‘Whiplash’


Damien Chazelle. 19 de Janeiro de 1985. Providence, Rhode Island, EUA – a terceira e a quarta linha da janela que vemos do lado direito dos resultados de pesquisa do Google resumem a informação básica daquele que, desde a última quinta-feira, se juntou a Orson Welles e John Singleton no restrito grupo de realizadores nomeados para um Oscar com menos de 30 anos.

O realizador de Whiplash – que diz sem mostrar vergonha que escreveu a segunda parte de O Último Exorcista para poder pagar as contas – levou para o cinema aquilo que muitos dizem ser hábito dos jovens escritores: um trabalho autobiográfico, que lhe tem valido elogios um pouco por todo o mundo. Esse não será o seu principal mérito, até porque isso não é algo propriamente novo no cinema. Escolhendo um exemplo bem actual, Xavier Dolan – outro dos jovens realizadores na calha para se juntar ao tal grupo dos sub-30 nomeados pela Academia – leva isso ao extremo, juntando aos seus temas autobiográficos o facto de ser ele próprio o personagem principal dos filmes que escreve e realiza.

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Mas não se pense que – com todo o (merecido) buzz criado à volta de Whiplash – Chazelle é visto com um menino bonito pela Academia. Nem esse será, de todo, o seu objectivo. O miúdo Damien, tal como o seu personagem Andrew, foi em tempos um prodígio que aspirava a juntar-se ao clube dos grande bateristas de jazz da história. Fez parte da banda da secundária de Princeton, New Jersey, onde vivia com os seus pais, mas apesar de ter continuado a tocar quando entrou em Harvard, decidiu que já tinha feito esforços suficientes pela música, resolvendo então virar-se para o cinema. Ainda assim, 10 anos depois de deixar o secundário, Chazelle continuava a recordar o lado negro da sua obsessão pela percussão: o medo que sentia quando, ainda em Princeton, era “espremido” por um professor de música que tentava, de quase todas as maneiras, tirar o melhor rendimento possível do então prodígio da bateria. Quis, por isso, fazer um filme sobre este outro lado da música – o lado oposto aos encantos e poderes de uma arte que patrocina e inspira românticos, loucos, poetas ou pessoas completamente normais, em qualquer canto do mundo. Whiplash não seria sobre o quão bonita é a música. Seria antes sobre o esforço, a dedicação e a auto-superação que esta exige. Sobre os medos e as opções com as quais os que querem ser os melhores são forçados a lidar. E é exactamente isso que Whiplash é. E também talvez por isso haja quem o defina como uma espécie de “Black Swan do jazz e da bateria”.

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Chazelle sofreu na pele o que decidiu representar nesta obra. Ossos do ofício com os quais teve que lidar novamente – num ofício diferente – na altura em que decidiu tornar a sua ideia realidade. Quando quis concretizar o projecto Whiplash, escreveu um esboço durante algumas semanas, dedicando-lhe depois quase um ano até sentir que o seu trabalho merecia ver a luz do dia. Mas, chegada a hora da verdade, nem tudo foi um mar de rosas. Depois do seu agente ter feito circular o argumento durante 6 meses, sem grande sucesso, este chegou às mãos de Jason Reitman – realizador de Juno (2007), Up In The Air (2009), entre outros – que gostou tanto do que leu que resolveu comprometer-se a produzi-lo. Se a boa notícia trazia esperança para o projecto que até aqui não tinha sido fácil, o problema que surgiu nessa altura não seria menos difícil de resolver: Quem iria financiar um projecto liderado por um tal de Damien Chazelle, naquela altura com 27 anos?

Reitman sugeriu então a Chazelle que mostrasse aos potenciais financiadores “um cheirinho” do que poderia vir a ser a obra final. Sem muito a perder, este aceitou o desafio e foi com uma curta de 18 minutos daquele argumento que levou para casa o prémio do júri na categoria de Short Film do Sundance Film Festival 2013. O primeiro objectivo estava cumprido – os financiadores apareceram – e o segundo ficou automaticamente definido: Whiplash haveria de voltar ao Sundance no ano seguinte, agora como longa-metragem.

