Olha, tens convites para o Boiler Room?


Ano após ano, a receita de sucesso das sessões Boiler Room continua a conquistar os portugueses e percebe-se bem porquê. A ideia de uma noite com as bandas e DJs mais badalados do momento, em que só se entra com convite — uma espécie de maçonaria da música sem aventais — e onde vão estar pessoas bonitas e influentes deixa qualquer um a babar-se profusamente, seja em Londres, Paris, Berlim ou Lisboa.

Dias antes dos eventos, as redes sociais inundam com “cravas” que de tudo fazem para ir, desvirtuando o conceito. Há até quem pague ou troque favores por um convite para estas sessões, porque, afinal de contas, é a “noite do ano”, juntamente com as outras 364, em que haverá “noites do ano” igualmente memoráveis, mas das quais escolhemos não nos lembrar quando chega a altura de chatear alguém para poder entrar no Lux e receber um carimbo fluorescente todo catita.

A acrescentar ao rol de argumentos que tornam a Boiler Room num dos fenómenos mais interessantes dos últimos anos, junta-se ainda o lado voyeurista da coisa: quem não conseguiu entrar, porque não tinha convite, pode ver a emissão em casa e comentar o que por lá se passa, fazendo-o, geralmente, com frustração habitual de quem é barrado à porta de uma discoteca. Um evento, sem dúvida, feito à medida de qualquer português (como sabemos, só há dois tipos de “tuga”: o folião e o rezingão – e este evento assenta que nem uma luva tanto a um como a outro).

Fora de provocações: o Boiler Room deste ano não trouxe, como seria de esperar, grandes novidades. Tirando a actuação da fadista Mariza, tínhamos já visto todos estes nomes em eventos semelhantes, e até em sítios bem mais interessantes do que o Lux. Claro que não nos cansamos de ver o DJ Ride a fazer as suas tropelias com remixes do Drake e a rebentar a casa com a ajuda do companheiro Stereossauro, mas uma noite Boiler Room pede sangue novo, como o que corre nas veias do Óscar Silva, mentor do projeto Jibóia (o lisboeta tocou num dos primeiros concertos da tarde) ou dos Batida. Pode ser que para o ano a Red Bull se lembre desse pormenor e arrisque, apostando em nomes mais jovens.

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No caderninho que regista os melhores concertos da “noite do ano” fica marcado o nome dos Buraka Som Sistema — ou, como bem diz um amigo meu, “Blaya Som Sistema” — e da Mariza. Duas instituições da música portuguesa que mostram, noite atrás de noite, o bem que faz às bandas portuguesas respirar mais ar estrangeiro: as suas performances estão afinadas ao mínimo detalhe. Não há ali nada que falhe. Orgulha-me que dêem cartas pelo mundo fora. Na electrónica, Rastronaut e Ride levaram os galardões da noite; impossível ficar parado um segundo que seja, durante os seus sets.

Que na 4ª edição da Boiler Room voltem os convites e a boa música, mas com mais newcomers à mistura . Caso contrário, este que vos escreve terá de ficar em casa, a fazer o papel de tuga rezingão. E ninguém vai gostar disso.

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