“Houve uma pessoa que já me disse que era muito ecléctico”


Estamos em Fevereiro e há muito que a cabeça anda por dia 5, data em que Bruno Pernadas apresenta, mais uma vez, o seu projecto a solo – um solo de muitos. Aconteceu no Teatro Maria Matos, pelos Jardins Efémeros de Viseu e agora vai acontecer no Centro Cultural de Belém (CCB). Porém, com menos três executantes – se já parecia impossível apresentar How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge em um palco de apenas 12 músicos, a tarefa passa agora a denominar-se de proeza. “Foi uma experiência que, em Viseu, correu bem” – e que, se correu bem, é para manter.

O palco não deixa este álbum confortável. Acontece que foi produzido exactamente para ser aquilo que é: um álbum. Um projecto que não teve em consideração a possibilidade de ser transformado em concerto. Aliás, uma das razões que lhe permite ser tão carregado – muitas sonoridades, muitos minutos por música, muitas possíveis interpretações. Acaba por ser difícil imaginar como pode soar ao vivo – é quase impossível não considerar um batalhão de músicos encaixados num par de metros quadrados. Como uma espécie de puzzle. Aliás, como o próprio método de composição de Bruno Pernadas – um puzzle onde combina uma constante correlação entre simplicidade e repetição, com uma persistente fuga à monotonia.

O resultado do seu trabalho é mais difícil de explicar (se é que há necessidade de explicar) – e por essa mesma razão temos os nome de Bruno Pernadas associado a uma infinidade de estilos musicais. Faz sentido? Sim e não. É relevante para apreciar o seu trabalho? O melhor é ouvir.

 

Isto parece um bocado abrupto.
O quê? O som do avião?

Não. O começarmos a conversa assim, de repente.
Não… É como preferires.

Porque é que utilizas tantos sons?
Não tenho nenhuma razão em específico. É um bocado, tipo: as músicas são construídas assim, de uma forma um pouco improvisada, e então, esses estilos, esses vários momentos musicais e varias entidades musicais surgem por natureza, sem eu saber que vão aparecer. Assim, quando começo a fazer a música, eu não sei como é que vai terminar ou qual é o estilo a que vai ficar associada. É uma coisa que eu não sei. Só mesmo depois de acabada.

Até porque não estamos somente a falar de instrumentos musicais. Há toda uma variedade…
De sons?

Sim, exactamente. Vozes, samples… Como é que tu organizas tudo isso?
É tudo por instinto.

É aleatório?
Não é aleatório. Eu estou a ouvir uma coisa a acontecer e oiço, em simultâneo, o som na minha cabeça. Depois vou à procura desse som. Se é um sample , se é um instrumento de sopro ou se é um instrumento harmónico é algo que eu só descubro mesmo depois.

E o resultado disso acaba por ser uma coisa algo complexa, parece-me. O que é engraçado porque, ao mesmo tempo, o sons utilizados não são, de todo, complexos.
Sim… Não sei… Talvez… Eu não sei se é complexo. Não sei. Se calhar tem momentos que sim, que podem ser um bocadinho.. o Ahhhhh, talvez.

Não há aqui um risco? Se tivermos em conta as pessoas que vão ouvir o teu álbum, podes captar totalmente a sua atenção, uma vez que existe uma constante alteração de ambiente sonoro, ou, pelo mesmo motivo, podes conduzi-las a um nível de desgaste tal que as obrigue a desligar.
Houve uma pessoa que já me disse que era muito ecléctico.

Ecléctico?
Ela acha que sim.

E tu?
Não sei. Varia muito. Mas isto implica também uma questão cultural. Há pessoas que estão habituadas a ouvir música muito variada e há pessoas que estão mais habituadas a ouvir um estilo em concreto, com o qual se identificam, a nível pessoal, emocional… Não sei. E depois, também acontecem situações como: eu posso apanhar grandes secas se for ouvir um cantor de folk com uma guitarra, do qual eu não gosto das melodias. À partida, nós já sabemos que vai ser igual do início ao fim, não é? Porque sabemos que ele vai usar a voz e a guitarra, mais nada. Mas se as melodias não são boas é uma seca descomunal. Porque é monótono. Então, se calhar, também tem que ver com essa procura de sons, cores, texturas… O colorir a música. Mas, tudo o que eu faço é de uma forma instintiva.

A tua música fornece imagens?
Sim. Eu acho que sim. Eu acho que todas as músicas as fornecem – em todos os estilos.

O teu nome aparece muitas vezes associado a toda uma panóplia de estilos musicais. Achas que isso faz sentido?
A imprensa faz isso com toda a gente. Nunca vi, nos últimos anos, uma crítica em que não o fizessem – a não ser em bandas de rock, hard rock… Coisas onde estão mais limitados.

Sim. Existem sonoridades claramente definidas em que não há como escapar.
Mas, na maior parte dos casos, nos artigos que eu leio, quando escrevem sobre música envolvem sempre quatro/cinco estilos diferentes. Mesmo que eles não existam, metem-nos lá. Por exemplo: é muito comum para definir um músico dizer que ele passa pelo jazz. Muitas vezes, eu, que passei pelo jazz, não oiço nada de jazz naquela música a que eles se estão a referir. Portanto, eles estão a falar de outra coisa qualquer que eu não sei o que é.

Então o que é que te parece? Que quando algo não está bem definido é colocado na caixa do jazz?
(risos) Talvez… Não sei. Exacto… Mas eu não estou a dizer que são eles que estão errados. Só estou a dizer que o jazz que eu aprendi e a música de jazz que eu estudei não está lá naquela música que eles estão a descrever. Então, quando o meu nome aparece associado a todos esses estilos, eu, dependendo da pessoa que escreveu o artigo, sei o que é que se está a dizer ou não. Agora, se for uma pessoa que eu não conheço, não sei o que é que ela está a dizer quando junta aqueles estilos todos.

(foto: João Bento)