Wes Anderson no Lisbon & Estoril Film Festival


A vinda de Wes Anderson a Portugal era, até há bem pouco tempo, um dos segredos melhor guardados por Paulo Branco. Depois de várias tentativas e promessas (houve inclusive uma retrospetiva dedicada ao realizador no Leffest de 2011), Anderson viajou finalmente até ao nosso cantinho à beira mar plantado para apresentar O Ouro de Nápoles e Sadie McKee em duas sessões bastante concorridas – uma no Cinema Monumental, completamente esgotada, e outra no Centro de Congressos do Estoril, com mais de metade da sala preenchida, apesar da forte chuvada que lá fora se ia fazendo sentir.

O primeiro dos encontros com o criador de Grand Budapest Hotel assemelhou-se, em vários aspetos, a um dos tantos festivais de música que vemos no nosso país. Conseguem imaginar os fãs à espera durante horas e os empurrões do costume para chegar às filas da frente? Foi exatamente igual, ou não tivesse o público-alvo de Anderson em Portugal tanto de melómano como de cinéfilo. Os admiradores do texano são absolutamente devotos à sua obra, como se percebeu pelo modo como foram abordando o realizador no Q&A. “Good evening Wes, it’s such a pleasure to finally meet You” foi uma das frases mais ouvidas ao longo das duas sessões. Muitos foram também os que trouxeram DVD’s e livros na esperança vã de os ver autografados- o mais popular entre todos era certamente Wes Anderson Collection, editado pelo crítico Matt Seitz no ano passado. O geek mais querido de Hollywood não esperava, com todas as certezas, uma recepção tão calorosa naquele início de noite escuro e húmido.

O Ouro de Nápoles, do consagrado Di Sica, revelou-se uma escolha certeira de Anderson (apesar de este a ter visto pela primeira vez há pouco tempo,“6,8 semanas atrás”), ou não fosse a sua linguagem visual tão semelhante à de O Pai Tirano e Pátio das Cantigas, comédias e obras maiores da tradição cinematográfica portuguesa. Para além de ter conseguido provocar o riso àqueles que normalmente não se predispõem para tal, o filme trouxe ainda uma revelação bastante pertinente do convidado: “estou a planear um guião com estes mesmos moldes, dividido em pequenas histórias”, disse em exclusivo à plateia.

A ronda de perguntas seguinte centrou-se, acima de tudo, na figura de Wes. Desde as suas influências até ao rumor sobre o parque de diversões que planearia construir com Mark Mothersbaugh (e que prontamente foi desmentido com um redondo “não!”) todas as atenções estiveram viradas para o tímido, mas bem disposto, cineasta. Foi ainda aproveitada a presença de Willem Dafoe na sala para cometer algumas inconfidências sobre trabalhos passados e orçamentos largamente ultrapassados ao longo dos anos.

A sessão dar-se-ia por encerrada com o usual caos que envolve pedidos de autógrafos e lutas por selfies tiradas em tempo recorde, forçando Paulo Branco- que acompanhou e moderou toda a conversa- a escoltar, com o auxílio do staff, o amedrontado e quase alienado Anderson até território seguro.

A 2ª masterclass, no Centro de Congressos do Estoril, cumpriu, por seu turno, as regras da etiqueta social, como não podia deixar de ser, e trouxe um público menos eufórico mas mais curioso e interventivo do que o lisboeta – embora uma jovem fã ainda revelasse estar contagiada com a já tão famosa febre Anderson, que só não teve destaque nas notícias por ter coincidido precisamente com o surto de Legionella. A admiradora aproveitou o tempo de antena dado para abrir o coração e alma a Wes com um “I love You” que tanto teve de aterrador como de hilariante.

Sadie McKee, um drama amoroso protagonizado pela inconfundível Joan Crawford, trouxe questões diferentes à reflexão pós-filme, que aliás começou com a temática da diferença entre papéis atribuídos às mulheres naquela época (anos 30) e nos dias de hoje. Notou-se, pela postura relaxada de Wes Anderson, que estava mais à vontade com as perguntas da segunda sessão: já sabia o que esperar dos cinéfilos portugueses e trouxe até um fato mais vistoso para ficar bem nas selfies. O realizador falou nas suas cenas preferidas de Sadie McKee, elogiando a abordagem de Clarence Brown nesta obra, bem como mencionando a importância do contemporâneo Wellman para o mundo do cinema. Uma das questões mais pertinentes chegaria perto do final da breve conversa (45 minutos com Wes parecem não chegar) e opôs academismo a autodidatismo, com o americano a elogiar o sistema bibliotecário da faculdade onde andou e que, apesar de não ser especializada em cinema, lhe abriu portas para o mundo da realização, onde se iniciou com o então colega Owen Wilson.

No dia seguinte houve ainda tempo para uma conferência de imprensa relâmpago, antes de Anderson partir de comboio rumo a Paris, onde o cineasta aproveitou para destacar a jovialidade do público português como um dos aspectos mais surpreendentes desta curta estadia.

Abaixo podem encontrar, na íntegra, as duas masterclasses de Wes Anderson no Leffest.