Novo antibiótico pode ser eficaz contra bactérias multirresistentes


Uma equipa internacional de investigadores descobriu um composto com propriedades antibióticas que é, ao que tudo indica, capaz de travar bactérias causadoras de doenças humanas resistentes aos antibióticos disponíveis.

“A resistência aos antibióticos está a espalhar-se mais depressa do que a introdução de novos compostos na prática clínica, causando uma crise na saúde pública”, escrevem num artigo publicado recentemente na revista Nature Losee Ling, da empresa NovoBiotic Pharmaceuticals (EUA), Tanja Schneider, da Universidade de Bona (Alemanha), Kim Lewis, da Universidade Northwestern (EUA) e o seus colegas.

Os cientistas descobriram o novo composto antibiótico – baptizado teixobactina – procuram, no solo, bactérias que, por serem muito difíceis de cultivar no laboratório, nunca tinham sido isoladas até aqui.

“A maioria dos antibióticos [actuais] foram produzidos a partir de microrganismos presentes no solo, mas esta fonte limitada de bactérias cultiváveis esgotou-se nos anos 1960”, indicam os cientistas no mesmo artigo da Nature. “E as abordagens sintéticas à produção de antibióticos têm-se revelado incapazes de substituir essa plataforma.”

As bactérias comunicam umas com as outras produzindo compostos, alguns deles com características antimicrobianas, para controlar o crescimento das comunidades de microrganismos vizinhos.

As bactérias que nunca foram estudadas em laboratório representam 99% das espécies existentes no solo, pelo que a probabilidade de encontrar novas moléculas com propriedades antimicrobianas é enorme. Para conseguir isolar estas espécies “incultiváveis”, a equipa teve de encontrar maneiras de as fazer crescer, desenvolvendo métodos de cultura no próprio ambiente natural da bactéria ou aplicando factores de crescimento específicos no laboratório.

Foi assim possível estudar laboratorialmente 10 mil estirpes bacterianas em quantidades suficientes para obter extractos ricos nos compostos que essas bactérias produziam. E quando os cientistas testaram a capacidade desses inúmeros extractos para inibir o crescimento de Staphylococcus aureus, observaram que um deles possuía uma actividade promissora contra aquela bactéria patogénica, fonte de graves infecções hospitalares. Tinham encontrado a teixobactina, produzida por uma bactéria a que deram o nome científico de Elephtheria terrae.

Quando testado em ratos de laboratório, a teixobactina – a bactéria antibiótico –mostrou-se eficaz na eliminação do Staphylococcus aureus. A teixobactina mostrou-se também eficaz em situações em que o Staphylococcus aureus se mutou para se tornar resistente a ela. Os cientistas terão agora de testar o novo antibiótico noutros animais antes de poderem pedir a aprovação dos testes em humanos para verificar a sua eficácia no corpo humano.

A teixobactina apenas funciona contra as bactérias Gram-positivas, não possuindo acrtividade contra as Gram-negativas, como a Legionella (bactéria que recentemente foi responsável por um surto de pneumonia em Portugal) ou a Escherichia coli.

Apesar de aparentemente as bactérias não serem capazes de desenvolver resistência contra este antibiótico, isso não é absolutamente garantido. Demorou cerca de 30 anos até surgirem as primeiras resistências a um outro antibiótico altamente eficaz, a vancomicina. No caso da teixobactina, os cientistas esperam que demore mais, mas de qualquer forma, o tempo que as bactérias demorarem a ganhar resistência permitirá encontrar novos antibióticos.

Com a quantidade de bactérias existentes no solo e com a técnica desenvolvida para as cultivar em laboratório, esta equipa tem à disposição as ferramentas necessárias para novas descobertas nesta área. Nas 10 mil estirpes de bactérias isoladas, encontraram 25 potenciais antibióticos – embora a teixobactina seja o melhor candidato até ao momento.

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