Milk! Records, fundada por Courtney Barnett, é a nova editora da cena


 
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Corria o ano de 2012 quando a australiana Courtney Barnett, residente em Melbourne, decidiu lançar o seu primeiro EP I’ve Got a Friend Called Emily Ferris. Um EP completamente independente, produzido e editado em nome próprio. Para o trabalho ficar com um ar mais profissional, Courtney Barnett decidiu ilustrar nele uma garrafa de leite derramado com as palavras “Milk! Records”. Um trocadilho que servia de referência à forma como as editoras “chupam” tudo o que querem dos artistas, como se estes fossem as suas vacas leiteiras. Foi o nascer de algo que, segundo Courtney Barnett, “não é bem uma editora tradicional, mas sim outra coisa qualquer, difícil de definir”.

A verdade é que um nome que surgiu como brincadeira acabou por ganhar, juntamente com o sucesso do primeiro e segundo EPs de Courtney Barnett, um peso que não podia ser ignorado pela artista e pela comunidade de músicos à sua volta. A Milk! Records não se tornou numa editora responsável pela produção, edição e distribuição de trabalhos discográficos, mas sim no estandarte de um colectivo artístico que, alicerçado em nomes com algum sucesso, como Courtney Barnett ou Jen Cloher (esta segunda com maior exposição no circuito australiano), serve como plataforma de exposição para novos artistas e bandas que estão a crescer rapidamente na cena australiana. Como explica Jen, a Milk! Records não vai dizer a uma banda para lhes dar o seu EP, que eles tratam de tudo e fazem as coisas acontecer. A Milk! Records tem “um site que redirecciona para as lojas online, uma mailing list, um Facebook e um Twitter, and that’s it!”.

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Mas parece que isso é suficiente hoje em dia. Cada vez menos as bandas sentem necessidade de recorrer a contratos castradores com as chamadas editoras major e recorrem às edições por conta própria. A verdade é que, com o crescimento de sites como o BandCamp, SoundCloud ou Spotify, tornou-se possível editar trabalhos, de forma digital, a custo zero. A parte física do trabalho é feita por quem quer que esteja disponível, seja enviar uns mails, preparar merchandising ou ajudar a montar um showcase. E os lucros? Não vão para ninguém em específico, são utilizados para o próximo projecto na calha do colectivo que, diga-se de passagem, nunca está parado.

A Milk! Records já é a casa de 7 bandas e artistas como as supracitadas Courtney Barnett e Jen Cloher, o cantautor Fraser A. Gorman ou a banda de folk-rock East Brunswick All Girls Choir que, para além de gravarem os seus próprios álbuns, participam regularmente nos Milk! Projects, edições de coleccionador que reúnem músicas de todo o plantel da Milk! Records. E para tornar esses projectos possíveis, o colectivo não tem problemas em pedir ajuda à sua fiel base de fãs.

Para poder gravar a última compilação da editora, a Milk! recorreu ao site Pozible, um site semelhante ao Kickstarter. O seu objectivo de 5 000 dólares foi atingido no primeiro dia, em menos de 12 horas.

Também em Portugal algumas bandas começam a recorrer ao crowdfunding para obter os meios que lhes permitam produzir edições de autor, onde o controlo criativo pertence somente à banda. Os jovens Lotus Fever conseguiram, também em 2014, reunir mais de 5000 euros para gravar e produzir o seu álbum de estreia, Search for Meaning, com Ramon Galarza; o resultado foi um dos melhores LPs de 2014.

Em Março, Courtney Barnett vai lançar o seu primeiro longa duração, um álbum que promote criar impacto a níveis nunca antes experienciados pela Milk! Records. São óptimas notícias para o grupo de artistas australianos e para a música independente, que apresenta mais um exemplo de como, com muito trabalho, criatividade e alguma sorte, o espírito Do It Yourself pode dar bons frutos.

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