmo alguns investidores a demonstrar o seu descontentamento publicamente, resultando na publicação de tweets por Emil Micheal que se dirigiu directamente a Sarah Lacy, a quem os comentários durante o infame jantar se terão referido.

Sarah Lacy é a jornalista do Pando Daily que escreveu um extenso artigo de opinião no qual expunha a mensagem sexista por trás de um anúncio francês da Uber que prometia “associar” os passageiros a condutoras atraentes, apresentadas no anúncio como “hot chicks”: “ainda não consigo acreditar que uma empresa como a Uber – uma companhia avaliada em 18 mil milhões de dólares e tida em conta como um bastião de empreendedorismo moderno – tenha publicado um anúncio que encoraja […] o tratamento de mulheres que escolhem ser condutoras para ganhar algum dinheiro extra como se fossem prostitutas”, escreveu indignada a jornalista.

O vice-presidente terá dito ainda no mesmo jantar que Lacy deveria ser “pessoalmente responsabilizada” pelo ataque que qualquer mulher sofresse pela parte de um taxista por ter apagado a app e ter optado por chamar um táxi, de acordo com os relatos do BuzzFeed. O site Mashable acrescentou a informação de que, antes de ter feito um pedido de desculpas pelas palavras direccionadas a Lacy, Emil Michael terá contactado a jornalista por telefone e quando esta rejeitou manter o diálogo em privado, terá desligado. Em resposta aos recentes acontecimentos Sarah Lacy já escreveu um novo artigo onde acusa a Uber de querer silênciar os jornalistas.

O CEO Travis Kalanick expressou um enorme desagrado pela situação na sua conta do Twitter, mas, apesar das centenas de pedidos de utilizadores da app – alguns deles figuras públicas – pareceu afastar completamente a possibilidade de Emil Michael vir a ser despedido pelo sucedido:

A (Má) Fama da Uber

Nos últimos meses a Uber tem andado nas bocas do mundo pelas políticas de marketing e de eliminação de concorrência extremamente agressivas que tem posto em prática. Para além dos sindicatos de taxistas em várias partes do mundo que se queixam de concorrência desleal e do facto de os carros da companhia não cumprirem com as normas de segurança necessárias, a empresa Lyft, que oferece serviços muito semelhantes, terá sido alvo de uma manobra de Kalanick que lhes poderá ter custado alguns milhões de dólares numa ronda de angariação de fundos em Abril.

Numa entrevista para a Vanity Fair, Kalanick admitiu ter falado com os investidores da Lyft e ter-lhes dito que a Uber também iria recolher fundos brevemente e que estes deveriam escolher bem em quem iriam investir. A Lyft angariou 250 milhões de dólares e a Uber angariou, logo a seguir, mais de mil milhões.

Desde que a Uber iniciou a sua expansão, rapidamente ultrapassando as fronteiras americanas e levando as operações a mais de 50 países, que os seus executivos têm sido acusados de ter uma postura de “imbecis”. Mesmo depois de David Plouffe, ex-gestor de campanha de Barack Obama, ter sido contratado para ajudar a multinacional a melhorar a sua imagem junto dos media, não têm faltado ocasiões para o público apontar o dedo aos comportamentos da Uber.

O CEO sempre teve fama de “bad boy” em Silicon Valley e os investidores dizem que é exactamente essa faceta que levou ao crescimento da empresa e que lhes deu confiança para investir numa área em que sabiam que à partida iriam encontrar uma série de obstáculos devido aos protestos dos taxistas. Mas quando Travis Kalanick disse, segundo o seu perfil para a revista GQ, que chama “Boob-er” à Uber por causa da quantidade de mulheres que caem aos seus pés desde que a Uber se tornou sinónimo de milhares de milhões de dólares, o possível charme ou obstinação de fora da lei perdeu-se completamente na clara falta de bom senso.

Má publicidade é sempre boa publicidade? Quando a Uber foi proibida de continuar as suas operações na Alemanha durante este verão, o facto de ter batido o pé e de ter dito que iria desobedecer e continuar a prestar serviços aos seus utilizadores valeu-lhe o estatuto de rebelde e um crescimento superior a 800% em downloads da aplicação. Mas com a crescente quantidade de histórias que têm surgido nos media sobre os condutores com cadastro criminal que de alguma forma escaparam ao escrutínio da empresa, sobre as mulheres que são alegadamente atacadas em carros e que mais tarde são desacreditadas pelo CEO, e sobre os comentários e atitudes inapropriadas dos seus executivos, são cada vez mais as pessoas que dizem que irão apagar a app.

Acusados de espiar os seus utilizadores

Apesar de um porta-voz ter dito que a Uber nunca quebraria a confiança dos seus utilizadores e que nunca iria usar informações privadas de quem opta pelos seus serviços, o BuzzFeed publicou ontem um artigo sobre uma app usada apenas pelos executivos da companhia que permite monitorizar qualquer utilizador, algo que vai completamente contra as regras de conduta da empresa que foram tornadas publicas apenas esta terça-feira, mas que terão estado em vigor desde os tempos primórdios da Uber.

A história surgiu depois de a jornalista do BuzzFeed News, Johanna Bhuiyan, ter sido alegadamente seguida por um executivo através da aplicação “God View”, sem a sua autorização, enquanto seguia num carro privado associado ao serviço de boleias. A app terá sido tornada publica por dois ex-funcionários da Uber que falaram com o site noticioso, reforçando a história da jornalista:

No inicio de Novembro, […] Johana Bhuiyan, chegou aos escritórios da Uber em Nova Iorque, em Long Island City, para uma entrevista com Joshe Moher, o gestor da Uber Nova Iorque. Quando saíu do veículo encontrou Moher à espera. ‘Aí estás tu’, disse ele equanto segurava no iPhone e apontava para este. ‘Estava a seguir-te’.

Também o empresário Peter Sims se queixou em 2011 de ter sido monitorizado pela empresa que actua maioritariamente no sector dos transportes quando seguia num dos seus carros. Num artigo do The Verge lê-se que Sims terá recebido mensagens de um desconhecido, enquanto seguia viagem, que davam conta de que a Uber estaria a controlar o seu percurso para uma festa de lançamento em Chicago.

É normal que uma empresa com a envergadura e visibilade da Uber, que cresceu ao ponto de actualmente valer mais de 17 mil milhões de dólares num tão curto espaço de tempo, gere alguma polémica junto dos seus concorrentes principalmente pelo modus operandi agressivo que adoptou. Mas as últimas notícias ultrapassam o campo da habitual concorrência entre companhias e só têm contribuído para o descrédito da Uber e dos seus lideres. Em Portugal, apenas dispomos dos serviços de carros privados da empresa através da app Uber Black, mas até agora não têm sido levantados problemas relativos aos mesmos.