Qual é, afinal, o modelo certo para a indústria musical?


Desde que a Internet surgiu que o debate sobre como adaptar a indústria da música a este novo meio tem sido uma constante. De Metallica a Radiohead; de acções judiciais contra empresas de partilha de ficheiros a lançamentos digitais onde os fans decidiam quanto pagar pelo produto; do novo fôlego dos lançamentos em vinyl à evolução exponencial da qualidade dos formatos digitais; da transferência de música pela internet de modo ilícito à possibilidade de a ouvir em plataformas digitais de forma legal. Muito tem mudado e ainda muito vai mudar.

Contudo, desde há uns anos para cá que o mundo dos downloads deixou de ser o “bicho papão” que era para muita gente, graças ao aparecimento das plataformas de streaming. A principal arma dessas plataformas era ter um conceito não só apelativo ao consumidor, que teria à sua disposição todo o catálogo musical das suas bandas preferidas de forma gratuita e legal, mas principalmente aos músicos, que seriam pagos com o dinheiro da publicidade transmitida entre músicas. Era um modelo aparentemente bastante bem recebido pelos dois lados, com muitos artistas a apoiarem publicamente a plataforma. Tudo parecia correr bem e a indústria da música estava finalmente a adaptar-se ao mundo da Internet.

No passado mês de Outubro, toda esta discussão voltou a inundar as redes sociais, graças à decisão de Taylor Swift – e aqui fica ao critério de cada um assumir que foi mesmo decisão dela ou não – de retirar todo o seu trabalho do Spotify. A principal razão foi o facto da plataforma não pagar o suficiente aos seus criadores de conteúdo, sejam eles os músicos, produtores ou intérpretes. A acção teve logo grandes repercussões, com linhas novamente desenhadas na areia, levando uma escolha de lados.

De um lado tivemos o músico Aloe Blacc que, num artigo escrito para o site da revista Wired, defendeu e detalhou o problema de Taylor Swift, explicando que mesmo ele, co-autor de um dos maiores hits do ano passado, recebera apenas 4000 dólares de direitos de autor provenientes de uma das maiores plataformas de streaming. Do outro lado, tivemos declarações de Bono Vox, dos U2, que, em entrevista para a Rolling Stone, disse que o problema não residia no Spotify, mas sim nas práticas antiquadas da indústria, sendo que as plataformas de streaming serviram para dar transparência a todo esse processo.

Para juntar mais lenha à fogueira, o músico e produtor Steve Albini deu uma palestra na conferência Face The Music 2014, em Melbourne na Austrália, sobre as diferenças entre o estado da indústria musical de outrora – mais especificamente entre os anos 70 e 90 – e o estado actual. A conferência é longa e densa, mas convém sublinhar a importância de ouvir este senhor falar. Acontece que, como ele mesmo aponta, o período em que esteve mais activo na industria musical foi dos anos 70 aos anos 90. Durante essas décadas saíram das suas mãos álbuns trabalhos dos mais variados artistas, entre eles, Pixies, Fugazi, Mogwai, Jesus Lizard, Jimmy Page & Robert Plant, Nirvana e mais recentemente Iggy & The Stooges, Gogol Bordello, Trash Talk e Cloud Nothings. Para além do extenso repertório como produtor, Albini esteve e está envolvido em algumas das mais influentes bandas de Noise Rock/ Math Rock/ Post-hardcore, como os Big Black, Rapeman ou Shellac. Resumindo, ele sabe do que fala.

A palestra começa com Steve a exprimir a sua satisfação e optimismo em relação ao estado da industria musical, afirmando mesmo que “nos anos 70 e 80 a maioria das bandas tinham carreiras inteiras sem verem uma única nota da sua música gravada”. Um pouco depois declara que “a música passou de algo raro e caro para algo grátis e mundial… que desenvolvimento fantástico!”. Para quem está familiarizado com Albini, estas declarações não são nada de surpreendente. Estamos a falar de um produtor que poderia ter feito uma fortuna graças ao In Utero dos Nirvana, mas não o fez, pois receber direitos de autor pelos álbuns que produz é algo a que se opõe fortemente. Portanto, que Steve vê com bons olhos as mudanças no mundo da música não é novidade. O interessante é o detalhe e a precisão com que desmistifica a ideia de que antigamente a industria musical funcionava melhor que agora.

De tudo o que foi dito, salienta-se a forma como as editoras antigamente escravizavam alguns artistas com adiantamentos monetários que estes acabavam por não conseguir pagar simplesmente com concertos e vendas de álbuns, bem como todos os intermediários – muitos deles desnecessários – provenientes na produção e distribuição dos álbuns. Destaca-se também o aumento de exposição que bandas fora do mainstream agora têm por todo mundo. “Há uns anos atrás a minha banda [Shellac] fez uma tournée pela Europa de Leste.(… ) Tocamos para casas cheias (…) nesses países nunca vendemos um único disco.” E por fim ainda há que referir a maneira como Steve disseca a famosa frase usada pelos gigantes da industria – “temos que descobrir como pôr isto a funcionar para todos” –, indicando a quem se refere o “temos”, o que significa “pôr isto a funcionar” e quem é o “todos”.

Steve ganha pontos não só pelo detalhe e transparência com que descreve todas as situações apresentadas na conferência, mas principalmente pela paixão com que defende a sua posição, quando ele, mais do que muitos, podia muito legitimamente estar no outro lado da discussão a criticar e queixar-se de todas estas mudanças. Comparemos com os intervenientes do lado oposto. Steve tem uma carreira musical de mais de 30 anos, enquanto Taylor Swift começou a trabalhar no meio há cerca de 10 anos atrás. Aloe Blacc foi responsável pela produção do maior hit do ano passado, enquanto Steve Albini foi responsável pela produção do último álbum da maior banda de toda a década de 90.

No entanto, apesar de tudo, há que ter consciência de que ter credibilidade não significa ter poder e infelizmente, neste momento, quem tem o poder são as Taylor Swift’s e não os Steve Albini’s. É que, por mais satisfação que tenhamos em ver alguém como Steve a defender as suas posições, a realidade é que a acção de Taylor Swift falou bastante mais alto. No dia em que a cantora reabriu a “guerra contra a Internet”, ouviu-se um suspiro de alívio colectivo de todos os artistas que partilhavam da sua posição, mas que tinham medo de a assumir. Agora, com Swift como ponta-de-lança, também eles se poderão juntar à luta. Mas o que é que isso significa? Significa voltar ao modelo de comércio antigo? Significa reabrir o debate sobre o aperto da regulamentação e legislação da Internet que há um par de anos atrás foi tão discutido na Casa Branca?

O que quer que signifique, o que é certo é que ainda agora (re)começou. Por isso, é normal que continuemos a ouvir falar disto nos próximos tempos.

Texto de André Isidro