‘The Interview’: buzz ou algo mais que isso?


Este artigo é gratuito como todos os artigos no Shifter.
Se consideras apoiar o nosso trabalho, contribui aqui.

Talvez a crítica peque por tardia, mas sinto que a única maneira de compreender a real dimensão do fenómeno Interview passa por analisá-lo semanas depois da sua estreia. Vi o filme no dia em que chegou à Internet, e preparei-me para o comentar, mas foi, de facto, melhor esperar até agora.

Primeiro que tudo – e sem grandes vergonhas – posso-vos admitir que me ri, e muito, com o The Interview (o filme é uma comédia, caramba, se não vos arrancar um único sorriso é porque algo está mal com as vossas vidas). Ri-me com as piadas fáceis sobre pilas e cocó, porque não senti necessidade de as intelectualizar; não é esse o seu propósito, nem nunca foi. Aliás, defendo sempre que quando nos temos de rir das coisas simples, que o façamos, porque, afinal de contas, são as que mais piada acabam por ter. O riso forçado ou pensado não é aquele que os realizadores e argumentistas devem cativar, sobretudo em experiências como esta. Golberg, Rogen e Sterling cumpriram aquilo a que se tinham predisposto. E contra isso não há grandes argumentos.

Por outro lado, compreendo, e até defendo, quem diz cobras e lagartos do filme. Uma experiência inovadora como esta tinha tudo para ser um golpe letal contra a opressão desumana que se faz sentir na Coreia do Norte, mas acabou a gorar-nos as expectativas e a deixar os coreanos melhor vistos do que a autoproclamada nação suprassumo. A leviandade com que se fala na fome do povo subjugado a Kim Jong-Un é de um mau gosto atroz, e não fica bem nem a tipos tão bons quanto Franco ou Rogen (ainda que este último tenha vindo a banalizar o seu trabalho e a cair no erro de interpretar constantemente o mesmo tipo de personagem). Custa-me a acreditar que aquela visão, ainda que exagerada e satirizada, corresponda ipsis verbis ao que os americanos pensam sobre o regime ditatorial de Un. Os sorrisos, que dantes eram espontâneos e sinceros, são agora tímidos e de vergonha alheia por quem pôs este filme cá fora sem pensar duas vezes.

Isto não quer dizer que defenda o ciberataque à Sony, nem que acredite na súbita vontade de Un pacificar as suas relações com os vizinhos do Sul. Estou, como muitos saberão, longe de confiar em qualquer missiva vinda dos norte-coreanos, mas sinto-me compelido a dar-lhes a mão (à população e não ao seu líder) nesta luta pela sua dignidade. Não é com previsíveis preconceitos que se destrói a credibilidade de um regime, mas sim com solércia e distinção. Aqui, falharam as duas últimas. Por muita piada que tenha ver o jovem Kim Jong a deliciar-se com uma canção pop, capitalista e massificada, sentimos que falta conteúdo e pesquisa por detrás das ideias que deram origem ao filme. Qualquer um de nós, com a dose certa de erva e whisky, conseguia finalizar o guião de The Interview, tenho a certeza.

No momento em que o filme ultrapassa os 30 milhões de dólares, em receitas de bilheteira e de online, já ninguém parece pô-lo à prova. Uma Entrevista de Loucos (título traduzido e mais do que adequado) é um sucesso que se faz valer pelas pressões de Pyongyang e não pelo seu combate feroz às artimanhas despóticas dos ditadores de olhos em bico, como esperaríamos. Para mim, é mais um buzz de fim-de-ano que apenas merece ser consultado para debate informal com amigos ou familiares. Não mais do que isso.

Investimos diariamente em artigos como este.
Precisamos do teu investimento para poder continuar.