Ride e Jesus and Mary Chain: o noise continua o mesmo


A recente confirmação dos Ride no NOS Primavera Sound e dos Jesus And Mary Chain no NOS Alive levou-me a pensar a relevância destes dois grupos nos dias de hoje. Pedi inclusive ajuda a alguns amigos, tendo eles sido suficientemente solícitos para me guiar pelo caminho do noise sem medos ou ouvidos tapados. E que boa foi a viagem.

Escrever sobre os Ride ou sobre os JAMC é, definitivamente, um mergulho para fora de pé. Ambas as bandas são demasiado importantes para que me possa esquecer de um ou outro pormenor, pelo que me decidi cingir ao que é essencial, atual e relevante. Falo pois da ressurreição (em 2007 dos Jesus and Mary Chain e em 2014 dos Ride) e nova vida destes grupos, volvidas mais de duas décadas desde o auge das suas carreiras.

As perguntas que geralmente se impõem, quando se fala sobre qualquer regresso, andam sempre à volta do mesmo. Desde o “faz sentido banda x ou y reunir-se?” até ao “não estão demasiado velhos para tocar aquele disco?” mas não sem antes passar pelo o clássico “será que ainda se lembram das músicas?”, todos os argumentos parecem pôr em causa a capacidade dos músicos, enquanto artistas criativos. Os musicólogos de pacotilha fazem-nos acreditar que todas as bandas têm um prazo de validade; cometendo assim as que o ultrapassam, uma imoralidade maior para com o mundo das artes e cultura, por desvirtuarem algo que, curiosamente, foi criado por elas próprias. Não será esta linha de pensamento incoerente, um pouco petulante e ainda menos fundamentada?

Haverá, claro, artistas que não conseguem honrar o seu passado (como aconteceu com os próprios Jesus and Mary Chain no Super Bock Super Rock de 2007), mas não são a regra. A generalidade das bandas continua a saber tocar os temas de trás para a frente- porque o fez durante anos em digressões pelo mundo inteiro- e a manter-se relevante, nem que seja pelo seu legado. Dêmos-lhes uma chance, caramba.

No caso dos Ride e dos Jesus and Mary Chain, acredito que qualquer uma das reuniões (no caso dos Jesus entendo que há duas – a de 2007 e a de 2014) ainda faça sentido, mas por diferentes razões.

Primeiro, e falando especificamente nos Ride, acredito que esta é a oportunidade ideal para consagrarem, fora do anonimato que tanto desejavam nos anos 90, as canções que ficaram esquecidas para muitos. Tal como os Slowdive, os Ride sempre foram menos reconhecidos que os My Bloody Valentine ou os Spacemen 3, mas por vontade própria. A ideia de perpetuar a identidade na música e não no visual tornou-os numa banda de culto, mas afastou-os dos cifrões (não que Andy Bell- guitarrista da banda- não viesse a colecionar mais tarde esses mesmos cifrões, no percurso com os Oasis e Beady Eye). Agora regressam, com as quezílias saradas e a maior parte das datas já esgotadas, para fazer a vontade a milhares de devotos, como é o caso do Ricardo Fiel, guitarrista dos Phase e do David Fonseca, em quem pensei de imediato quando estava a planear este texto. E como foi bom ler pela primeira vez as palavras dele sobre os seus heróis:

Tinha 14 anos quando ouvi o Nowhere, primeiro álbum dos Ride. Foi há 22 anos e lembro-me como se fosse hoje. Ao fim de um minuto do tema inicial – “Seagull” – tirei os phones e disse “vou comprar uma guitarra elétrica”. Nunca tinha ouvido nada tão espetacular na vida e partir daqui nada foi igual. Comprei a guitarra, uns pedais de distorção e formei uma banda que mais tarde se tornou nos Phase, banda inúmeras vezes comparada aos Ride. Passei anos a tentar imitar o som do Andy Bell, comprei guitarras Rickenbacker só por causa dele e passados 22 anos ainda é a minha principal influência.

Uns dias antes de anunciarem o regresso, disse cá em casa “os Ride vão ao Primavera. Não sei porquê, mas tenho um feeling.” E de repente anunciam Barcelona e agora Porto! Gritei de alegria, parecia que tinha 16 anos outra vez. Acho que era a banda que faltava, depois dos My Bloody Valentine e os Slowdive terem voltado e serem recebidos – e muito bem – como deuses por esse mundo fora. Quase que chorei de felicidade este ano quando vi os Slowdive tocarem o “Alison”, e parece-me que desta vez não vou aguentar durante temas como o “Vapour Trail”, “Chelsea Girl” e “Leave Them All Behind.

