Os Capitães da Areia – ‘A Viagem Dos Capitães da Areia A Bordo Do Apolo 70’


Quando, em 1973, os Pink Floyd lançaram The Dark Side of the Moon, foram responsáveis pela aclamação popular do álbum conceptual, que até então era visto pelas grandes massas como suporte para devaneios experimentais – no bom sentido – de bandas como os The Who (Tommy; Quadrophenia) ou David Bowie (Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars), mas que a partir daí ganhou outro peso: a representação de pináculos criativos de bandas que têm a coragem de desenvolver uma história em volta de um conjunto de músicas e o respeito suficiente pela ferramenta que é o álbum conceptual para o fazer com mestria, criando algo que sabem que será marcante, pela mensagem que transmite, por aquilo que representa. Mas, ao presentear-nos com um dos melhores álbuns da história da música, a banda britânica democratizou o álbum conceptual e tornou-o uma ferramenta acessível a toda a gente, para o melhor e para o pior.

O álbum conceptual passou também a ser utilizado por algumas bandas como um atalho para tentar atingir uma certa elevação, um símbolo de ostentação artística, uma maneira de estas mostrarem (sabe-se lá a quem e porquê) que não se limitam à criação de músicas sobre esses temas cliché como amor, sexo ou drogas e que são capazes de criar algo mais “profundo”, com algum “significado” (o que quer que isso signifique). Mas é claro que esta ferramenta, por si só, não é suficiente. Os KISS lançaram um álbum conceptual. Pois é. Os Blue Oyster Cult também, de nome Imaginos. Caro leitor, peço-te encarecidamente que pesquises sobre aquilo que trata essa obra intitulada Imaginos.

Tudo isto para dizer que é necessário haver respeito pela ferramenta que é o álbum conceptual e não tomar a decisão de partir em tão perigosa viagem de ânimo leve, pois os resultados podem ser desastrosos. Na minha humilde perspectiva, para um álbum conceptual funcionar precisa, fundamentalmente, de duas coisas: um conceito – uma história com alguma substância, uma mensagem que mereça ser transmitida, um statement, alguma coisa forte – e música (leia-se instrumentação e letra) capaz de transmitir com clareza e potência qualquer que seja o conceito definido. Ao ouvir um álbum conceptual, o ouvinte tem que se sentir imerso numa narrativa tão interessante e cativante, que nem coloque a possibilidade de não ouvir a história desde o seu começo até à sua conclusão (ou seja, ouvir o álbum até ao fim).

Chegamos aos Capitães da Areia. Uma banda que, em 2011, surgiu na cena musical portuguesa com O Verão Eterno d’Os Capitães da Areia, um álbum com cheiro a verão no mínimo interessante, mas que desde então tem estado praticamente em silêncio. Até que, este mês, decidiram lançar um álbum conceptual, ao qual chamaram A Viagem dos Capitães da Areia A Bordo do Apolo 70. Durante um passeio por Lisboa, os Capitães decidem entrar no centro comercial Apolo 70 que, a certa altura, se transforma numa nave e levanta voo, para os levar numa viagem pelo espaço. Não consigo retirar muito mais desta premissa, começando por não conseguir atingir o conceito que os Capitães pretendem transmitir com este álbum. A verdade é que, na dimensão lírica, esta viagem parece-me um aglomerado sem sentido de episódios que não se relacionam de forma alguma.

Mas passemos à música que, no final, é o que importa verdadeiramente. Neste departamento, os Capitães da Areia saem mais uma vez traídos pela decisão de gravar um LP (entenda-se: longuíssima duração) conceptual. De facto, existem alguns momentos interessantes durante a viagem. A faixa instrumental electrónica apelidada de “Ájax”, numa possível referência ao herói da tragédia de Sófocles é um dos pontos altos do disco. Uma colaboração com os Capitão Fausto também oferece alguns resultados psicadélicos interessantes e até temos direito a um Requiem com níveis de “epicness” consideráveis. Mas o álbum arrasta-se ao longo de mais de uma hora e a maior parte das músicas acabam por soar a mais do mesmo pop sintetizado insonso que já vínhamos ouvindo nos minutos anteriores. Pior que isso, só o excesso de secções narrativas, que surgem praticamente entre cada música, o que acaba por cortar as asas a todos aqueles que pensavam que iriam mergulhar numa viagem musical.

A longa lista de convidados faz-me lembrar os filmes do estilo Expendables: de pouco vale um cardápio quase infinito de nomes sonantes (das 31 faixas, são 4 ou 5 as que não contam com participações) quando o produto final é inconsequente. Excepção feita à “Balada do Gasolineiro”, cantado por Tiago Bettencourt, outro dos raros momentos de destaque do álbum.

Poder-se-á ainda dizer que A Viagem dos Capitães da Areia A Bordo do Apolo 70 é uma espécie de abordagem satírica ao álbum conceptual. O problema é que a música irónica tem piada, mas só até certo ponto. Depois, torna-se cansativa. E eu até sou capaz, com muito jeitinho, de ouvir 75 minutos de ironia musical, mas só muito dificilmente repetirei a experiência. Mas, de qualquer maneira, não acredito que tenha sido esse o objectivo da banda.

Os Capitães da Areia não estavam preparados para lançar um álbum desta dimensão – que quer ser grande – e acredito, tendo em conta o seu primeiro álbum e alguns momentos deste segundo, que os resultados seriam muito melhores se não o tivessem feito. A tarefa de criar um álbum conceptual é algo que deve ser encarado com seriedade e respeito, sob pena dos resultados serem desapontantes, como é o caso.

Se calhar levo esta matéria dos álbuns conceptuais muito a sério. Talvez até a sério de mais. Acho que fui mal habituado. Bem, se precisarem de mim, estou a ouvir o The Wall.

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