Investigadores produzem potente anticorpo contra o HIV


Na década de 1980, quando começaram a surgir os primeiros casos e se identificou o virus HIV, a esperança média de vida dos doentes era bastante curta, sendo a doença rapidamente fatal. Após anos de investigações, e com o aparecimento dos anti-retrovirais que inibem a replicação viral, o panorama da doença é forçosamente diferente: a infecção pelo HIV e o estado de imunodeficiência conhecido como SIDA são situações crónicas que, com controlo farmacológico adequado, permitem aos doentes viver bastantes anos.

Apesar dos progressos, o que conseguimos até hoje foi transformar uma doença com uma progressão rapidamente fatal para uma doença crónica. Dois pontos muito importantes continuam por atingir: por um lado conseguir encontrar uma cura para os indivíduos que já se encontrem infectados, por outro, impedir a transmissão viral.

Relativamente ao último ponto, os investigadores têm feito bons progressos recentemente, tendo em vista o objectivo último de encontrar uma vacina contra o HIV. No fundo, os trabalhos passam por encontrar e desenvolver anticorpos que consigam inactivar o vírus antes que este inicie a sua replicação nas células do nosso sistema imunitário. E neste capítulo, um estudo publicado esta semana na revista Nature por um grupo de investigadores apresentou uma estratégia inovadora que se baseou na construção de uma molécula concebida para impedir a ligação do vírus às nossas células.

Como é que o vírus HIV infecta as células?

O HIV infecta as células do nosso sistema imunitário, nomedamente os linfócitos T CD4+, levando à sua destruição e à progressiva debilidade da imunidade. Esta preferência pelos linfócitos T deve-se à relação estabelecida entre as glicoproteínas expressas pelo vírus e receptores existentes na superfície dos linfócitos. O primeiro passo consiste na ligação da gp120 ao CD4 do linfócito, após a qual há uma mudança na conformação da mesma gp 120 que interage com outro receptor, o CCR5, permitindo uma ligação mais eficaz entre o vírus e a célula.

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O estudo

Os investigadores desenvolveram um anticorpo modificado que tira partido do conhecimento que temos sobre o modo de interacção entre o vírus e as nossas células. A nova molécula contem uma parte de CD4 combinada com uma pequena porção do receptor CCR5, ambas ligadas a um anticorpo. Baptizada como eCD4-Ig, esta liga-se ao vírus em circulação (que reconhece os constituintes CD4 e CCR5 como se fossem de um linfócito), inactivando-o.

O estudo foi levado a cabo em macacos Rhesus e os resultados obtidos foram extraordinários. O gene que codificava o eCD4-Ig foi inserido num vírus inofensivo para humanos (o AAV – adeno-associated virus) que funcionou como vector, levando os macacos a produzir esta molécula. Seguidamente os quatros macacos que expressavam esta molécula e os macacos do grupo controlo (sem expressão do eCD4-Ig) foram “postos à prova”. Ambos os grupos foram postos em contacto com o HIV-1, durante 34 semanas, com cargas virais cada vez maiores. No fim da experiência observou-se que todos os macacos do grupo controlo tinham sido infectados, enquanto nenhum dos macacos “protegidos” pela eCD4-Ig foi afectado pelo vírus.

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Os resultados obtidos com o eCD4-Ig foram muito superiores a experiências levadas a cabo com outros anticorpos já descobertos, nomeadamente os bNABs (broad neutralizing antibodies). Uma das razões apontadas para esta superioridade deve-se ao facto de o eCD4-Ig se ligar a regiões virais conservadas em todas as estirpes virais.

Apesar dos resultados entusiasmantes, a experiência foi levada a cabo em ambiente altamente controlado e em macacos, não em seres humanos. O líder da equipa, o imunologista Michael Farzan do Scripps Research Institute na Florida mostrou a confiança nesta nova abordagem numa entrevista ao Wall Street Journal: “É 100% eficaz. Não há dúvida de que é, até ao momento, o mais eficaz inibidor da entrada viral.”

Anthony Fauci, director do National Institute of Allergy and Infectious Diseases e editor do respeitado Harrison’s Principles of Internal Medicine, mostrou-se também esperançoso com esta nova abordagem: “Esta investigação leva-nos a avançar na direcção de dois objectivos importantes: alcançar protecção de longo termo contra infeccção por HIV e conseguir a remissão sustentada em indivíduos cronicamente infectados.”

Na mesma entrevista, Farzan, apontou quais as direcções a tomar de modo a tornar o projecto passível de ser utilizado com efeito terapêutico em humanos. “Uma das direcções é utilizar o inibidor como terapêutica molecular, sendo este primeiro passo bastante simples de tomar, para isso é necessário fazer trials em humanos, mas tem limitações pois obriga a injecções bastante frequentes. A segunda abordagem baseia-se em utilizar a molécula como terepêutica em indivíduos que já sejam HIV positivos, com o objectivo de diminuir o número de fármacos necessários para controlar o vírus. Outra perspectiva é direccionar a actuação para indivíduos em alto risco de serem infectados pelo vírus.”

As perspectivas são de certo animadoras e o trabalho desenvolvido nos próximos tempos será decisivo para mostrar a viabilidade desta promissora terapêutica em humanos. Não há dúvida de que estamos cada vez mais perto de chegar a soluções importantes para uma das grandes e mais mortíferas epidemias do nosso século.