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Foto por David Fonseca

Outra pessoa em quem penso automaticamente, quando se fala em shoegaze, é o Vitor Hugo Azevedo (guitarrista dos D’Alva e fundador dos Iconoclasts). Pedi-lhe para abrir o coração e falar sobre a sua relação com os Ride e assim o fez, de forma sucinta, mas igualmente apaixonada:

Em Castelo Branco, de 1997-2000, a cultura musical era muito particular. Não sei exatamente como seria nas outras cidades, porque foi nesta que cresci, mas, 17 anos mais tarde, consigo perceber o enorme privilégio de ter recebido o melhor do Indie, cedo. Toda a gente ouvia Sonic Youth, Pavement, Sebadoh, Belle and Sebastian e, claro, todas as bandas de Shoegaze. Lembro-me claramente da primeira vez que ouvi My Bloody Valentine, e de como isso mudou a minha maneira de ouvir (e vir a fazer) música. Não estava interessado em virtuosismos instrumentais (para ser sincero, nunca tive uma fase Steve Vai, ou Malmsteen, e ainda bem!), e o que sempre me interessou foi o que a música nos faz sentir. E bolas… Ninguém, nunca, poderá ficar indiferente a um Loveless. Daí ao resto da “scene that celebrates itself” foi um pequeníssimo salto. Tinha, na altura, uma cassete com o Nowhere dos Ride, e o “Vapour Trail “continua a ser um dos meus temas preferidos de sempre. Rodou, e rodou, e estragou-se… O Going Blank Again sofreu o mesmo, mas em versão CD. Rodou, e rodou, e riscou-se. O que é sempre bom sinal (“Cool Your Boots” é impecável, e o auge do disco)! Essa melancolia misturada em pedais de efeitos nunca me passou. O Mt. Erikson dos Iconoclasts está cheio dela, e as guitarras desse disco têm os acordes, o delay, o reverb, e o som de quem viveu os anos 90 e herdou o final dos 80, mas apenas os lados bons.

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Foto por Luís Água

É por ler testemunhos como o do Ricardo e do Vitor que mantenho a minha posição sobre as reuniões: faz sentido que os músicos voltem a tocar juntos, passados 20, 30 ou 40 anos, desde que as pessoas os queiram ouvir. E neste caso, são mais que muitos os interessados.

Por seu turno, e voltando ao tema principal, os Jesus And Mary Chain parecem estar a trilhar um caminho distinto, ainda que costurado à sua medida. Como disse acima, acredito francamente que a reunião de 2007 tenha sido uma espécie de estágio para a fase que a banda atravessa este ano (pode ser que agora os escoceses não voltem a convidar a Scarlett Johansson para assassinar a “Just Like Honey”, como fez no Coachella desse ano). Desta vez, há a mente do brilhante Alan McGee – fundador da Creation Records – por detrás dos concertos que celebram Psychocandy, e nós estamos-lhe eternamente agradecidos. Agora sim vai ser bom ver os irmãos Reid ao vivo. E se tivermos, até lá, novidades sobre as canções que William e Jim disseram ter escritas e prontas a levar a estúdio, melhor ainda.

Em 2015, a banda sonora de uma geração inteira rodará os festivais portugueses com o volume no 11 e, desde os novatos como eu, até aos senhores do Shoegaze como Ricardo ou Vitor, ninguém vai querer faltar.
Decidi dar, precisamente, a estes dois mestres do noise português as últimas palavras do artigo, porque é sobretudo para eles que estas bandas se reúnem e (re)fazem história.

A confirmação dos Jesus and Mary Chain no NOS Alive para tocarem na íntegra o Psychocandy foi uma boa surpresa. Parece que anda tudo com pica para fazer barulho a sério! Provavelmente não teria havido Shoegazing (nem Ride, nem Slowdive) sem este álbum. Ouvir o “Never Understand” ou o “Living End” no recinto de Algés vai ser arrepiante, de certeza. Pelo menos para os moradores da zona.

Ricardo Fiel

A minha relação com os Jesus and Mary Chain começa com os Pixies, curiosamente, e com o “Head On. Por força da cronologia, ou não, continuo a preferir a versão à original. Mas foi assim que cheguei aos JAMC, e ao Automatic, e à irreverência de quem escolhe não ser massivo, e continuar a vestir de preto, e a masterizar tudo no redline, e não desligar o “Fuzz” (Shin-Ei FY-2, se tiverem curiosidade). Haverá lá maior charme musical que esse… Infinitamente copiados, nunca igualados (então na última década tem havido imensas tentativas). O Automatic era simpático, mas não se toca num disco que começa com um “Just Like Honey”, e nunca baixa o nível. A meu ver, esta é a maior obra prima dos irmãos Reid. Quando soube que poderia vê-lo ao vivo, na íntegra… Vou ser sincero, e espero, do coração, que seja genial. Já chegou o Last Splash no Primavera Sound para desilusão (por um lado… por outro, é uma história para contar aos netos). Depois de My Bloody Valentine e Slowdive (que estão absolutamente geniais, como sempre), se pudesse escolher mais duas bandas para “reviver”, seriam, de certeza, estas. Estou ansioso por ouvir ambas ao vivo.

Vitor Hugo Azevedo