Equations: a conta que bate sempre certa


 
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Há muito que os fãs de Math-Rock e de sonoridades mais abrasivas aguardavam o segundo disco dos Equations. Hightower chegou este mês às lojas e foi apresentado em primeira mão aos lisboetas na ZDB, numa atuação esgotada que reuniu a fina flor da Lovers & Lollypops, editora maravilha deste cantinho à beira mar plantado.

Na bagagem dos portuenses (alguns deles são de Lisboa, mas o espirito é bem nortenho) vieram os Marvel Lima e os Killimanjaro, convidados (e bem)  para aquecer a noite chuvosa que se fazia sentir lá fora. Dos Killimanjaro, como é habitual, não há muito dizer; o Stoner Punk dos barcelenses é eficaz, mas cai na repetição à terceira música seguida. Já aos primeiros, há um manancial de elogios a fazer. Liderados por José Penacho, orquestrador-mor da parafernália solar, os Marvel Lima dificultaram bastante a tarefa aos Equations. É estupidamente ingrato tocar depois de uma banda tão boa, e que se apresenta com tanta consistência num registo tão cativante. Os ritmos calientes — leia-se bar de praia com groove e sem azeite— destes 5 rapazes são das coisas mais interessantes que nasceram recentemente no panorama nacional português. Vão por mim e escutem-nos quando acabarem a leitura deste artigo.

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Apesar da difícil tarefa, os senhores da noite foram, claro, os donos de “Hightower”. O novo álbum dos Equations foi desvendado no seu todo — pela ordem da tracklist, coisa rara nos dias que correm — de forma quasi apocalíptica e com arranjos ao vivo que em nada nos (des)iludem. “Afterlights”, faixa de abertura, comprovou em dois ou três minutos a minha teoria: em concerto, há poucas bandas que limpem a casa como a malta de lá de cima (de cabeça, só me lembro dos Moe’s Implosion). Não sei se é dos finos, mas a genica parece ser bem diferente daquela que se vê nas bandas da capital.

Nas únicas notas que tenho no telemóvel sobre o concerto — não consegui desviar muito o olhar da acção principal — encontro apenas uma referência à “estrondosa evolução da banda desde que entrou em estúdio para gravar o sucessor de Frozen Caravels”. É claramente perceptível, e por isso o apontei, um maior equilíbrio entre as guitarras e os teclados (sem que nenhum deles se sobreponha ou digladie em disco ou ao vivo), mas também uma melhor gestão das dinâmicas de cada músico. Os falsetes desafinados do frontman Bruno Martins parecem ter desaparecido — em Slow Trials, canção de destaque, há alguma tendência para subir um ou dois tons acima, mas nada que se compare ao registo passado — e Gonçalo Duarte dedica-se agora exclusivamente à guitarra.

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Nas suas actuações, há quem goste de se fazer ouvir diretamente da plateia .”És o maior, Zézé” foi, provavelmente, a frase que mais se repetiu ao longo da noite. A adoração ao alto mas não tão espadaúdo baixista vem de amigos, mas poderia servir para qualquer um dos outros músicos. Não que estes sejam virtuosos, no sentido Steve Vai do termo, mas têm o dom de nos surpreender vez atrás de vez com a sua competência e entrega únicas. Na recta final, há até quem mande rolos de papel higiénico, qual concerto de estádio. Festa merecida, principalmente para quem veio de tão longe para tocar nos nossos corações.

Os Equations parecem, com este novo registo, ter encontrado o “sweet spot” que precisavam para se lançarem enquanto “banda profissional”. No meio da sua demolição sónica, chegaram um contrabalanço harmónico único que os distingue da comum banda Post-Rock e que os torna num grupo polido e com ideias novas inspiradas em truques velhos. Dá gosto ver estes garotos a crescer. Esperemos que Portugal (e o mundo) tenha espaço para eles.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!