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Ao longo de pouco mais de 100 minutos, Chazelle conseguiu honrar quase tudo o que o fez chegar à ideia do filme. E no ambicionado regresso ao Sundance, isso valeu-lhe o Grande Prémio do Júri e o prémio do público. As nomeações recebidas para os Oscars já serão algo para além das expectativas do próprio realizador. E que bom é ver as nomeação da Academia com tantos “intrusos” independentes. Mas porque nem tudo é assim tão cor de rosa na relação Whiplash-Academia, a obra está nomeada para Melhor Argumento Adaptado e não para Melhor Argumento Original. Estranho, já que a obra é baseada na experiência de vida do próprio Damien Chazelle, que já a havia transformado numa curta, com o propósito que conhecemos. A justificação dada aquando da nomeação foi que esta pertence ao grupo de obras baseadas “em materiais previamente produzidos ou publicados”. Será assim, sem dúvida, o mais original dos argumentos adaptados a concurso.

Whiplash é, no mínimo, intenso. A história do prodígio Andrew não demora muito tempo a agarrar quem resolve conhecer o lado menos bonito de um baterista ambicioso. Os cocktails de frustração, raiva e medo são servidos ao longo de todo o filme e a dor física e psicológica chega até nós de forma mais ou menos directa através de coisas tão simples como pequenas decisões dos personagens. Se os gritos de J.K. Simmons são só uma parte da performance brilhante que tem no papel do professor Terence Fletcher, a determinação e frieza revelada pelo jovem Andrew Neyman (interpretado por Milles Teller) enquanto corta todas as relações com outras coisas que não sejam uma bateria e um par de baquetas é um dos bons pormenores que suportam o filme fora dos momentos tensos e do ritmo do jazz. J. K. Simmons personifica a exigência máxima da superação numa actuação que corre o sério risco de ser compensada com o Oscar para Melhor Actor Secundário. Já Teller parece conseguir passar tudo o que Chazelle foi e que este queria certamente ver em Andrew. Mais do que a experiência, a forma com Damien/Andrew lidou com tudo o que o rodeava poderá ser vista como o verdadeiro propósito da escrita e realização de toda a obra.

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Como seria expectável, Chazelle acaba por tomar também algumas decisões mais infelizes. O próprio Buddy Rich não terá conseguido o seu melhor solo na sua primeira actuação. É verdade que consegue surpreender-nos algumas vezes durante a narrativa, mas também devemos admitir que não consegue evitar lugares habituais que por vezes tornam a obra um pouco menos singular. Ainda assim, a escolha do exagero sensorial para ilustrar a obsessão que Andrew tem pelo jazz e pelos tempos (ler com sotaque inglês) é um dos bons pormenores de realização com que somos brindados. Realização essa que contemplou 19 dias de gravações. 19 curtos mas longos dias de 18 horas de trabalho foi o tempo que Chazelle teve para gravar Whiplash. Tudo porque insistiu em escolher Milles Teller para o papel, mesmo tendo que lhe dar aulas particulares que o fizessem parecer algo mais próximo de um prodígio da bateria. Para encaixar na agenda do actor, as filmagens teriam que acontecer naqueles dias, deixando depois cerca de um mês para que fosse feita a edição a tempo da inscrição no Sundance – aquele que era nessa altura o grande desafio para o realizador.

Chazelle cumpriu bem mais do que o seu objectivo num filme realizado num tão curto espaço de tempo. Com 30 anos acabados de cumprir, espera-se que Whiplash não seja apenas um trabalho isolado de um realizador que acaba por se perder nas manhas de uma indústria perita em desvirtuar o talento dos menos fortes. Esperamos então que Chazelle se supere quando tiver mais do que um mês e 19 dias para realizar um filme. Não será fácil, mas seria bom que um dia conseguisse trazer-nos algo ainda melhor que este Whiplash. E que isto não belisque em nada esta primeira obra integral de Damien Chazelle. Daqui a algum tempo, quando por acaso procurarem outra vez o nome dele no Google, poderão encontrar uma estatueta dourada como anexo. Mesmo que isto não se confirme, Whiplash terá sempre que ser visto como um dos grandes filmes de 2014.