‘Baldna AlRaheeb’ (‘Our Terrible Country’)


Numa altura em que o ISIS anda nas bocas do mundo, Baldna AlRaheeb (O Nosso Terrível País) de Mohammad Ali Atassi e Ziad Homsi mostra-nos um outro lado da guerra civil na Síria, visto bem por dentro. Um lado menos mediático e menos poderoso que os das forças de Assad ou dos jihadistas: acompanha o exército livre.

Apresentado no Porto/Post/Doc,Baldna AlRaheeb é um filme eminentemente político, mas ao mesmo tempo um retrato íntimo e comovente de dois amigos que se vêem obrigados a sair da sua terra mãe. Em jeito de crónica ou diário, é documentada a viagem de Ziad Homsi e do escritor Yassin Al Haj Saleh desde Douma – uma zona libertada – até Raqqa, onde poderão enfim conseguir o exílio.

Entre planos atabalhoados e filmagens bruscas, nos primeiros minutos vê-se a conquista da Torre Médica da zona pelos libertários. Afinal, e como lembra alguém, são jornalistas e guerreiros ao mesmo tempo, numa mão a câmara, noutra a metralhadora. Ziad está na luta armada, Yassin está noutra dimensão da luta. Passou dezasseis anos da sua vida preso em nome da revolução e é tido como um ídolo. Foi torturado mas nada que se assemelhe ao que vê e nos mostra – uma cidade destruída, vazia, sem habitantes, um campo de batalha. Isto é “a tortura de uma sociedade”. Será a ‘zona livre’, livre de facto? Foi o possível.

Dois aspectos acompanham a progressão do filme – um técnico, em continuum, e um discursivo, em disrupção. À medida que a dupla vai traçando a sua rota, as condições das filmagens vão melhorando até que no final, já na Turquia, tudo é ocidental – a paisagem e os planos. Por outro lado, a confiança de Ziad e a certeza de Yassin de que é importante um escritor viver a situação sob a qual escreve, esvaem-se, muito em parte pelas perdas familiares que a guerra civil causou em cada um deles.

A promiscuidade do papel de Ziad, actor e realizador, acaba por envolvê-lo em demasia na narrativa, tornando-o quase como que uma homenagem ao seu amigo e “doutor da revolução”, Yassin Saleh. O cúmulo acontece quando, já exilados, Ziad elogia compulsivamente o escritor num discurso afectivo, cuja cena termina com a dupla visivelmente emocionada. Apesar de tudo seria demeritório resumir Baldna AlRaheeb a este sentimentalismo escusado quando é sobretudo uma reflexão sobre a luta por um ideal.

Texto de Alexandra João Martins