‘Birdman’: somos os nossos próprios super-heróis


Birdman, um dos filmes mais aclamados pela crítica em 2014, é um dos mais aguardados deste início de ano. A comédia dramática do mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu é o filme mais nomeado para os Globos de Ouro, com sete nomeações, superando assim as cinco de Boyhood. Os vencedores serão anunciados dia 11 de janeiro.

A pergunta que surge logo ao início é: a vida imita a arte ou a arte imita a vida? A escolha de Iñarritu pelo actor Michael Keaton para o papel de protagonista deste filme não foi feita por mero acaso. Será mesmo uma provocação – um imitar da realidade. Mais de duas décadas depois, Keaton – o ex-Batman – volta a emprestar o corpo a um super-herói, mas desta vez duma forma bem diferente. Riggan, o personagem principal, é um ex-actor de cinema que viveu o auge da sua carreira quando interpretou o papel de um super-herói bastante popular – Birdman. Quando recusou o terceiro filme da saga do super-herói a sua carreira começou a ruir lentamente. E é aqui que a ficção deste filme se cruza com a realidade de Michael Keaton. Depois de interpretar o papel de Batman, Keaton nunca mais teve um papel tão relevante no mundo do cinema.

A acção gira em torno do passado atormentado de Riggan.

Quem contribui para esta fauna emotiva é o fantasma do passado de Riggan, o próprio Birdman, cuja voz off e aparições pontuais, tentam constantemente levá-lo a reconhecer que quem nasceu para super-herói não chega a ser ator a sério. Eles são um só, indissociáveis, e a contínua aparição é a voz da sua consciência que questiona os seus atos, dia após dia. Um humor negro que mistura a realidade com a ilusão e exterioriza os medos.

Birdman é uma sátira ao mundo do show business de Hollywood repleto de diálogos sarcásticos e um elenco muito coeso e competente, com destaque para Emma Stone, Naomi Watts e Edward Norton. Retrata o mundo atual, onde a fama é algo a ser conquistado a qualquer preço e a palavra perde cada vez mais espaço para a beleza da imagem. Trata-se de um filme absolutamente crítico: a Hollywood, à Broadway, à indústria do entretenimento. Um filme que diverte e faz refletir, ao sabor de situações bizarras e emotivas que Iñárritu soube explorar. Quase toda a ação decorre num único cenário, os bastidores do teatro, onde a câmara persegue, de forma rígida, os atores e sufoca o seu egocentrismo em momentos inoportunos. Tudo isto é enquadrado num ritmo de diálogos cortantes e momentos plenos de loucura – um ritmo frenético que só diminui para inflamar o brilho das atuações.

Iñárritu brinda-nos com uma verdadeira aula de narrativa. O plano sequência é omnipresente, há um ziguezaguear constante pelos corredores. A câmara é como se fosse uma espiã, onde às vezes perde situações e corre para saber o que acontece, com o espectador a ficar incorporado na ação.

A cinematografia – a cargo de Emmanuel Lubezki, senhor da fotografia nos filmes de Terrence Malick – e a edição detalhada já impressionam antes de o vermos no grande ecrã. Afinal, é na união do argumento com a imagem que se faz Birdman e é por este apelo à beleza e ao detalhe que voa para bem longe do habitual universo dos super-heróis.