‘Better Call Saul’: mais que um spin-off, um admirável mundo novo


Estreou no passado domingo a nova série de Vince Gilligan e Peter Gould que promete deixar os fãs de Breaking Bad e os “novos clientes” a contar os dias até ao capítulo seguinte.

Durante os 5 anos em que Breaking Bad esteve no pequeno ecrã, fomos habituados ao estilo de Gilligan e Gould, com planos fantásticos e cenas improváveis como a genial cena de Skylar e Walter na cozinha ou esta, por exemplo. São estes pequenos pormenores que muitas vezes nos fazem querer rever as 5 temporadas de Breaking Bad e desfrutar das cenas mundanas, longas, silenciosas e, acima de tudo, podermos calçar os sapatos da personagem. Além de todo o enredo e das interpretações que nos fazem acreditar na realidade que sabemos ser ficção, conseguimos verdadeiramente desfrutar das imagens que vemos. Desde as paisagens dos desertos no Novo México aos close-ups de todas as etapas da preparação de crystal meth.

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Nesta nova aventura, a equipa de Gilligan e Gould está muito mais confiante. Não estão necessariamente mais profissionais ou mais competentes. Simplesmente, sentimos que trabalham em uníssono – quase como a equipa Mr. White & Jesse.

Este “à vontade” na equipa de produção de Better Caul Saul permitiu criar um pilot muito, mas mesmo muito, melhor que o de Breaking Bad. Enquanto que há 6 anos a preocupação era apresentar com alguma qualidade a profundidade de Walter e Jesse, na nova série protagonizada por Bob Odernik sentimos que estamos em casa. Já conhecemos Saul por completo e confiamos na equipa de produção. Por isso, o episódio piloto de Better Call Saul é muito mais maduro e não se foca em mostrar o possível road map da história mas sim em desmontar o que tomamos por garantido. Apesar de, como foi dito, as apresentações sejam algo dispensáveis, a verdade é que o Saul Goodman com quem nos deparamos, é Jimmy McGill. O que quer dizer que, apesar do seu jeito incomparável, ainda não é propriamente um “criminal lawyer”.

Ao longo destes 2 primeiros episódios encontramos, como não poderia deixar de ser, referências a Breaking Bad. Ainda que não sejam propriamente forçadas, esperemos que tenham um papel no desenrolar dos próximos capítulos, sem que se tornem numa simples estratégia para nos agradar. Até porque muitos serão os fanáticos de Breaking Bad que acabarão por ver e rever os episódios à procura delas. Nestes primeiros episódios, um simples plano em que vemos Saul a conduzir pelas ruas da cidade é suficiente para que tentemos identificar, por exemplo, a casa de Walter White.

Para além do protagonista Saul Goodman (Jimmy McGill, neste caso), são 2 as personagens de Breaking Bad que reencontramos nestes primeiros episódios. Uma delas é o fantástico Mike. Sem que lhe seja dado grande destaque (por enquanto), o seu papel  acaba por se assemelhar ao que desempenhava em Breaking Bad. Sempre calmo, honesto e justo. Em Better Call Saul – e, novamente, por enquanto – por muito pouco preponderante que seja a sua função, este cumpre-a com um rigor tal que chega a parecer que o mundo depende disso.

É-nos apresentada ainda a família McGill, com especial destaque para Chuck. O irmão mais velho de Jimmy vive isolado numa casa e podemos perceber que o papel que assume acabará por ser importante na evolução do carácter da personagem que, como sabem os fãs de Breaking Bad, um dia acabará por se tornar em Saul Goodman.

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A verdade é que Better Call Saul correspondeu de forma bastante competente às expectativas criadas. Principalmente porque conseguiu posicionar-se distante de Breaking Bad e ao mesmo tempo manter-se intimamente ligada. Surpreende por mostrar potencial para ser uma série 100% independente do trabalho anterior de Vince Gilligan e Peter Gould, mas igualmente por não nos defraudar em relação ao que podíamos esperar deles. E ainda por outra coisa: o sound design, especialmente dos close-ups, é um pormenor capaz de fazer as delícias dos mais atentos.

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Por tudo isto, é justo dizer que podemos contar com mais uma série cheia de momentos tensos, de introspecção e que abalam aquilo que é o politicamente correcto. Teremos certamente oportunidade de assistir a vários momentos onde Jimmy McGill acabará por se deparar com situações onde escolher entre o que deve e tem de fazer será a sua missão mais difícil. Mas sabendo do que Guilligan e Gould são capazes, acreditamos também que dificilmente conseguiremos prever a sua decisão. Resta esperar pelo desenrolar da história e perceber se seremos capazes de chegar ao fim de Better Call Saul e sentir a mesma compaixão por Jimmy que sentimos por Walter, no épico Felina.

Até lá, “It’s showtime, folks”.

(Miguel Mestre contribuiu para este artigo.)