Criolo: o elogio da loucura


A cena é clássica: vindo da plateia, algum Doido invade o palco e dá tudo (mas mesmo tudo), até que os seguranças o convidem a sair. Para a cena continuar clássica, o Doido salta para cima das pessoas, na esperança de as poder crowdsurfar, e foi isto que aconteceu à minha frente, no concerto do Criolo (ex Criolo Doido), no Armazém F, a 30 de Janeiro.

O resultado foi semi-desastroso, pois os espectadores (na maioria espectadoras) saíram de baixo e aquele Doido aterrou no chão. Depois levantou-se e sacudiu o cabedal, com um enorme sorriso na cara, gritos a arranharem-lhe a garganta, e fazendo lembrar aquela frase da Rita Lee: “doido só são aqueles que não são felizes”.

https://youtu.be/tc-ANiJenLM

Sobre o Criolo, e ainda no campo maluco das citações, há uns anos ele declarou ter retirado o “Doido” do seu nome artístico, porque tal palavra era um elogio demasiado grande, e ele ainda não se sentia digno dela. “Talvez um dia possa assumir essa honra”, foi o que disse o homem que, vestido como um messias, levou ao semiparaíso um Armazém F a rebentar pelas costuras.

Como se esperava, o senhor fez-se deus, tocando sobretudo os dois últimos álbuns mas sem esquecer um ou outro clássico dos seus LPs. Cuspiu as rimas que são versos de poemas, misturando como ninguém o Hip Hop, o Samba, o Dub, o Bossa, o Funk… e até o Rock que fez o senhor do cabedal decidir voar para o chão.

Entre os temas (que não desiludiram), Criolo falou de coisas ainda mais importantes do que as misturas e as mixagens: consciência humana, equilíbrio social, propósito maior no Universo, poesia, paz e Bob Marley.

Talvez o Criolo esteja menos Doido, mas a sua música continua óptima. E como se vi viu no teatro dos seus olhos, que tanto brilhavam como se fechavam às sete chaves da introspecção, e como se ouviu na sua voz, que tanto ria como chorava, poeta ele irá ser sempre. E só os poetas sabem que misturar é preciso. Como sabem que criolos somos todos, embora loucos só alguns.

(vídeo: Guilherme Braz)