“O país tem um cineasta demasiado grande para o tamanho que tem”


“O problema é só este: o país tem (inexplicavelmente) um cineasta demasiado grande para o tamanho que tem. E, portanto, das duas uma: ou alargam o território ou encurtam o cineasta.” As palavras são de João César Monteiro e deram início à cerimónia de homenagem a Manoel de Oliveira na passada quinta-feira, no Teatro Rivoli, pela voz de Dario Oliveira, organizador do festival Porto/Post/Doc.

O grande auditório encheu-se e aplaudiu de pé o 106º aniversário do realizador português, numa sala que, finalmente, foi “devolvida aos cidadãos e à cidadania”, como lembrou António Preto, especialista na obra de Oliveira. Cantaram-se os parabéns, houve bolo e um pedido público da organização para que o grande prémio de competição do próximo Porto/Post/Doc se chamasse, precisamente, “Manoel de Oliveira”, deixando escapar a confirmação de uma segunda edição em 2015.

Foi neste contexto que estreou em Portugal, ao sétimo dia de festival, a mais recente obra do cineasta, O Velho do Restelo, recebida pelo público de forma entusiástica. Nesta curta-metragem de 2014, integrada nas “sessões especiais” e na categoria de “cinema falado” do festival, Manoel Oliveira senta, num banco de jardim à porta de sua casa, figuras icónicas como Dom Quixote, Luís Vaz de Camões, Teixeira de Pascoaes e Camilo Castelo Branco.

Num tom quase trágico são abordadas duras questões da história portuguesa numa “reflexão acerca da humanidade” baseada em excertos do livro O Penitente, de Teixeira de Pascoaes, mas com argumento do realizador. É um filme sobre a História de Portugal mas também sobre a história do cinema e do cinema de Manoel de Oliveira. As personagens são resgatadas de outros filmes e de outros livros e a narrativa intercalada por trechos dos seus Amor de Perdição (1979), Non, ou A Vã Glória de Mandar (1990), O Dia do Desespero (1992) e O Quinto Império: Ontem Como Hoje (2004), além de outros do soviético Dom Quixote (1957), de Grigori Kozintsev, contrastando com o cenário do século XXI.

Em O Velho do Restelo mergulhamos sem esperança numa História olhada pela lente inconveniente das derrotas, onde o pensamento dos protagonistas deambula entre o passado e o presente, vacuidade e alienação. Oliveira faz questão de filmar os prédios modernos por oposição aos figurinos exageradamente antigos, o que concede ao espectador uma noção da transtemporalidade. Como o realizador disse, trata-se de uma reflexão e, portanto, de um filme sem resposta.

Do último rebobinámos para o primeiro, Douro, Faina Fluvial de 1933, um documentário sobre a vida na beira-rio da cidade do Porto, à época avant-gard e fortemente inspirado no filme de Ruttman, Berlim, Sinfonia de uma Capital.

Seguiu-se O Pintor e a Cidade de 1956, um dos primeiros filmes portugueses a cores. Apesar das divergências estéticas relativamente a Douro, Faina Fluvial, este mantém o carácter documental. O Porto visto por um cineasta, o Porto visto por um pintor aguarelista. É um exercício, obviamente, da cor, que acabara de chegar mas é também um exercício interdisciplinar entre o cinema e a pintura.

Por fim, e com mais de trinta anos de diferença, Painéis de São Vicente de Fora –Visão Poética de 2010, aproxima-se de O Velho do Restelo em tempo e em ideias, servindo-se, as duas obras, da história como fonte de reflexão.

(texto: Alexandra João Martins e Raquel Cascarejo; foto: Paulo Cunha Martins)